Thomas COEX / AFP
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Cenário: Para israelenses, perder Bibi seria como ‘ficar órfãos’

Israelenses valorizaram a estabilidade, assim como a segurança militar e econômica que Netanyahu lhes trouxe

David M. Halbfinger, The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2019 | 05h00

A reeleição de Binyamin Netanyahu demonstra a visão conservadora do Estado judeu e de seu povo. São valorizadas a estabilidade, bem como a segurança militar e econômica que Netanyahu lhes trouxe. Nunca estiveram mais seguros, mas continuam com medo – especialmente do Irã, contra o qual Netanyahu se bate numa cruzada incansável. Eles presumem que a semelhança de Bibi com líderes autoritários em todo o mundo é a prova de que ele estava à frente da tendência. 

Creditam a Netanyahu, cuja visão estratégica valoriza poder e a coragem acima de tudo, o fato de pilotar Israel em alturas diplomáticas sem precedentes. E relutam em deixar alguém menos experiente assumir os controles. “Vamos ser honestos”, disse Michael Oren, ex-embaixador de Israel em Washington. “Nossa economia é excelente, nossas relações internacionais nunca foram melhores e estamos seguros. Nós temos como líder um sujeito na política há 40 anos: o conhecemos, o mundo o conhece – até nossos inimigos o conhecem.”

Esta eleição decidia se o provável indiciamento de Netanyahu por acusações de corrupção o tornaria inadequado para continuar no cargo e se seu principal desafiante, o ex-chefe do exército Benny Gantz, estava capacitado. Era uma disputa com pouco espaço para questões políticas. Netanyahu provou mais uma vez que seus talentos, resistência e vontade de fazer o que for preciso para vencer, são inigualáveis na política israelense.

Israel acostumou-se com as avaliações otimistas de Netanyahu sobre o país: dez anos de crescimento econômico ininterrupto, sua melhor classificação de crédito, aberturas diplomáticas e novos parceiros comerciais na África, Ásia e América Latina.

Eles também se acostumaram a clipes mostrando Trump reconhecendo Jerusalém como a capital de Israel e a soberania de Israel sobre as Colinas de Golan. Dorit Rabinyan, autora que se define de esquerda, disse que os israelenses temem a saída de Netanyahu como se eles fossem ficar “órfãos”.

Agora, com um novo mandato e um partido Likud ampliado, ele tem a chance de formar uma coalizão de direita ainda maior de legisladores seculares, ultraortodoxos e até mesmo extremistas - ou, se ele quiser, tentar forjar um governo de unidade nacional que inclua centristas.

Mas, seja o que for que ele decida, Netanyahu teve a oportunidade de conduzir Israel através de um importante momento decisivo na sua história, tanto como Estado judaico quanto democrático, se os seus problemas legais não o derrubarem primeiro.

As preocupações sérias por Israel que foram essencialmente postas de lado na campanha se aproximam rapidamente. À medida que ele supera David Ben-Gurion, o líder fundador de Israel, como o primeiro-ministro que mais tempo permaneceu no cargo este verão, Netanyahu será incapaz de ignorar qualquer uma delas por muito tempo.

A paz com os palestinos continua tão improvável como sempre, apesar do possível coringa de uma proposta há muito esperada por parte da administração Trump. Os aliados de direita de Netanyahu, com os quais ele pode estar ainda mais em dívida sob sua próxima coalizão, estão impacientes para buscar a anexação da Cisjordânia ocupada.

Em desespero para dar apoio à base pró-colonos, Netanyahu disse publicamente, três dias antes da eleição, que começaria a pôr em prática a soberania israelense sobre partes da Cisjordânia que os palestinos exigem para seu futuro Estado. Os opositores acreditam que isso desencadeará uma nova sublevação palestina, rendendo frutos ao regime do apartheid que a esquerda israelense há muito tempo alerta contra, ou ambos.

