Djordje Kojadinovic
Outdoor em Belgrado do presidente chinês, Xi Jinping, agradece a colaboração da China no combate à pandemia do coronavírus na Sérvia Djordje Kojadinovic

Crise leva China a exercer agressiva ‘diplomacia sanitária’ e Ocidente reage

Após covid-19, embaixadas chinesas se preparam para globalização geopolítica e multiplicam atritos e propaganda do regime; política externa de Pequim provoca reação de adversários conservadores e moderados

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2020 | 05h00

Era 30 de março quando Belgrado, na Sérvia, amanheceu com outdoors ocupados pelo retrato do secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCCh), Xi Jinping, sobre o fundo da bandeira do país e uma frase: “Obrigado, irmão Xi”. Pagos por um jornal sérvio pró-governo, a imagem se tornou símbolo da nova projeção do poder chinês e da renovada assertividade da política externa da China durante a pandemia de covid-19.

As ações viraram alvo de contestação não só de líderes conservadores, como o presidente americano, Donald Trump, mas também de moderados, como o francês Emmanuel Macron e a chanceler alemã, Angela Merkel. E isso no momento em que Pequim aprofunda a chamada “rota da seda sanitária”, expressão de sua “diplomacia das máscaras e respiradores”, produtos essenciais para o combate à pandemia e os quais têm no país o maior produtor mundial.

Eles questionam a conduta chinesa no início da pandemia. Teria o país alertado a Organização Mundial da Saúde (OMS) a tempo ou escondido a informação sobre o novo vírus? Essa desconfiança e a dependência dos países de produtos médicos chineses essenciais à defesa de suas populações trarão consequências às relações internacionais.

“O vírus passou a ser, neste momento, o eixo central de confrontação”, afirmou o ex-embaixador brasileiro em Pequim Roberto Abdenur. Ele identifica a origem da maior “assertividade” da chancelaria chinesa com a ascensão de Xi à direção do PCCh, em 2012. “Até então, a China tinha uma política externa mais discreta. Xi Jinping liberou essas forças. A China alcançou a modernização econômica, militar e tecnológica e, por isso, sua diplomacia passou a ser mais assertiva.”

Mas, conforme a pandemia se espalhava, as reações à China cresciam, assim como sua propaganda. Em Bamako, no Mali, sua embaixada soltou nota defendendo a luta de Pequim “vitoriosa contra a covid-19”.  “A força da China é a direção forte do Partido Comunista e do governo, o senso de disciplina e de sacrifício da população”. Dias depois, o chanceler chinês, Wang Yi, foi questionado pelo presidente da União Africana, Moussa Faki Mahamat, por suposto racismo contra estudantes nigerianos na China, em razão do aparecimento entre eles de casos da doença.

Em Burkina Faso, a embaixada chinesa reagiu à decisão do governo de pôr em quarentena chineses chegados a Ouagadougou, sob a suspeita de contágio. “Eles (os chineses) não tinham antecedentes relativos à covid-19, nem na China nem em outro lugar”, dizia comunicado chinês, que contestava a medida. 

Fake

Nesta semana, após atrito com a China, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, disse que a Europa “deve se tornar mais geopolítica”. Ele lembrou que a Comissão Europeia considera a China ao mesmo tempo um parceiro e um rival sistêmico, o que não os impede de colaborar. “Mas isso só pode acontecer enquanto a China respeitar a UE. E esse nem sempre é o caso. Às vezes, Pequim joga sua fichas na fragmentação da UE.”

As declarações ao jornal Le Monde são o resultado de duas semanas de tensões entre os países, desde que o embaixador chinês em Paris, Lu Shaye, fez publicar um texto com críticas aos governos e à imprensa ocidentais. Para a embaixada, “a vitória da China sobre a epidemia despertou rancor”. “Com teses fabricadas, apresenta-se a China como a grande responsável pela pandemia. Mas o fato de que tenham subestimado a epidemia e demorado para tomar medidas, tornando-a incontrolável, não lhes pesa na consciência nem lhes perturba o sono.”

Além da propaganda do regime, a embaixada afirmava que funcionários de instituições para idosos na Europa estavam abandonando pacientes com covid-19 à própria sorte. E usava a sigla francesa Ehpad para designar esses lugares. Acusava ainda 80 parlamentares franceses, que apoiavam Taiwan, de ofender o secretário-geral da OMS, Tedros Adhanom, o etíope eleito para dirigir a organização com o apoio da China, em 2017, chamando-o de “negro”. Era falso.

