REUTERS/Jonathan Ernst
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Análise: Os vencedores e os perdedores na cúpula histórica entre Trump e Kim

Encontro diplomático produziu efeitos colaterais na comunidade internacional e causou resultados negativos para grandes economias

O Estado de S.Paulo

12 Junho 2018 | 14h46

CINGAPURA - O presidente americano, Donald Trump, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, se reuniram em Cingapura nesta terça-feira, 12, para uma cúpula histórica entre Estados Unidos e Coreia do Norte. Os dois assinaram um documento, descrito por Trump como "abrangente", no qual Pyongyang concorda em encerrar seu programa de armas nucleares e Washington se compromete a suspender seus exercícios militares conjuntos com Seul. Muitos detalhes ainda serão definidos, incluindo quais serão as medidas concretas que a Coreia do Norte tomará para o processo de desnuclearização. Mesmo assim, a cúpula marcou a história global, deixando vencedores e perdedores.

Vencedores

Trump

O presidente estabeleceu um objetivo ambicioso para si mesmo, prevendo que saberia "logo no primeiro minuto" se Kim estaria falando sério sobre a desnuclearização e chegou a flertar com a ideia de receber um Nobel da Paz. Na realidade, nenhuma reunião poderia convencer o mundo todo de que a Coreia do Norte agora é uma negociadora de boa fé. Apesar disso, a cúpula é a realização mais estadista de Trump desde o início de seu mandato e representa uma redução significativa das tensões entre as potências nucleares. No período que antecedeu o encontro diplomático, o presidente recebeu cobertura positiva pela imprensa.

+ Após encontro histórico, Trump e Kim Jong-un assinam documento de cooperação

Kim

A mera realização da cúpula já foi uma grande vitória para Kim, que era visto internacionalmente como um pária e, de repente, passou a ser respeitado pelos EUA. Um dos objetivos do programa nuclear norte-coreano é justamente o alcance de um status mais alto no cenário global, e a reunião em Cingapura foi um passo a mais nesse sentido.

+ Leia a íntegra do texto do acordo de cooperação assinado por Trump e Kim Jong-un

Kim Dong-chul, Tony Kim e Kim Hak-song

Os três americanos detidos pelo regime de Kim estão entre os maiores beneficiários do progresso diplomático entre Coreia do Norte e Estados Unidos. Os homens foram libertados e voltaram para casa em maio.

Mike Pompeo

O secretário de Estado americano ajudou a estabelecer as bases para a realização da cúpula antes mesmo de assumir o cargo. Em março, quando ainda era diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), Pompeo já era visto por Trump como ator importante nas negociações diplomáticas. Depois que foi indicado para substituir Rex Tillerson em abril, Pompeo foi enviado a Pyongyang em missão secreta, antes mesmo de obter a confirmação no Senado. Ele elevou seu status mais do que qualquer outro funcionário de Washington.

Cingapura

A cidade-Estado anfitriã do encontro recebeu um impulso econômico. "De hambúrgueres com tema de cúpula e cambistas online vendendo medalhões da 'Paz Mundial' a camisetas de 'Paz de Lion City' [apelido de Cingapura], os cingapurianos estão lucrando", publicou a agência de notícias Reuters.

Dennis Rodman

Há tempos zombado por sua paixão ingênua pela Coreia do Norte, o ex-astro do basquete viajou a Cingapura e recebeu legitimação. Rodman fez uma aparição durante a cobertura da cúpula pela CNN e disse ter recebido uma ligação da Casa Branca em agradecimento pelas aberturas de relacionamento com Kim. Segundo o âncora do canal Chris Cuomo, Rodman disse que o melhor recurso disponível no momento é o entendimento das mentes dos dois líderes.

Perdedores

Justin Trudeau

O primeiro-ministro canadense se tornou um dano colateral na missão de Trump para projetar uma figura de força antes da reunião com Kim. No fim de semana, a caminho do evento, o americano criticou Trudeau e o caracterizou como "desonesto" e "fraco". A declaração foi uma resposta intensa à afirmação de Trudeau de que os canadenses não seriam "empurrados". Mais tarde, o conselheiro econômico da Casa Branca, Larry Kudlow, disse que a afirmação furiosa de Trump era, em grande parte, para enviar uma mensagem ao governo norte-coreano. "Ele não vai permitir qualquer demonstração de fraqueza ao negociar com a Coreia do Norte", disse Kudlow. "E nem deveria. Kim não deve ver a fraqueza americana."

O resto do G-7

Como estava focado na cúpula com Kim, Trump não estava disposto a dar sua atenção às nações do G-7, durante o encontro no Canadá. O americano reclamou com seus assessores sobre ter que se encontrar com os aliados, argumentando que seu tempo seria melhor aproveitado na preparação para o encontro em Cingapura. Além disso, Trump retirou os EUA da declaração conjunta do grupo em favor do "comércio livre, justo e mutuamente benéfico".

Cidadãos norte-coreanos

Um dos efeitos colaterais da cúpula em Cingapura é que seu foco foi no armamento nuclear, deixando de lado as questões sobre direitos humanos na Coreia do Norte. / WASHINGTON POST

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