MINISTRY OF COMMUNICATIONS AND INFORMATION/via REUTERS
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ANÁLISE: Kim vê encontro como uma oportunidade de consolidar o poder

Kim Jong-un se tornará o primeiro líder de Pyongyang a se encontrar com um presidente dos Estados Unidos, a data mais importante até hoje de seu governo, que desafiou expectativas

Anna Fifield, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2018 | 05h00

Kim Jong-un acumula pioneirismos desde que assumiu o poder, no final de 2011: detonou a primeira bomba de hidrogênio da Coreia do Norte; lançou o primeiro missíl balístico intercontinental; foi o primeiro líder norte-coreano a cruzar a zona desmilitarizada desde a Guerra da Coreia. E vai emplacar mais uma conquista nesta terça-feira, 12, em Cingapura, quando se reunir com o presidente dos Estados Unidos. Será a data mais importante até hoje de seu governo desafiador de expectativas.

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“É um momento histórico”, disse Ken Gause, especialista em liderança norte-coreana do CNA, um grupo de pesquisa da Virgínia. “Mesmo que venha a ser apenas uma reunião para troca de cumprimentos, trata-se de um enorme evento simplesmente porque o presidente dos Estados Unidos e o líder da Coreia do Norte estarão sentados à mesma mesa.”

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Os dois líderes têm uma tendência a tomar decisões ousadas e adoram holofotes. Entretanto, ambos desejam que o encontro seja mais que apenas uma oportunidade de posar para fotos. Para o presidente Donald Trump, a reunião é a chance de provar seu autoproclamado talento de negociador e uma vitória diplomática após um ano de “pressão máxima” sobre a Coreia do Norte.

Para Kim, o objetivo é claro – e eminentemente relacionado ao prosidente americano. “Kim Jong-un quer tornar a Coreia do Norte novamente grande”, disse Kim Il-guk, que levantava fundos para o regime antes de fugir para o Norte, em 2014. “Ele pretende se livrar das sanções internacionais de modo a que a Coreia do Norte possa arrecadar dinheiro e voltar a crescer.”

Quando Kim Jong-un sucedeu ao pai, seis anos atrás, herdou um Estado totalitário conhecido principalmente por sua repressão brutal, desnutrição generalizada e um belicoso departamento de propaganda.  Com apenas 27 anos na época, a única qualificação de Kim para o cargo era ter nascido na dinastia estabelecida por seu avô após a 2ª Guerra Mundial, com apoio da China e da União Soviética. Muitos analistas de Washington e de Seul acreditavam que a Coreia do Norte estivesse com os dias contados.  

Kim não apenas sobreviveu, mas venceu. Ele conduziu um alucinante avanço na tecnologia nuclear e de mísseis e destroçou potenciais rivais como um tio e um meio-irmão. E neste ano embarcou numa ofensiva de charme na qual líderes globais – da China, Coreia do Sul, Japão, Síria e Rússia – procuraram se reunir com ele.

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Mas a cúpula de terça-feira será o grande prêmio: um encontro com o líder da potência número 1 do mundo, algo que nenhum de seus dois predecessores conseguiu. “Essa reunião sem precedentes com o presidente dos Estados Unidos deixará Kim orgulhoso de um feito não alcançado pelo pai ou pelo avô”, disse Joo Seong-ha, que também fugiu da Coreia do Norte e hoje escreve sobre o país para o jornal sul-coreano Dong-A Ilbo.

E, embora a “pressão máxima” tenha ajudado a conduzir Kim à mesa de negociação, também é verdade que ele chega à cúpula em relativa posição de força, disse Kenneth Decleva, ex-diplomata americano e psiquiatra. Decleva elaborou perfis de líderes como Slobodan Milosevic e Vladimir Putin, bem como dos dois líderes norte-coreanos mais recentes.

“Kim é forte, confiante e vem para a cúpula muito bem preparado, inclusive sobre detalhes técnicos da desnuclearização. Ele de fato está jogando sua reputação no sucesso do encontro”, disse Decleva. É tolice ver Kim como relativamente jovem e inexperiente e subestimá-lo, afirmou Decleva, assinalando que o próprio Trump já o considerou inteligente e esclarecido.   

O líder norte-coreano está seguindo um plano que esboçou no início de seu governo. Em 2013, ele anunciou uma política “de duas vias” para avançar tanto no programa nuclear quanto na economia, uma mudança da abordagem do pai que punha na frente o poder militar.