Mesmo sem a anexação no contexto, o governo dominado por colonos e ultraortodoxos de Netanyahu e seu efusivo acolhimento ao presidente Trump rapidamente afastaram Israel de judeus americanos predominantemente liberais e menos praticantes, a maior comunidade da diáspora e um dos pilares da segurança de Israel, desde a sua fundação.

Enquanto os conservadores têm trabalhado para restringir o poder da Suprema Corte por meio de legislação, o próprio tribunal estabeleceu as bases para a revisão judicial até mesmo das chamadas leis básicas que o Parlamento considera os pilares de uma eventual constituição, que agora falta a Israel.

“Imagine-se a Suprema Corte americana julgando a constitucionalidade de parte da própria Constituição”, disse Gadi Taub, historiador e professor da Universidade Hebraica que se opõe à colonização e anexações, mas apoia a redução da autoridade judicial. Netanyahu não liderou o esforço para conter a Suprema Corte, mas criticou o sistema jurídico no geral, em relação às duradouras investigações de corrupção da polícia que levariam à acusação esperada de suborno e acusações de fraude.

Os críticos apontam para uma escancarada diferença de renda entre aqueles que prosperam na indústria israelense de alta tecnologia e aqueles da classe média ou que vivem fora das grandes cidades. Uma crise imobiliária, hospitais superlotados, estradas congestionadas e um custo de vida esmagador estão mantendo muitos jovens adultos na casa de seus pais e levando outros a emigrar.

Isso deu ampla munição aos opositores de Netanyahu de esquerda e até mesmo de centro-direita. “Ele forneceu lucros no curto prazo a um preço altíssimo no longo prazo”, disse Ari Shavit, um jornalista nascido em Jerusalém que acompanhou Netanyahu ao longo de sua carreira. “A Israel de Netanyahu está hipotecada. E nós vamos pagar caro.”

Shavit disse que o mesmo pode ser dito para o fracasso de Netanyahu em usar a posição de força e conforto estratégico de Israel – “este momento de ouro” - para resolver sua única questão mais existencial, o conflito palestino; e por sua exploração da generosidade de Trump ao custo de “pôr em perigo o relacionamento com os Estados Unidos democrático, os Estados Unidos mais jovem e o próximo governo de Washington”.

Taub disse esperar que Netanyahu prossiga com sua prática que já dura uma década, de expansão lenta dos assentamentos, como a direita reclama e sabotagem das negociações de paz, como a esquerda reclama. “Gantz, com sua elevada fala sobre valores, otimismo, mudança, soou como Obama em 2008”, disse Taub. “Mas ninguém em Israel acha que existe realmente uma opção para anexar a Cisjordânia ou fazer a paz. Então será o triunfo do status quo”.

Mas Oren disse acreditar que um plano de paz de Trump esteja por vir e Netanyahu é o mais adequado para conseguir um acordo, enfim, não importando o quanto seus parceiros de coalizão lutem contra ele. “É o velho ditado: a esquerda faz guerra, a direita faz a paz”, disse Oren. “Netanyahu será extremamente relutante em dizer não a Trump, o que poderia ser o sucesso do programa.”

Na Cisjordânia, no entanto, poucos compartilham dessa visão. Ghassan Khatib, professor da Bir Zeit University e ex-porta-voz do governo palestino, disse que o longo mandato de Netanyahu já havia deixado para trás duas baixas devastadoras: qualquer esperança de uma solução de dois Estados e qualquer apoio à liderança palestina moderada, cujo investimento em uma solução diplomática para o conflito Netanyahu colocou em descrédito.

Khatib disse que Netanyahu, ao fortalecer politicamente a extrema direita nos últimos anos, contribuiu para uma radicalização que tornou os israelenses avessos à paz. “Israel de que falamos agora não é Israel com a qual negociamos há 25 anos”, disse. "Acho que Netanyahu está nos levando a algum tipo de realidade apartheid.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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