EFE/EPA/STRINGER
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Corrida para fugir do Afeganistão continua mesmo após promessa de 'perdão' do Taleban

Apesar do grupo fundamentalista islâmico falar em 'anistia geral' e 'garantias' a mulheres, desconfiança do povo afegão segue alta

Marc Santora, Carlotta Gall e Ruhullah Khapalwak, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2021 | 12h00

Enquanto a pressão aumentava sobre o governo de Joe Biden para fazer mais para retirar milhares de aliados afegãos temendo por suas vidas, o Taleban procurou, nesta terça-feira, 17, apresentar-se ao mundo como um administrador responsável do Afeganistão. Em manifestação pública, o grupo fundamentalista islâmico afirmou que "a guerra acabou, todos estão perdoados". 

Mas com o governo Biden e o Taleban prometendo oferecer proteção, para milhões de afegãos o futuro prometia apenas mais incerteza. Embora os militares dos EUA tenham restaurado a ordem no aeroporto internacional de Cabul nesta terça, não estava claro se os afegãos conseguiriam chegar lá.

Apesar das garantias de passagem segura, o Taleban não é apenas conhecido por operar com brutalidade, mas também tem um histórico sombrio na administração da vasta nação, amplamente dependente de ajuda estrangeira.

Os líderes do grupo se manifestaram pelo Twitter, apareceram em redes internacionais de comunicação, ofereceram garantias vagas às mulheres e prometeram "perdão" a todos com o fim da guerra. No entanto, há sinais sinistros de que essas promessas não correspondem à situação no terreno.

Os combatentes do Taleban se espalharam pelas ruas de Cabul, andando de motocicleta e dirigindo veículos da polícia e Humvees apreendidos das forças de segurança do governo. Os combatentes armados ocuparam o Parlamento, alguns visitaram as casas de funcionários do governo, confiscando bens e veículos, enquanto outros começaram a dar ordens para direcionar o tráfego.

Os vendedores de frutas estavam novamente nas ruas e algumas lojas estavam abertas. Mas os comandos das forças especiais estão entre os escondidos, muitos ressentidos por terem sido instruídos a não lutar enquanto os poderosos buscavam uma entrega pacífica.

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O secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, disse na segunda-feira que a sua organização estava "a receber relatos assustadores de severas restrições aos direitos humanos" em todo o país. "Estou particularmente preocupado com os relatos de crescentes violações dos direitos humanos contra as mulheres e meninas do Afeganistão", disse ele em uma reunião de emergência do Conselho de Segurança.

Em algumas áreas do Afeganistão, as mulheres foram orientadas a não sair de casa sem estar acompanhadas por um parente do sexo masculino, e as escolas para meninas foram fechadas.

O colapso do governo afegão deixou o Taleban no controle não só da segurança, mas também dos serviços básicos em um país que já enfrenta uma seca que deixou um terço de seus 38 milhões de habitantes em risco de ficar sem alimentos.

Embora não tenha havido relatos confirmados de assassinatos generalizados por represália, muitas pessoas se abrigaram em suas casas, temerosas depois de ver os insurgentes abrirem as portas das prisões e apreenderem depósitos de armas em sua varredura pelo país.

Veja o mapa do Afeganistão

Na esperança de levar as pessoas de volta a empregos essenciais, o Taleban emitiu uma "anistia geral" para todos os funcionários do governo nesta terça, dizendo que eles poderiam voltar ao trabalho com "plena confiança".

Mas a declaração foi opaca, e as memórias do governo do Taleban estão profundamente arraigadas.

Em 1996, o grupo começou sua conquista de Cabul castrando, atirando e finalmente enforcando o último presidente comunista do Afeganistão, Najibullah.

Eles se tornaram conhecidos pela brutalidade, realizando execuções por apedrejamento em um estádio de futebol e obrigando os homens a orar cinco vezes ao dia sob a ameaça de chicotadas. Televisão, vídeos e música foram proibidos.

As mulheres, em particular, sofreram gravemente, com a educação das meninas proibida e as mulheres em grande parte excluídas da vida pública. Havia apenas cerca de 900.000 alunos em 2001, e nenhum deles era menina, de acordo com a USAID. Duas décadas depois, antes da recente tomada do Taleban, esse número aumentou para 9,5 milhões de estudantes no país, 39% dos quais são meninas. A volta do grupo ao poder levantou um temor da volta dos dias sombrios para milhões de mulheres, inclusive fazendo disparar o preço das burcas no mercado de Cabul.

Ainda assim, um dos principais veículos de mídia do Afeganistão, o ToloNews, colocou suas âncoras femininas na tela, pela primeira vez desde a vitória Taleban, nesta terça-feira.

Em alguns lugares sob controle do Taleban na semana passada, eles recorreram à ameaça do terror para obrigar os funcionários públicos a voltarem ao trabalho.

Mesmo antes do Taleban emitir qualquer decreto oficial, os donos de lojas estavam ocupados pintando imagens de mulheres, os hotéis pararam de tocar música e muitos afegãos estão escondidos em suas casas, com medo do que possam encontrar nas ruas.

E dezenas de milhares ainda estavam lutando para encontrar uma maneira de escapar.

Depois que o pânico e o caos no aeroporto internacional de Cabul levaram à suspensão dos voos, os militares dos EUA pareceram ter restaurado uma aparência de ordem na terça-feira. Mas o Taleban parecia estar controlando o acesso ao aeroporto e havia estabelecido postos de controle em toda a cidade.

 

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