Erin Shaff/NYT
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Análise: Caminho mais difícil e sensato

Americanos repudiaram caos e irresponsabilidade de Trump e recompensaram moderação de Biden

Paulo Sotero*, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 05h00

Os americanos repudiaram o caos e a irresponsabilidade de Donald Trump e recompensaram a moderação, sensatez e experiência de Joseph Biden, elevando à Casa Branca o ex-vice do primeiro presidente negro dos EUA e a senadora Kamala Harris, a primeira mulher e primeira negra eleita vice-presidente do país.

O histórico triunfo do ex-senador de Delaware resultou de uma duríssima disputa e foi garantido pela mobilização sem precedentes de eleitores negros na Geórgia, Pensilvânia, Wisconsin e Michigan. A recontagem de votos, esperada em Estados onde a diferença entre os candidatos foi de menos de meio ponto porcentual, não deve alterar os números finais. Segundo advogados e políticos republicanos, ações judiciais prometidas por Trump para invalidar a eleição não prosperarão porque carecem de base legal. A votação e apuração se desenrolaram com total transparência, sem incidentes, e devem confirmar a vitória de Biden por 305 a 233 no colégio eleitoral, o mesmo resultado pelo qual Trump venceu Hillary Clinton em 2016, e por mais de 4 milhões de votos populares.

A vitória de Biden foi selada ontem com a apuração das urnas na Filadélfia, a cidade onde os fundadores do país escreveram e proclamaram a Constituição, em 1791. Ela estabelece que a escolha do presidente é feita por meio de um colégio eleitoral, cuja composição é proporcional ao tamanho da população dos Estados, e deixa a estes a tarefa de realizar as eleições. Sempre criticado por aumentar marginalmente a representação dos Estados menos populosos, o sistema mostrou-se resiliente em meio a uma pandemia que acelerou a transição rumo ao voto por correio.

A ampla participação dos eleitores mostrou a vitalidade da maior democracia do planeta. Mas expôs também os desafios que os partidos democrata e republicano enfrentarão. Os democratas viram encolher para 9 sua vantagem de mais de 30 deputados na Câmara de 435 assentos – uma clara rejeição popular das propostas da ala esquerda do partido de reduzir os orçamentos das polícias locais, acelerar a transição em curso a uma economia de baixo carbono e socializar o sistema de seguro e serviços de saúde. Eleições de segundo turno na Geórgia, em janeiro, definirão o controle do Senado. O desafio dos republicanos é mais complicado: libertar o partido da liderança tóxica e destrutiva de Trump, que certamente tentará permanecer no jogo e tudo fará para minar a presidência de Biden e a ascensão de rivais conservadores.

Ao novo presidente caberá articular um caminho ao centro e avançar na execução de duas prioridades. Trata-se de executar uma estratégia para conter a pandemia, que já matou quase 240 mil americanos e derrotou Trump, e reconectar o país com seus aliados mais importantes no mundo. O Brasil não está entre eles e dificilmente estará enquanto Bolsonaro e seus seguidores trumpistas estiverem no governo.

*É JORNALISTA E PESQUISADOR SENIOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WILSON CENTER, EM WASHINGTON

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