REUTERS/Kevin Lamarque
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Bolsonaro oferece a Trump fidelidade total em troca de promessas inéditas

Brasileiro encerra visita aos EUA tendo ampliado cooperação militar, aberto mercado para produtos americanos e afinado pressão contra Maduro; em retribuição, obteve apoio para entrada do Brasil na OCDE e um status especial na Otan

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2019 | 05h00

O encontro desta terça-feira, 19, entre os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump selou a aproximação com os EUA que o Brasil buscava. Na Casa Branca, o brasileiro ofereceu a Trump apoio total e recebeu em troca concessões e promessas que estavam além do radar de negociadores e diplomatas brasileiros. 

Nas ocasiões em que apareceram juntos, ambos trocaram elogios em tom mais intenso que o habitual entre chefes de Estado que estão se conhecendo – Bolsonaro chegou a apoiar a reeleição de Trump em 2020. 

“Foi maravilhoso conhecê-lo. Você está fazendo um trabalho fantástico”, disse Trump a Bolsonaro. “Eu sempre admirei os EUA. E a admiração só cresceu desde a chegada de vossa excelência à presidência”, retribuiu o brasileiro. 

Durante a viagem aos EUA, o brasileiro fez algumas concessões unilaterais, como a liberação de vistos para americanos sem reciprocidade. Em troca, Trump cedeu em alguns pontos, especialmente ao apoiar a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e no status de aliado preferencial fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). 

A reivindicação sobre a OCDE é encampada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Para o Brasil, que formalizou o pedido em 2017, a entrada seria um selo de confiança da comunidade internacional. Em troca, o Brasil aceitou começar abrir mão de prerrogativas destinadas a países em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio.

Mesmo quando fez um anúncio concreto, Trump o completou com uma promessa. O americano confirmou que os EUA designariam o Brasil como um aliado fora da Otan. Esta deferência era esperada como um prêmio de consolação pela falta de apoio à entrada na OCDE. Mas Trump disse que poderia até pensar no Brasil como aliado da própria Otan. 

O status de aliado extra-Otan não chega a ser uma grande concessão – mais de uma dúzia de países já ganharam o mesmo privilégio, entre eles Argentina, Jordânia e Tunísia. Ser aliado da Otan tem um peso muito maior, mas acarretaria custos elevados. Em julho, em visita à Europa, Trump exigiu dos membros da aliança atlântica gastos de até 4% do PIB em Defesa – o que quase triplicaria o orçamento brasileiro em gastos militares. 

No jogo de concessões e promessas entre os dois, Bolsonaro mudou sutilmente o tom em relação à Venezuela. Apesar de militares brasileiros rejeitarem uma intervenção militar, Bolsonaro não descartou a ideia. 

Bolsonaro afirmou que o conteúdo da conversa com Trump sobre Venezuela era sigiloso, sem responder se apoiaria uma intervenção militar. “Tem certas questões que, se você divulgar, deixam de ser estratégicas”, disse o brasileiro, abrindo a brecha para um apoio a Trump, independentemente da estratégia do americano.

Sintonia. O discurso de Bolsonaro pareceu agradar plenamente ao presidente americano, que por vezes acenava com a cabeça, especialmente quando Bolsonaro disse que os dois países estariam “irmanados” na garantia das “liberdades, no respeito à família tradicional, no temor a Deus, nosso criador, contra a ideologia de gênero, o politicamente correto e as fake news”. 

Os dois presidentes também destacaram a assinatura do acordo de salvaguardas tecnológicas entre Brasil e EUA, que permite o uso comercial da Base de Alcântara, no Maranhão. O acordo vinha sendo negociado desde junho, antes da eleição de Bolsonaro.

Em comunicado conjunto, divulgado após o encontro, Brasil e EUA concordaram em reduzir barreiras comerciais e de investimentos, como a importação de 750 mil toneladas de trigo americano a uma tarifa zero de impostos e o estabelecimento de bases para a importação de carne suína produzida nos EUA. 

Ainda não está claro como reagirão os argentinos, que são os maiores exportadores de trigo para o Brasil, e os produtores brasileiros de carne suína – o País é o quarto produtor mundial. Em contrapartida, os EUA prometeram marcar uma visita técnica ao Brasil para reabrir o mercado americano para carne bovina in natura brasileira. 

Brasil na Otan

Os Estados Unidos anunciaram a intenção de designar o Brasil como um aliado preferencial fora da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). O anúncio foi feito pelo presidente americano, Donald Trump, ao receber o presidente Jair Bolsonaro na Casa Branca. O significado imediato, segundo fontes envolvidas nas negociações, é simbólico.

Com a designação, o governo brasileiro passa a ter posição prioritária em cooperação na área de Defesa e compra de equipamentos militares. A ideia partiu dos próprios americanos. Mais de uma dúzia de países são considerados aliados estratégicos militares dos EUA e possuem a mesma designação, incluindo Argentina, Jordânia e Tunísia. 

Inicialmente, o anúncio era esperado como um prêmio de consolação para um eventual não comprometimento americano com a adesão do País à Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas Trump disse que poderia até mesmo “começar a pensar” no Brasil como um aliado da Otan. “Aumentará em muito a segurança e a cooperação entre os nossos países”, disse o americano. 

O primeiro país da América do Sul a fazer um acordo de cooperação com a Otan – e não no status de aliado extra organização – foi a Colômbia, em maio de 2018. O país ingressou na Otan na condição de “sócio global”. 

 

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