Le Drian convocou Lu Shaye e pediu explicações. Após a França, foi a vez da Alemanha. Merkel questionou o papel da China na pandemia de covid-19, afirmando que o governo chinês devia ter “a máxima transparência a respeito da gênese do coronavírus. “Quanto mais a China prestar contas ao mundo com transparência, melhor será para todo o planeta.” 

Não se trata aqui de dar vazão às teorias conspiratórias que veem no Sar-Cov-2 um vírus manipulado ou criado por chineses a fim de prejudicar outros países. Ou simplesmente de embarcar no discurso de Trump e do deputado federal Eduardo Bolsonaro, que faz questão de chamar o coronavírus de “vírus chinês” para pôr nos ombros de Pequim não só seus possíveis erros na crise, bem como as falhas cometidas por governos que subestimaram a pandemia. Os dois provocaram reações da diplomacia chinesa, até mesmo com a sugestão de que o vírus seria, na verdade, americano.

“A briga não é só comercial, mas estratégica, uma disputa pela hegemonia política, econômica e tecnológica”, disse Abdenur. E a China, que foi uma das principais beneficiadas pela globalização, sabe que vai perder mercados. “Após a crise, a globalização será muito mais marcada por questões geopolíticas. A economia global está mudando e ela precisa se preparar para um mundo mais hostil a ela também em função de seu tamanho”, conclui o professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, Oliver Stuenkel.

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Etiópia é trampolim da ajuda médica chinesa na África

Capital etíope é usada para a distribuição de máscaras e respiradores para outros países do continente por meio da companhia Ethiopian Airlines

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2020 | 05h00

Para contrapor os questionamentos contra a China durante a pandemia da covid-19, o governo chinês acelerou sua política de projetar seu poder por meio da ajuda médica aos países africanos. A Etiópia é hoje, ao lado da África do Sul, o principal parceiro da estratégia chinesa. É em Adis-Abeba que pousam os aviões vindos de Pequim com equipamentos e máscaras. No dia 22 de março, cargueiros trouxeram 5,4 milhões de máscaras e 1,08 milhão de testes doados por Jack Ma, de 54 anos, o bilionário fundador do site Alibaba, para o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) africano. O centro, com sede na Etiópia, distribuiu por meio da Ethiopian Airlines a doação para os 54 países do continente.

O que explica o envio desse recurso a Adis-Abeba não é apenas o fato de a capital etíope ser a sede da União Africana. A Etiópia é uma das principais economias da África e, depois do fim da guerra com a Eritreia, tornou-se um porto seguro entre vizinhos desestabilizados, como o Sudão do Sul e a Somália. Está ainda ao lado do Djibuti, onde a China construiu sua primeira base militar estrangeira, sobrepondo, assim, os interesses militares e os comerciais chineses da chamada nova "Rota da Seda" chinesa em uma área instável – o Chifre da África e o sul da Península Arábica. “O que é surpreendente nessa nova Rota da Seda é que ela tem ambições que vão além da vizinhança chinesa e chegam até nós”, afirmou o diplomata Roberto Abdenur, que foi embaixador  brasileiro em Pequim.

Esse não é o único sinal da importância dada pela China à sua parceria com a Etiópia. A própria presença de Tedros Adhanom, ex-ministro da Saúde e das relações Exteriores da Etiópia, no comando da OMS simboliza essa expressão do poder chinês, já que o etíope contou com o apoio da China para ser eleito e dirigir a agência da ONU contra uma candidatura do Reino Unido e outra do Paquistão. “Com a retirada dos americanos dos organismos multilaterais, a China passou a ocupar esse espaço. E é notável que ela detenha a direção de quatro agências da ONU”, afirmou o professor Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas.

Para Stuenkel, a China aprendeu a jogar e a entender o que é o multilateralismo competitivo. Ela entendeu que as instituições internacionais são uma plataforma de poder. E por isso dá apoio à União Africana e a candidatos de países em desenvolvimento para ocuparem posições-chave em órgãos multilaterais em razão da retirada delas dos Estados Unidos, patrocinada pelo governo de Donald Trump.  “A China aumentou muito sua presença nessas plataformas nos últimos anos”, afirmou o professor. No caso da Etiópia, ela passou a servir de plataforma para o envio de ajuda a outros países. Foi o que aconteceu com uma centena de respiradores artificiais vendidos pela China ao Maranhão, governado por Flávio Dino, cujo partido, o PCdoB, tem relações históricas com o Partido Comunista Chinês. E, nessas horas, mais do que contratos, o que vale para os chineses são o dinheiro e as relações pessoais. 

