REUTERS/Marco Bello
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Cirurgias na Venezuela são canceladas por falta de água

Governo anunciou plano especial para resolver abastecimento em julho, mas nada foi feito a respeito até o momento; 75% dos moradores de Caracas não têm acesso a água encanada regularmente

O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2018 | 15h35

CARACAS  - Em um dos maiores hospitais públicos de Caracas, a maioria do banheiros está fechada. Pacientes enchem garrafas em uma torneira minúscula no térreo que às vezes só tem um fio de água. Operações são adiadas ou canceladas. O hospital da Universidade Central da Venezuela, que chegou a ser  referência na América Latina, agora sofre com a falta de água nas torneiras.

“Fui ao bloco de operação e abri a torneira para lavar as mãos, como é preciso fazer antes de uma cirurgia, e não saiu nada”, disse a ginecologista Lina Figueria. Os cortes de água são o acréscimo mais recente a uma longa lista de aflições dos venezuelanos, que atravessam o quinto ano de uma crise econômica que desencadeou desnutrição, hiperinflação e emigração.

Os problemas da rede de abastecimento de água são decorrentes da falta de manutenção e se agravaram nos últimos meses. Muitos dos 3 milhões de habitantes da capital foram privados do acesso constante à água encanada. Caracas fica um vale verdejante cerca de 900 metros acima do nível do mar, e sua água é bombeada de fontes muito mais baixas —mas as bombas não estão sendo cuidadas, peças de reposição são raras e o governo do presidente Nicolás Maduro tem pouco dinheiro em caixa.

“Durante muitos anos esse processo de deterioração não foi perceptível. Mas agora os sistemas de transporte de água estão muito danificados”, disse José De Viana, ex-presidente da Hidrocapital, prestadora de serviços estatal a cargo do abastecimento de água de Caracas. O governo socialista da Venezuela costuma dizer que a falta de água é resultado da sabotagem de “terroristas da direita”.

Em julho, o ministro da Informação, Jorge Rodríguez, anunciou um “plano especial” para resolver os problemas, mas não deu detalhes. O Ministério da Informação e a Hidrocapital não responderam ao pedido para informações sobre a questão.

A falta de água e torneiras que às vezes liberam um líquido marrom têm gerado preocupações em relação à saúde em um país carente de vacinas e antibióticos básicos. Cerca de 75% dos moradores de Caracas não recebem água regularmente, segundo pesquisa publicada por duas organizações não-governamentais venezuelanas neste mês. Além disso, cerca de 11% disseram acreditar que a água suja lhes causou problemas estomacais e de pele. A pesquisa não tem cifras comparativas. / REUTERS

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