Mohammed Salem/REUTERS
Mohammed Salem/REUTERS

Cenário: Acordo entre Fatah e Hamas, um passo para a retomada das relações com os EUA

Grupos palestinos estabeleceram pacto para realizar eleições no Cairo

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2021 | 08h00

O acordo entre o Fatah e Hamas para realização das primeiras eleições palestinas em quase 15 anos é uma etapa obrigatória para a retomada das relações com os Estados Unidos e, também, das negociações com Israel, consideram analistas. 

Após vários rumores e adiamentos, o presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas assinou em 15 de janeiro, poucos dias antes da posse do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, um decreto para realizar eleições legislativas e presidenciais em maio e julho, respectivamente. 

Os grupos palestinos, principalmente o Hamas e o Fatah, deram um passo ao estabelecer um acordo a respeito dos mecanismos cruciais para realizá-las, incluindo a criação de um "tribunal eleitoral" para supervisionar o processo e agir diante de possíveis divergências sobre os resultados. 

O acordo pretende evitar o que aconteceu nas últimas eleições legislativas, em 2006, quando as divergências sobre os resultados causaram confrontos mortais entre os dois grupos e dividiram os Territórios Palestinos em dois governos. 

A Autoridade Palestina, controlada pelo partido laico Fatah, de Mahmoud Abbas, está na Cisjordânia, um território ocupado por Israel desde 1967. Os islamitas do Hamas, de Ismael Haniyeh, controlam a Faixa de Gaza, um enclave sob bloqueio israelense. 

As duas estruturas não conseguiram frear a atuação do governo de Donald Trump, que reconheceu Jerusalém como capital israelense, defendeu a anexação de áreas da Cisjordânia e atuou em favor da normalização das relações de Israel com vários países árabes.

A vitória de Biden levou Abbas a se comprometer com uma eleição e a iniciar um diálogo "sério" com o Hamas, para renovar a legitimidade das instituições palestinas, afirmou Ashraf Abu Al Hul, especialista em questões palestinas do jornal egípcio Al Ahram.

A pressão internacional para retomar as negociações de paz entre palestinos e israelenses "não se concretizará sem uma unidade prévia dos palestinos", acrescentou à Agência France-Presse.

Segundo ele, Egito e Jordânia multiplicaram "esforços" para uma reaproximação entre o Fatah e Hamas. 

Os palestinos estão sob pressão ainda maior para unificar suas vozes depois da normalização das relações entre Israel e vários países árabes nos últimos meses, acredita o especialista, o que torna as eleições necessárias.

Após as eleições, o Hamas poderia ingressar na Organização para a Libertação da Palestina (OLP), uma estrutura reconhecida nos Acordos de Oslo como representante oficial dos palestinos. 

"O Hamas quer ser um movimento internacionalmente reconhecido dentro da OLP e ser um parceiro da Autoridade Palestina (...) já que somente com a unidade seremos capazes de neutralizar os planos dos israelenses", explicou um alto funcionário israelense do Hamas à Agência France-Presse.

Para Mohamed Masharqa, diretor do Centro para o Progresso Árabe, um instituto de análise com sede em Londres, o Hamas não tem escolha a não ser pelas eleições, caso queira ser "reconhecido de outra forma que não como uma organização terrorista". 

"Os dois grupos sabem muito bem que sua legitimidade está em jogo. Eles precisam das eleições para renová-la, mas a votação levará novamente a um poder de duas cabeças, entre Gaza e Ramallah", a cidade onde fica a sede da Autoridade Palestina, alerta o analista Abdel Salam Aqal. 

Segundo ele, a reconciliação entre Hamas e Fatah é fundamental para a vitória eleitoral do partido, mas também para a luta interna no Fatah, entre os grupos do presidente Abbas e de Mohammed Dahlan, antigo diretor de segurança do Fatah em Gaza, atualmente exilado nos Emirados Árabes Unidos. 

Outro tema que gera polêmica entre analistas são as listas eleitorais. 

O Hamas e o Fatah se apresentarão em uma lista comum? Dahlan será bem-vindo novamente no Fatah? Ele fará uma lista conjunta com Marwan Barghuthi, que de acordo com as pesquisas é muito popular entre os palestinos, mas encontra-se preso em Israel por assassinatos? 

Para Hosam Al Dajani, professor de Ciência Política da Universidade Islâmica de Gaza, a hipótese mais provável é "uma federação entre Ramallah e Gaza", com o lado de Abbas na vanguarda da política externa na Cisjordânia e o Hamas no setor de "serviços" na Faixa de Gaza. /AFP

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