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‘É legítimo questionar o papel da China na pandemia’, diz pesquisador

Especialista em China, Antoine Bondaz diz que país se prepara para aumentar seu papel na indústria médica mundial

Entrevista com

Antoine Bondaz

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2020 | 05h00

Professor da Sciences Po e especialista em China da Fundation pour la Recherche Stratégique (Fundação para Pesquisa Estratégica), em Paris, Antoine Bondaz diz que, na pandemia de covid-19, é tão legítimo questionar o papel do país na crise quanto é fácil tentar pôr a culpa na Organização Mundial de Saúde (OMS). Leia sua entrevista.

O que pretende a China com a chamada nova "rota da seda sanitária"?

Em 2015, ela lançou seu projeto de cooperação sanitária. O País queria aumentar sua influência na governança sanitária regional e mundial e ajudar a medicina tradicional chinesa a se internacionalizar. Os objetivos eram organizar fóruns de cooperação sanitária com os países participantes da “Rota da Seda”, com a Associação dos Países do Sudeste Asiático, com a Europa Central e a do Leste e com os árabes. Queria fazer um mecanismo de prevenção e de controle de doenças infecciosas na Ásia Central e na sub-região do Grande Mekong e criar um plano de formação de pessoal de saúde com a Indonésia e o Laos. Ambições de longo prazo de diplomacia sanitária estão definidos no plano Healthy China 2030. O País pretende se tornar importante na produção de equipamentos médicos de diagnósticos e de tratamento e conquistar parte substancial do mercado farmacêutico mundial, facilitando a criação de gigantes nacionais do setor. As autoridades desejam igualmente participar ativamente na governança mundial da saúde e exercer uma influência sobre a elaboração das normas e regras internacionais.

A epidemia de ebola na África Ocidental em 2014 marcou um crescimento em poder de engajamento chinês na diplomacia da saúde?

Em 1963, a China enviou uma primeira equipe médica para a Argélia. Entre os anos 1960 e o fim dos anos 2010, mais de 20 mil profissionais de saúde chineses foram enviados à África e levaram seus cuidados a mais de 200 milhões de pessoas. Entretanto, foi a crise do ebola na África Ocidental em 2014-2015 que foi a ocasião em que a China conquistou uma maior visibilidade como ator da governança mundial no domínio da saúde pública. A China participou pela primeira vez de um esforço internacional em face a uma emergência mundial na saúde. O país contribui financeiramente e com o envio de 1.200 especialistas em saúde. Pela primeira vez, a China se tornava um país de primeiro plano em termos de cooperação sanitária claramente se inserindo em uma lógica de cooperação internacional. De fato, a China e os Estados Unidos cooperaram estreitamente na luta contra a epidemia de ebola que fez mais de 11 mil mortos, principalmente, apoiando a criação de um Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças, em janeiro de 2016. A China se tornou, assim, um parceiro crível ao mesmo tempo em que é cada vez mais percebido como um concorrente em termos de influência na África.

 

Como o Ocidente deve reagir aos planos chineses ligados à "rota da seda sanitária"?

É fundamental se lembrar que os países ocidentais são de longe os que mais contribuem com a cooperação internacional em matéria de saúde pública e fornecem uma ajuda humanitária, técnica e financeira considerável. Que a China desenvolva sua diplomacia sanitária e participe desse esforço é, evidentemente, uma coisa boa, pois sua contribuição permite melhorar a saúde pública em numerosos países. Os 17 protocolos de acordos bilaterais assinados em 2017 com outros países, assim como o Programa Comum das Nações Unidas sobre o HIV/Aids (ONUSIDA), o Fundo Mundial da Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária (The Global Fund) e a Aliança Global pelas Vacinas e pela Imunização (Gavi), são evidentemente bem-vindos. As inquietudes ocidentais não são sanitárias, mas políticas, notadamente as relacionadas com a vontade da China de utilizar seu peso econômico e sua diplomacia a fim de aumentar sua influência. Vê-se isso principalmente na ajuda entregue recentemente aos 54 países africanos, por exemplo. Essa ajuda é uma boa coisa, evidentemente, mas a divulgação sobre ela é considerável, principalmente nas redes sociais. E aí, entre os elementos de linguagem dos diplomatas e da mídia chinesa, podemos notar numerosas referências a uma suposta superioridade do modelo de governança chinês e uma crítica ao modelo de governança democrático. É esse aspecto que preocupa muitos diplomatas, pois o objetivo é moldar a opinião pública desses países em relação à China em detrimento dos países ocidentais.

