Stringer/EFE
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‘Castillo não é um outsider da política’

Analista peruano explica que dirigente sindical é conhecido no país e traçou uma estratégia de campanha maoista

Entrevista com

Carlos Meléndez, analista político peruano

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2021 | 05h00

A chegada do esquerdista Pedro Castillo ao segundo turno da eleição peruana surpreendeu eleitores e analistas. Segundo pesquisas, Castillo deve disputar a presidência contra Keiko Fujimori, filha do ex-presidente preso Alberto Fujimori.

É uma surpresa ter Castillo no segundo turno? 

Castillo fez ótima campanha, mas ele não é um outsider da política peruana, é um dirigente sindical conhecido, foi responsável pela greve mais longa e radical de professores no Peru, em 2017. Ele é integrante de uma ‘ronda campesina’, espécie de grupo civil de autodefesa, e tem um discurso ideológico maoista forte.

O que levou Castillo ao segundo turno? 

Ele traçou muito bem sua estratégia. O partido ao qual ele pertence, o Peru Livre, já governou um Estado e foi construindo bases. Eles fizeram uma campanha ao estilo maoista, foram conquistando apoio do campo até a cidade. Sua entrada (de Castillo) em Lima foi digna de cena bíblica: ele entrou a cavalo e seguiu até a Praça 2 de Maio. Não é uma praça qualquer, é o símbolo do movimento trabalhista,. Havia ali uma simbologia forte. Quando o establishment percebeu e tentou conter seu movimento, já era tarde demais.

Como explicar a chegada de Keiko depois dos escândalos de corrupção?

Em um país sem partidos fortes, o que se precisa é de seguidores. E Fujimori tem os fujimoristas. Parece bobo falar isso, mas faz diferença. (Hernando de) Soto não tem hernandistas, por exemplo. O fujimorismo tem 9% de apoio. São aquelas pessoas que encaram o fujimorismo como algo de vida ou morte. É a mesma coisa que um peronista ou um lulista. Esse tipo de militante é mais do que simpatizante e a prisão de seus líderes permite criar a imagem de mártires. Como nada foi provado contra ela, a imagem para eles é de que ela foi vítima de uma injustiça. 

Os candidatos vão mudar a estratégia no segundo turno?

Acho que Castillo não fará mudanças. Não vai moderar o tom, porque tem espaço para crescer nesse mundo polarizado. Ainda há um eleitor radical que precisa ser conquistado. Além disso, ele tem visão de esquerda em economia, mas é muito conservador no social, e não só em questões de gênero, mas também em temas de segurança. Ele faz parte de um grupo que anda armado, que tem o próprio sistema de justiça. Sobre Keiko, acho que ela precisa moderar o discurso, voltar a atrair o eleitorado simpatizante que um dia optou pelo fujimorismo. Tanto que ela já buscou pontes com Soto como estratégia para o segundo turno.

Como fica a relação do Peru com outros países da região em caso de vitória de cada um?

Se ganhar o fujimorismo, passamos a ter um bloco de direita consolidado, com Piñera e Bolsonaro. Isso acalmaria a direita temerosa pelas questões sociais. Se Castillo vencer, a coisa muda. Ele não tem vínculos chavistas, mas poderia ter. Cuba e Venezuela já devem estar fazendo pontes com ele. Mas a entrada nesse bloco se daria por Evo (Morales). Alguns dizem que Castillo é o Evo peruano. Evo se sente envaidecido e pode ser um bom padrinho na política exterior de Castillo. 

Na eleição para o Congresso, houve novidade?

Não, como se esperava será um Congresso fragmentado, ainda mais do que o atual, porque os extremos encontraram representação política.

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