U.S. Embassy Ulaanbaatar via AP
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Casa Branca proíbe publicação do livro de Bolton por conter informações confidenciais

Em rascunho de publicação, John Bolton diz que testemunhou esforço de Trump para que ucranianos investigassem Joe Biden, pré-candidato democrata à presidência

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 15h55
Atualizado 29 de janeiro de 2020 | 21h11

WASHINGTON - A Casa Branca informou ao ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton que o manuscrito de seu livro parecia conter "quantidades significativas de informações confidenciais" e por isso não autorizaria sua publicação em sua forma atual. Segundo a imprensa, o texto tem informações que afetam o julgamento político que o presidente Donald Trump enfrenta no Senado.

Como conselheiro de Segurança Nacional, Bolton testemunhou em primeira mão a negociação de Trump com o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, que vinha sendo pressionado pela Casa Branca a anunciar a abertura de investigação envolvendo o democrata Joe Biden – principal obstáculo à reeleição do presidente, em disputa que ocorrerá em novembro. 

Os advogados de Trump, que nesta quarta-feira, 29, concluíram seus argumentos no Senado, sustentam que não houve abuso de poder, pois os ucranianos não se sentiram pressionados. O caso, segundo a defesa do presidente, foi montado pelos democratas com base em rumores, testemunhas de segunda mão de pessoas que não tiveram envolvimento direto nas negociações. 

Os relatos dos manuscritos de Bolton, revelados pelo New York Times no domingo, minam os argumentos da defesa de Trump. Neles, o ex-conselheiro escreve que escutou do presidente que ele que queria congelar US$ 391 milhões em ajuda militar para a Ucrânia até a abertura das investigações envolvendo Biden. 

Além disso, Bolton representa um problema mais amplo para o governo. As credenciais republicanas e conservadoras do ex-conselheiro de Segurança Nacional são inatacáveis, o que inviabiliza a tática da Casa Branca de rotulá-lo de “democrata” ou de “esquerdista”. 

Por isso, os líderes republicanos no Senado articulam contra a convocação de testemunhas no processo de impeachment. A pressão, no entanto, tem aumentado nos últimos dias. Para aprovar depoimentos, bastaria a maioria simples. Como os republicanos têm 53 dos 100 senadores, os votos de 4 seriam suficientes.

Se os republicanos correm risco de perder a votação sobre a convocação de testemunhas, que deve ocorrer na sexta-feira, Trump ainda tem uma maioria folgada para evitar a destituição. O impeachment só é aprovado com dois terços dos senadores, ou seja, 20 aliados republicanos teriam de abandonar o presidente, o que é considerado improvável. 

Em poucos meses, Bolton foi de aliado a desafeto de Trump. Ele foi demitido do Conselho Nacional de Segurança em setembro, após discordar do presidente em vários temas de política externa, principalmente com relação à Coreia do Norte, ao Irã e ao Afeganistão – Bolton sempre foi contra negociar com países que considera “inimigos dos EUA”.

Após sua saída do governo, ex-assessores de Bolton revelaram que ele estava enfurecido com a pressão sobre a Ucrânia e comparava a atuação do governo americano a um “tráfico de drogas”. Desde outubro, quando o impeachment foi instaurado na Câmara dos Deputados, os democratas tentam intimar Bolton a depor – mas sempre esbarraram em ameaças da Casa Branca. 

Cresce pressão democrata

Agora, com a divulgação de um rascunho de seu livro de memórias – The Room Where it Happened (“A sala onde aconteceu”, em tradução livre)–, a pressão dos democratas cresceu e alguns senadores republicanos começam a dar sinais de que podem ceder. Por isso, o Conselho Nacional de Segurança vetou a publicação do livro – um esboço havia sido enviado por Bolton para análise do governo, processo padrão adotado para aprovação de obras de ex-funcionários da Casa Branca.

Hoje, desde as primeiras horas do dia, Trump investiu contra Bolton no Twitter, onde qualificou o texto de “livro desagradável e falso” e disse que o conteúdo era sigiloso” e assunto de segurança nacional. O presidente afirmou ainda que o ex-conselheiro implorou por um cargo no governo que não necessitasse de aprovação do Senado, já que ele não seria aprovado em uma sabatina.

 

“Ele (Bolton) foi demitido porque, francamente, se eu o escutasse, já estaríamos na Sexta Guerra Mundial. Ele sai e, imediatamente, escreve um livro desagradável e falso. Tudo confidencial e de segurança nacional”, tuitou o presidente americano. / NYT, REUTERS e AFP

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