Rodrigo Abd/AP
Rodrigo Abd/AP

Congresso do Peru inicia impeachment do presidente Vizcarra

Presidente foi flagrado em áudios pedindo para assessores mentirem em investigação no Parlamento; Vizcarra diz ser vítima de ‘golpe’

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2020 | 20h18
Atualizado 12 de setembro de 2020 | 21h42

LIMA - O Congresso do Peru aprovou nesta sexta-feira, 11, por 65 votos a favor, 36 contra e 24 abstenções, a moção de vacância, abertura de um processo para destituir o presidente Martín Vizcarra por “incapacidade moral”. Se aprovada, será a segunda destituição em 20 anos no Peru. Antes da votação, o governo classificou a ação como um “golpe de Estado”.

Vizcarra, que assumiu o poder em março de 2018 após a renúncia do presidente Pedro Pablo Kuczynski, do qual era vice, aparece em áudios que se tornaram públicos pedindo a seus assessores que mentissem em uma investigação parlamentar sobre um contrato polêmico com um cantor. Ao apoiar a moção no plenário, o deputado oposicionista José Vega disse que os áudios “corroboram” as supostas irregularidades que o Congresso apura há meses. 

“Peço ao Congresso que analise a situação com cautela, com responsabilidade e tome a decisão que julgar apropriada”, disse Vizcarra ao visitar o laboratório encarregado de testar uma potencial vacina chinesa contra a covid-19 com 6 mil voluntários peruanos, antes do resultado do Parlamento. Ele disse ainda que não renunciaria e recebeu o apoio do ex-presidente Ollanta Humala (2011-2016), que afirmou que Vizcarra deve continuar até completar seu mandato, em 28 de julho de 2021. 

“Esta é uma crise institucional provocada por círculos próximos ao presidente e perigosamente utilizada pelo Congresso. Não cabe vacância, Vizcarra deve continuar, cuidar da saúde, reativar a economia e garantir eleições limpas”, tuitou Humala.

O caso estourou em maio, quando a imprensa descobriu que em plena pandemia o Ministério da Cultura havia contratado o cantor Richard Cisneros, conhecido como Richard Swing, como palestrante e apresentador, que se gabava na mídia de ter sido conselheiro do governo. O Parlamento abriu uma investigação sobre os supostos contratos irregulares pelos quais Cisneros teria recebido US$ 10 mil.

Em três áudios divulgados no Congresso peruano na quinta-feira, Vizcarra pede às assessoras Miriam Morales e Karem Roca que mintam sobre a quantidade de vezes que Cisneros foi ao palácio do governo. “É preciso dizer que ele entrou duas vezes”, pede Vizcarra. “O que fica claro é que nessa investigação todos estamos envolvidos”, acrescenta o presidente.

As gravações de Vizcarra foram entregues pelo deputado Edgar Alarcón, presidente da comissão que investiga o caso do ex-assessor do presidente. 

“Não vou renunciar, não vou correr”, disse o presidente na quinta-feira à noite na TV, negando quaisquer atos ilegais. “Estamos diante de uma conspiração contra a democracia”, disse Vizcarra, que conquistou apoio popular por sua cruzada contra a corrupção.

Mas, logo depois, seis dos nove partidos com representação no Congresso anunciaram a apresentação da moção para declarar a “vacância” da presidência. A crise deve afetar ainda mais o Peru, um dos países mais atingidos pela pandemia de covid-19 no mundo, com mais de 700 mil infecções e 30 mil mortes.

A moção lembra duas iniciativas semelhantes movidas contra Kuczynski em dezembro de 2017 e março de 2018, o que levou à renúncia do ex-banqueiro.

Acusação de golpe

O primeiro-ministro peruano, Walter Martos, denunciou hoje que um “golpe” parlamentar estava em andamento. “O que o Congresso está fazendo no momento é dar um golpe de Estado, pois está fazendo uma interpretação arbitrária da Constituição”, disse Martos, general aposentado do Exército, à rádio RPP.

O vazamento dos áudios se dá no âmbito de constantes embates entre o Congresso e o Executivo. Em setembro de 2019, o presidente dissolveu o Parlamento constitucionalmente e convocou novas eleições legislativas para superar outra crise.

Triturador de presidentes 

Todos os ex-presidentes vivos do Peru estão presos ou sob investigação. Alberto Fujimori (1990-2000) foi condenado por assassinato e corrupção. Com problemas de saúde, alterna entre a cadeia e o hospital. 

Alejandro Toledo (2001-2006) é acusado de ter recebido suborno e fugiu para os EUA. Acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, Ollanta Humala (2011-2016) passou nove meses na prisão. O último a cair foi Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018), acusado de lavagem de dinheiro, que renunciou em março de 2018. 

Além disso, Alan García, duas vezes presidente (1985-1990 e 2006-2011), se suicidou no ano passado ao saber que seria preso por envolvimento no caso Odebrecht. / AFP e REUTERS

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