REUTERS/Mike Blake
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Artigo: É hora de uma ‘imigração enchilada’ entre EUA e México

Se Peña Nieto sugerisse o aumento dos vistos, e Trump aceitasse, os interesses dos dois países seriam atendidos

Jorge Castañeda * / The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 04h00

A imigração ocupa há anos a agenda de EUA e México. Três tentativas recentes dos EUA de uma reforma na área, que incluíam anistia para mexicanos ilegais e um programa de visto de trabalho temporário, fracassaram. O esforço bilateral de reforma, tentado entre 2001 e 2003, também falhou. 

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Nada afeta mais o México que a política de imigração dos EUA – e a importância do tema na política dos EUA é hoje maior que nunca. O desafio mais urgente é encontrar uma solução para os chamados “sonhadores”, beneficiários do Daca, programa do presidente Barack Obama para filhos de imigrantes que chegaram aos EUA ainda crianças. 

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Cerca de 800 mil jovens inscreveram-se no programa e ganharam proteção. Graças ao Daca, não precisavam mais ter medo de deportação, podiam trabalhar legalmente e manter esperanças realistas de um dia serem cidadãos do único país que conheciam. Mais de três quartos dos “sonhadores” são mexicanos. Por isso, as pessoas no México acompanham de perto seu futuro.

O presidente Donald Trump acabou com o Daca e propôs uma nova política de imigração de quatro pontos, que a maioria dos democratas e latinos detesta. Estranhamente, porém, a revisão pode beneficiar o México, sobretudo se vier acompanhada de mudanças na emissão de vistos de trabalho temporários, em particular os conhecidos como H-2A e H-2B. 

O primeiro ponto da proposta de Trump – regularização do status dos “sonhadores” e de 1 milhão de outros jovens no Daca – é bom para o México. Cerca de 1,5 milhão desses jovens vieram do país e são um quarto dos mexicanos ilegais nos EUA. Garantir-lhes uma anistia, com a perspectiva de cidadania, atende a uma das mais cruciais demandas do México sobre imigração. 

O segundo ponto – um muro de US$ 25 bilhões na fronteira – é obviamente ofensivo ao México, mas o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, está mais preocupado em não pagar pelo muro do que com sua construção. Ou Peña Nieto não acredita na construção do muro ou não tem como se opor a ele. O muro, porém, é algo que o México pode rejeitar e, ao mesmo tempo, algo com o qual pode conviver, particularmente se ele levar anos para ser construído ou se meramente completar partes de cercas levantadas pelos presidentes Bill Clinton, George W. Bush e Obama.

O terceiro ponto é o mais insultuoso para muitos americanos, uma vez que eliminaria o princípio da reunificação familiar para a aceitação de imigrantes legais. Com a intenção de deter a “corrente migratória”, a proposta substituiria o critério familiar por um sistema de mérito. No futuro, apenas mulheres e filhos menores (diferentemente do atual critério, que abrange maridos e irmãos) de cidadãos americanos teriam permissão de residência permanente. O efeito pode ser o “branqueamento” da imigração e o limite da cota de mexicanos. 

Uma vez que o maior grupo de estrangeiros que pede reunificação familiar é de mexicanos (três vezes mais que os chineses, por exemplo), isso reduziria o número de candidatos do México ao green card. No ano fiscal de 2016, perto de 200 mil mexicanos obtiveram o documento. Mas reduzir esse número por meio de um longo e tedioso procedimento não seria tão ruim quanto o fim de todo o programa. 

O último ponto é a supressão do sistema de sorteio que concede vistos de imigrante a um pequeno número de candidatos de países pouco representados, na maioria africanos. Mais uma vez, o objetivo é “branquear” a imigração, sendo, portanto, uma proposta desprezível. Mas não afeta o México: não há sorteio para mexicanos. 

Assim, na visão mexicana, o plano de quatro pontos tem inconveniências para o México, mas também muitas vantagens. O fato de ser racista, indigno do ideal americano de imigração e de inflamar os piores demônios da sociedade dos EUA é outra coisa. Como diz Trump, países devem defender os próprios interesses. 

Para tornar o plano atraente para o México, os líderes mexicanos devem convencer Trump a aumentar o número de vistos de trabalho temporários. Os vistos H-2A, para trabalhadores sazonais agrícolas, não são limitados pelo Congresso. Os H-2B, para trabalhadores sazonais em atividades não agrícolas, são, mas as limitações vêm sendo levantadas há muitos anos. Assim, Trump pode elevar o número desses vistos sem aprovação do Congresso. 

O trabalho de reconstrução no Texas e na Flórida após os furacões Harvey e Irma funciona com pleno emprego e tem uma enorme demanda de mão de obra não qualificada, com baixos salários, que vem do México. Se Peña Nieto sugerisse o aumento dos vistos, e Trump aceitasse, os interesses dos dois países seriam atendidos. No início dos anos 2000, um pacote parecido com esse foi chamado de “the whole enchilada” (“enchilada inteira”). Agora, uma “meia enchilada” (ou qualquer outra metáfora) não seria tão ruim. / Tradução de Roberto Muniz

* É ex-chanceler do México

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