Hussein Malla/Reuters
Hussein Malla/Reuters

Após renúncia de premiê e em meio a incerteza, manifestantes liberam estradas no Líbano

Após duas semanas de mobilização sem precedentes no Líbano, todos os acessos à capital foram liberados, permitindo a retomada das atividades após uma longa paralisia

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2019 | 16h21

BEIRUTE - A renúncia do primeiro-ministro libanês, Saad Hariri, se traduziu nesta quarta-feira, 30, num claro relaxamento da tensão, com o fim dos bloqueios das estradas, mas essa vitória dos manifestantes está longe de satisfazer suas reivindicações e abre um período de incerteza.

O presidente Michel Aun aceitou implicitamente essa renúncia e pediu "ao governo que continue a gestão dos assuntos correntes até a formação de um novo governo", de acordo com a Constituição.

Após duas semanas de mobilização sem precedentes no Líbano, todos os acessos à capital foram liberados, permitindo a retomada das atividades após uma longa paralisia.

O Exército reabriu a passagem de Jal al-Dib, ao norte da capital, onde a polícia se posicionou sob o olhar atento de algumas dezenas de manifestantes.

Os ativistas, que nesta manhã deitaram na ponte de Beirute para continuar bloqueando as vias, foram retirados sem violência algumas horas depois. 

Com o desbloqueio de estradas, o Ministério da Educação anunciou a retomada a partir de quinta-feira das aulas. Os bancos deverão reabrir na sexta-feira após 12 dias do fechamento, de acordo com a Associação de Bancos do Líbano (ABL).

Ao anunciar na terça-feira sua renúncia, Hariri desencadeou cenas de júbilo em todo o Líbano, onde os manifestantes exigem desde 17 de outubro a saída de toda a classe política.

'Pressão vai continuar'

Sua renúncia, no entanto, parece não ser capaz de responder sozinha ao descontentamento contra políticos acusados de incompetência e corrupção em um país que carece de serviços públicos de qualidade.

Mohammed, um oficial do Exército na reserva, retornou nesta quarta à Praça dos Mártires, em Beirute. "Hariri tomou uma boa decisão renunciando, mas agora queremos eleições antecipadas e o retorno do dinheiro roubado", disse ele.

Para Charbel, de 26 anos, "essa renúncia não será suficiente para nos fazer sair das ruas, a pressão continuará".

A renúncia não era desejada por Aun nem por seu aliado Hezbollah, o único partido ainda armado no Líbano, cujo líder Hassan Nasrallah alertou para o risco de "caos".

Segundo a imprensa, Hariri poderia tentar montar uma nova equipe, formada principalmente por tecnocratas reconhecidos por sua competência, mas nesse caso enfrentaria resistência política.

Além disso, de acordo com a imprensa, Aun se recusa a "sacrificar" seu genro, ministro das Relações Exteriores Gebran Bassil, provavelmente o mais odiado pelos manifestantes que o consideram corrupto e "arrogante".

A situação é ainda mais complicada pelo sistema libanês, segundo o qual o cargo de primeiro-ministro deve ser ocupado por um sunita, sendo Hariri um dos poucos políticos de destaque nesta comunidade. 

A revolta, no entanto, trouxe o nome do ministro do Interior, Raya al-Hassan, sunita de 52 anos cuja ação foi aclamada por causa da moderação e neutralidade da polícia./AFP 

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