Para comprovar seu lado “forte” ele se concentrou no programa nuclear, usando os pobres recursos do país para construir mísseis de alcance cada vez maior e fabricar uma bomba de hidrogênio. Após um ano de testes que alarmaram o mundo, Kim anunciou em novembro que seu programa de armas estava concluído. Era o sinal de que estava pronto para voltar-se para a economia. E assim fez.

Começando por estender um simbólico ramo de oliveira à Coreia do Sul no dia 1º de ano, Kim partiu para uma estratégia destinada a mostrá-lo como líder responsável de um Estado com armas nucleares – como os líderes dos Estados Unidos, China e Rússia.

Sua meta: impulsionar a economia afastando as sanções internacionais impostas como punição por suas provocações do ano anterior, ou pelo menos conseguindo que a China suspendesse as suas. Cerca de 90% do comércio da Coreia do Norte é feito através da China.  

“É sua principal prioridade”, disse Kim Seok-hyang, professor de estudos norte-coreanos da Universidade Ewha Womans, de Seul, falando do foco de Kim Jong-un na economia. “Em 2012 ele prometeu que seu povo nunca mais passaria fome, mas até agora não obteve grande sucesso nisso.”

A desnutrição continua crônica, com o World Food Programa calculando que 40% da população norte-coreana está subnutrida. Mas a promessa de Kim de acabar com a fome não significa necessariamente preocupação com o povo. Seguindo a tradição de sua dinastia, ele fechou os olhos para o bem-estar dos norte-coreanos, canalizando dinheiro para o programa de armas nucleares em lugar de providenciar remédios para hospitais, livros para escolas e eletricidade para residências.

Para Kim, isso parece ser uma preocupação existencial. Ele agora se prontifica a cuidar do povo somente porque quer cuidar de si mesmo. Como o pai e o avô, ele quer morrer de morte natural, no cargo. O pai, Kim Jong-il, tinha 53 anos quando assumiu o controle da Coreia do Norte e tudo que tinha a fazer era se segurar no poder por uns 20 anos (ficou 17). “Ele não precisava mudar nada”, disse Andrei Lankov, historiador russo que estudou na Universidade Kim Il-sung, em Pyongyang, e visita periodicamente a Coreia do Norte.   

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Mas Kim Jong-un tinha 27 quando assumiu o poder. Hoje tem 34 e pode ter pela frente talvez até mais uns 50 anos no cargo. Kim Il-sung, o avô, morreu com 82 anos. “Ele não pode se dar ao luxo de cruzar os braços”, disse Lankov. “Por isso, tenta reativar a economia. Ele quer manter a população com o estômago cheio de comida e o coração cheio de medo.”

Embora muito da economia norte-coreana continue ancorada na era soviética, moldada pelo planejamento central, tem havido melhoras notáveis graças à atividade, tolerada, de um mercado privado. Pesquisas mostram que a grande maioria da população hoje tem negócios próprios, seja alugando quartos , seja contrabandeando carvão ou filmes através da fronteira chinesa.

O regime permitiu tais atividades comerciais burguesas por aparentemente reconhecer que elas ajudam a suprir a incapacidade do Estado de sustentar a população. Elas também fazem os norte-coreanos sentirem que seu padrão de vida está melhorando.

Kim Jong-un se esforça para mostrar que a Coreia do Norte está se tornando um país moderno por meio de vistosos projetos concentrados na capital , como torres residenciais, parques de diversões e restaurantes de comida japonesa. Isso não significa, porém, que ele esteja a ponto de adotar reformas ao estilo chinês ou vietnamita, que poderiam enfraquecer seu controle do regime. Segundo Lankov, o que ele quer são “reformas sem abertura”.      

“Ele procura reduzir o fosso entre a Coreia do Norte e os vizinhos para que o povo permita que continue no poder”, disse Lankov.

Ken Gause, do CNA, também acredita que Kim esteja jogando no longo prazo. EnquantoKim Jong-il tendia a pensar taticamente e conquistar ganhos de curto prazo, seu filho tem de pensar em ações estratégicas.

“Ele é um jovem líder que não herdou legitimidade”, disse Gause.  O avô de Kim Jong-un liderou a revolução norte-coreana, e seu pai construiu em 20 anos um mito e uma rede de apoio. Kim Jong-un saiu do nada.

“Mostrar aos norte-coreanos que trouxe o presidente americano para a mesa de negociação não só lhe dará legitimidade como a elevará à  extratosfera”, disse Gause. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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