REUTERS/Darrin Zammit Lupi
REUTERS/Darrin Zammit Lupi

A sombra de Daphne

O assassinato de uma jornalista em 2017 ainda persegue o governo de Malta; dois ministros renunciam e um rico empresário é preso

The Economist, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2019 | 09h00

A resiliência do governo trabalhista de Joseph Muscat é algo que impressiona. Durante seis anos, fortalecido pelo apoio resultante do rápido crescimento econômico (o Produto Interno Bruto (PIB) de Malta cresceu 6,8% em 2018), o governo tem resistido a alegações sórdidas que derrubariam outros governos.

Mas, em 26 de novembro, o governo maltês cambaleou. Um dos seus ministros, Konrad Mizzi, renunciou. Outro, Chris Cardona, declarou que estava “se afastando por vontade própria”. Horas antes o chefe de gabinete de Joseph Muscat, Keith Schembri, deixou o cargo. O que não foi surpresa: ele havia sido interrogado pela polícia que investiga um assassinato. Acredita-se que agora está preso. Cardona também foi interrogado com relação ao caso. Ambos negam qualquer transgressão.

A vítima do assassinato, a jornalista, Daphne Caruana Galizia, foi morta na explosão de um carro-bomba em 2017. Seu blog era a fonte de muitas acusações de corrupção. Entre elas a de que Keith Schembri e Konrad Mizzi tinham empresas registradas no Panamá e fundos na Nova Zelândia, o que eles negaram, e recebiam propinas de russos em troca de passaportes malteses.

Ela também afirmou que empresas de políticos receberiam pagamentos de uma empresa registrada em Dubai chamada 17 Black, mas no ano passado um grupo de jornalistas formado para continuar o trabalho dela reportou que o proprietário dessa companhia era um dos homens mais ricos de Malta, Yorgen Fenech, que tem interesses em operações de jogos, imóveis e energia. Mizzi e Schembri negam qualquer vínculo com ele ou com a 17 Black.

Três homens foram presos e acusados do assassinato de Daphne Caruana Galizia. Segundo algumas pessoas em Malta, eles seriam mais do que assassinos de aluguel. Mas não se sabe quem teria ordenado a morte dela.

No início deste mês, contudo, investigando um caso distinto, a polícia prendeu um motorista de táxi de 41 anos, Melvin Theuma, que propôs dar informações sobre a morte da jornalista em troca de perdão. Em 19 de novembro seu perdão foi autorizado, desde que ele oferecesse evidências para a polícia. No dia seguinte Fenech foi preso quando navegava em seu iate. Foi libertado sob fiança, mas está sob vigilância 24 horas da polícia.

Numa postagem em um blog, o filho de Caruana Galizia, Paul, afirmou que sua mãe estava investigando possíveis elos entre Fenech, os dois políticos e um acordo de fornecimento de gás com o Azerbaijão quando ela foi morta. “Deveria ser a grande reportagem da minha mãe”, disse ele. “Semanas antes de ela ser assassinada, começou a receber milhares de documentos internos da companhia de energia de Fenech, a Electrogas”. Até 29 de novembro a polícia não havia indiciado Fenech.

Os acontecimentos recentes provocaram muita revolta em Malta. Após as renúncias ocorreram cenas caóticas no Parlamento, com deputados da oposição insultando os parlamentares trabalhistas aos gritos de “ladrões” e “máfia”.

Uma multidão atirou ovos e moedas contra o primeiro ministro quando ele deixou o prédio. Não se sabe se essa fúria derrubará Joseph Muscat. Em 25 de novembro, ele convocou uma reunião com seus parlamentares, que lhe deram apoio unânime. Mas um comunicado feito posteriormente acrescentou, evasivamente, que a reunião “foi parte de um processo que continuará e levará a decisões”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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