Sebastian Scheiner/AP | Mahmud Hams / AFP
Sebastian Scheiner/AP | Mahmud Hams / AFP

Conflito entre Israel e Gaza registra ataques mais violentos desde 2014

Mais de 600 foguetes disparados por palestinos levaram a 4 mortes de civis israelenses, as primeiras nos últimos 5 anos; Netanyahu respondeu com ataques contra chefes militares e bombardeios mais amplos - 23 morreram no território palestino, entre eles crianças

David M. Halbfinger e Isabel Kershner, The New York Times

06 de maio de 2019 | 05h00

A violência entre Israel e a Faixa de Gaza agravou-se rapidamente no domingo, 5, nos piores combates desde a guerra de 2014. O fim de semana teve quatro civis israelenses mortos em ataques palestinos com foguetes. Forças israelenses responderam matando com ataques pontuais sete militantes - foram 23 mortes no total, segundo autoridades de Gaza, incluindo civis. Os lados negociavam ontem um cessar-fogo.

Os israelenses foram os primeiros civis mortos em choques com Gaza desde que os dois lados travaram uma rápida guerra no verão de 2014. Autoridades sanitárias de Gaza disseram que pelo menos 23 pessoas morreram, embora Israel negue responsabilidade por duas dessas mortes.

Um foguete palestino atingiu uma fábrica de cimento na cidade de Ashkelon, sul de Israel, matando um operário beduíno. Uma israelense morreu perto de Or Haner, um pequeno kibutz a cinco quilômetros da fronteira com Gaza, quando o caminhão que ela dirigia foi atingido por um míssil antitanque disparado de Gaza. Um terceiro israelense foi morto no início da manhã quando saiu de casa para fumar um cigarro.

Israel respondeu destruindo o que disse serem casas de vários comandantes da militância palestina e depois seguiu cumprindo uma antiga ameaça, a de começar a matar combatentes em ataques direcionados.

 

Um ataque aéreo destruiu um carro na Cidade de Gaza, matando um homem que as forças israelenses disseram ser responsável por transferências de dinheiro do Irã para o Hamas, o grupo radical islâmico que governa o território, e para uma facção rival em Gaza, a Jihad Islâmica Palestina. Israel disse que o homem, de 34 anos, era dono de uma casa de câmbio que Israel considerava uma célula terrorista desde de junho de 2018.

Questionado sobre por que Israel havia reiniciado sua tática de assassinatos pontuais, há muito abandonada, o tenente-coronel Jonathan Conricus, um porta-voz militar, disse que é “importante que o Hamas compreenda gravidade da situação”. Dois outros combatentes, da Jihad Islâmica Palestina, foram mortos num ataque aéreo ao campo de refugiados de Al-Buraij.

Os ataques vindos de Gaza atingiram principalmente alvos sem interesse militar no sul de Israel, como um jardim de infância na cidade de Sderot e o departamento de oncologia do Centro Médico Barzilai, em Ashkelon. Mais de cem israelenses vítimas de ferimentos estavam sendo atendidos em Barzilai, informou um funcionário do hospital.

Com foguetes e morteiros fazendo disparar sirenes no sul de Israel - foram mais de 600 lançamentos nos dois dias de ataque, informou o Exército - o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, ordenou o que chamou de “ataques em massa”. As Forças Armadas usaram tanques, artilharia, aviões, helicópteros e drones.

Uma brigada blindada e a brigada de infantaria do Golan foram deslocadas para a fronteira de Gaza para serem usadas numa possível grande incursão, e outra brigada de infantaria foi posta de sobreaviso.

Israel respondeu a acusações palestinas de que havia matado uma mulher grávida e sua sobrinha em Gaza no sábado. Um porta-voz do Exército insistiu em que as duas foram mortas por um foguete palestino mal disparado, embora funcionários de Gaza continuassem responsabilizando os israelenses pelo que chamaram de crime de guerra.

Em novembro, pareceu haver um avanço entre os dois lados, com Israel prometendo melhorar as condições em Gaza e permitindo a entrada de dinheiro doado pelo Catar, combustível e ajuda humanitária, apesar do bloqueio, além de expandir a zona do Mediterrâneo em que pescadores palestinos podem trabalhar e facilitar a entrada e saída de pessoas no território.

Em troca, o Hamas concordou em restringir os protestos ao longo da fronteira. Uma trégua verdadeira nunca vigorou. “O Hamas concordou em restringir os protestos em troca de concessões, mas essas não se materializaram”, disse Tareq Baconi, analista do International Crisis Group Baconi.

Omar Shaban, economista que dirige o PalThink for Strategic Studies, um centro de estudos da Cidade de Gaza, disse que algumas negociações entre funcionários de Gaza e de Israel perderam o foco. “Não faltam alimentos em Gaza, mas as pessoas não têm poder de compra porque não há empregos”, disse ele. “É preciso haver dinheiro para o setor privado operar. Gaza necessita de um pacote de ajuda.” No lado Israelense, até críticos de Netanyahu dizem que o ciclo de violência em Gaza só faz fortalecê-lo politicamente.

Com foguetes ainda chegando a Israel e a defesa antiaérea derrubando um bom número deles, mas não todos, a família de Moshe Agadi, de 58 anos, morto em Ashkelon às 14 horas, pediu aos parentes e amigos que não fossem ao funeral. A família temia que mais pessoas pudessem ser atingidas em outro ataque de Gaza. Mesmo assim, centenas de israelenses foram ao sepultamento. Soldados com boinas laranja passaram instruções sobre o que fazer se o cemitério fosse atacado. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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