Jim Lo Scalzo/EFE/EPA
Jim Lo Scalzo/EFE/EPA

Análise: A democracia 'prevaleceu'? A palavra certa talvez seja 'sobreviveu'

Quando começamos a avaliar os danos do mandato Trump, fica claro que não nos saímos muito bem

Jamelle Bouie, The New York Times

23 de janeiro de 2021 | 08h00

Em seu discurso de posse na quarta-feira, o presidente Joe Biden disse que, depois de quatro anos de caos trumpiano – com direito a dois meses de fúria contra os resultados da eleição, culminando no ataque ao próprio Capitólio – a “democracia prevaleceu”. Mas talvez tivesse sido melhor, ainda que inapropriado para o momento, o novo presidente dizer que a democracia “sobreviveu”.

De muitas maneiras, Donald Trump foi um teste de resistência para nossa democracia. E, quando começamos a avaliar os danos de seu mandato, fica claro que não nos saímos muito bem.

As forças que pensávamos que restringiriam Trump por simples autopreservação – a opinião pública e as exigências do ciclo eleitoral – não foram motivo de preocupação para um presidente que contava com a lealdade cega de sua base e uma afiada rede de propaganda ao seu lado.

As instituições que pensávamos que conteriam seus piores comportamentos – os tribunais, a burocracia federal – tiveram um histórico controverso, autorizando suas vontades na mesma proporção com que barraram seus impulsos mais destrutivos.

E o Congresso, concebido para fiscalizar e contestar um presidente alheio às leis, teve dificuldades para cumprir seu trabalho por causa da polarização e da lealdade partidária. Com apenas 34 senadores ao seu lado, qualquer presidente pode agir sob virtual impunidade, com a certeza de que não será destituído do cargo, mesmo que a Câmara vote pelo seu impeachment e a maioria dos senadores queira que ele saia.

Sim, realizamos uma eleição e, sim, Trump realmente deixou a Casa Branca – o Serviço Secreto não precisou arrastá-lo de lá. Mas a diferença entre nossa realidade e aquela em que Trump reverteria um resultado estreito a favor de Biden se resume a apenas algumas dezenas de milhares de votos em um punhado de Estados. Se a diferença entre vitória e derrota dependesse apenas da Pensilvânia ou do Arizona, será que teríamos tanta certeza assim de que os funcionários eleitorais republicanos conseguiram resistir à pressão avassaladora do presidente e de seus aliados? Será que teríamos absoluta certeza da imparcialidade da Suprema Corte? Será que o Partido Republicano não teria feito de tudo para manter Trump na Casa Branca?

Não precisamos especular muito. Em certos momento, mesmo antes da eleição, os principais atores sinalizaram alguma disposição de apoiar Trump, caso os resultados fossem apertados o suficiente para possibilitar uma contestação séria. E reportagens recentes do site de notícias Axios mostram que, desde o início, o plano era tentar se valer de qualquer ambiguidade nos resultados para reivindicar a vitória, mesmo que faltassem votos a Trump.

Fomos salvos, em suma, pela larga vantagem de Biden – o que não cai bem para a democracia americana e deixa clara a fonte de nossa disfunção: o Partido Republicano.

Não se trata de um insight novo, mas vale a pena repeti-lo mesmo assim, especialmente à luz do apelo de Biden à união, à decência e ao bem comum. Em 2021, o Partido Republicano é um partido quase totalmente subjugado por seus elementos mais radicais, um partido cuja maioria – como acabamos de testemunhar na semana passada – não aceita perder eleições e tenta derrubar ou deslegitimar o resultado quando perde. Essa maioria dissemina falsas acusações de fraude eleitoral e, em seguida, usa essas acusações para justificar a supressão e a privação de direitos eleitorais. E ainda alimenta seus apoiadores com mentiras e emprega essas mentiras, como fizeram os senadores Ted Cruz e Josh Hawley, para questionar os processos fundamentais de nossa democracia.

Quando está no poder em Washington, o Partido Republicano mal consegue governar e, quando está fora do poder, faz quase tudo que pode para impedir as ações do governo. E foi a lealdade quase inquebrantável do partido a Trump que neutralizou o poder de impeachment e possibilitou sua guerra para derrubar o governo constitucional, a qual culminou no 6 de janeiro, com uma multidão mortal invadindo o Capitólio.

Para começar a consertar a democracia americana, temos de deixar o Partido Republicano menos perigoso do que está. A solução ideal seria transformar nosso sistema bipartidário em um sistema multipartidário que separasse a direita radical da direita moderada e conferisse à segunda a chance de ascender ao poder sem apelar para a primeira. Mas isso requer uma mudança fundamental no sistema eleitoral americano – ou seja, não vai acontecer tão cedo (e talvez nunca aconteça).

A única alternativa – a única coisa que poderia forçar o Partido Republicano a mudar de rumo – é o Partido Democrata estabelecer um tipo de domínio político nacional não visto desde o apogeu da coalizão do New Deal. Os partidos tendem a mudar quando não conseguem ganhar o poder. Parte dos problemas dos nossos tempos é que o Partido Republicano pode conquistar uma grande parcela do poder nacional – até o controle unificado de Washington – sem receber a maioria dos votos, por causa de sua vantagem nos elementos contra-majoritários de nosso sistema. Sem essa vantagem, haveria um incentivo imediato para se fazer algo diferente.

Mas isto também é improvável. Mesmo que Biden tenha exitosos quatro (ou oito) anos no cargo, é difícil imaginar algo que pudesse ocasionar o tipo de realinhamento nacional que daria ao Partido Democrata uma vantagem duradoura na Câmara, no Senado e nos estados. Em um sistema que concede poder político tanto com base no território e nas fronteiras quanto nos votos, os democratas teriam de reverter a convergência da geografia com a identidade partidária – pela qual os eleitores rurais e não urbanos votam principalmente em republicanos, ao passo que seus homólogos urbanos e suburbanos votam sobretudo nos democratas – para obter o tipo de vitória que forçaria o Partido Republicano a sair de seu caminho atual e explorar novas ideias. E mesmo assim, como demonstra o exemplo do Partido Republicano da Califórnia e Kevin McCarthy, líder da minoria na Câmara, não há garantia de que o partido mudará seu tom.

Em outras palavras, o teste de resistência sob Trump revelou uma vulnerabilidade quase fatal em nossa democracia – um Partido Republicano militante e cada vez mais antidemocrático – para o qual talvez não tenhamos uma solução viável.

Dito isso, não acho que estejamos condenados ao governo minoritário dos reacionários. A vida política é imprevisível e não há como saber o que vai mudar. Sonhos elevados podem entrar na realidade e certezas óbvias podem desaparecer no ar.

Mas uma coisa é certa. A crise da nossa democracia está longe de terminar. O máximo que ganhamos com a saída de Trump é uma trégua do caos e uma chance de fazer todos os reparos que conseguirmos. / Tradução de Renato Prelorentzou

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