A eleição de Tedros Adhanom em vez do britânico David Nabarro para a OMS simboliza a influência da China? Trump teria razão em acusar a organização?

Como todos os países, a China procura aumentar a sua influência no seio de organizações internacionais a fim de defender melhor seus interesses. A influência crescente dela nas organizações internacionais se traduz pelo aumento de suas contribuições financeiras à ONU (o país é o segundo maior contribuinte atrás dos Estados Unidos e na frente do Japão), mas também pela nomeação de diplomatas chineses para postos-chave, como Qu Dongyu, eleito para dirigir a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) contra a candidatura francesa. A China procura notadamente convencer os países em desenvolvimento de que ela é um porta-voz indispensável em face dos países desenvolvidos. Nós vimos isso claramente quando da eleição para a direção da OMS do etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus no lugar do britânico David Nabarro e da paquistanesa Sania Nishtar, em 2017.  O antigo ministro da Saúde e das Relações Exteriores da Etiópia é frequentemente apresentado como alguém próximo à China, mas é necessário não ceder ao comodismo de imaginar que ele seria completamente dependente desse país. Como em todas as organizações internacionais , há na OMS uma luta por influência política e é por demais lógico que a China esteja tentando influenciar a organização.  Mas a verdadeira questão é outra: é a da transparência da China em relação à OMS e, principalmente, saber se o país transmitiu a tempo à organização as informações que estavam a sua disposição com relação à epidemia. Ora, se um primeiro caso foi declarado à OMS no dia 31 de dezembro, parece que os primeiros casos teriam aparecido muito antes. Assim como se no dia 20 de janeiro o pneumologista Zhong Nashan anunciava uma muito provável transmissão entre humanos do vírus, as autoridades chinesas pareciam estar persuadidas disso desde o dia 14 de janeiro ou antes ainda. É fácil querer jogar a culpa na OMS. Mas como toda organização internacional, ela depende da contribuição e colaboração de seus membros. Se um país decide não compartilhar informações com a OMS, é difícil obrigá-lo a isso. Se a OMS não teve acesso à região de Wuhan antes do fim de janeiro, apesar dos pedidos, ela não é mais responsável, mas, sim a China que lhe recusou o acesso.

O senhor disse que a China aumentou sua capacidade de produção de equipamentos médicos de proteção, de máscaras, e de respiradores, dos quais os outros países, que já dependiam da produção chinesa, têm uma necessidade cruel. O senhor também mostrou que, levando sua ajuda técnica, a China procura convencer seus parceiros de seus exemplo e, assim, fazer esquecer seus erros e responsabilidades na gestão inicial da crise. Quais devem ser as consequência para a China em razão de seu comportamento no começo da crise e quais as medidas que a comunidade internacional pode tomar para evitar que isso ocorra de novo?

Há dois aspectos importantes. O primeiro aspecto nos leva a interrogações legítimas na China e no exterior sobre a gestão inicial da epidemia e, notadamente, sobre a transparência das autoridades chinesas nas primeiras semanas da epidemia. É como reação a essas questões que a China procura impor a própria narrativa sobre os eventos minimizando suas responsabilidades, colocando toda a culpa nas autoridades locais e, fazendo esquecer a censura, edulcorar sua imagem no exterior. Não há nada de surpreendente nisso. Mas alguns diplomatas chineses querem ir mais longe propagando rumores e desinformação, o que evidencia as inquietudes do regime. O segundo aspecto importante tem relação com a cooperação internacional em matéria de saúde pública e de luta contra as epidemias. Além da tensões políticas, é indispensável ir ainda mais longe naquilo que é feito no campo dos alertas epidemiológicos e das respostas coordenadas. Vê-se, mesmo na Europa, que nos faltou inicialmente solidariedade e cooperação. Isso passa pela tomada de consciência dos dirigentes dos riscos inerentes às epidemias. Essa pandemia certamente contribuiu para isso, para a adoção de medidas ainda mais fortes em termos de cooperação. Na Europa, isso pode passar por um papel aumentado da União Europeia em matéria de cooperação sanitária com, por exemplo, a criação de um centro de gestão de crise dedicado à construção de estoques estratégicos.

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Análise: Pandemia e política

O atual contexto internacional se caracteriza justamente pela existência de desafios globais

Roberto Abdenur*, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2020 | 04h00

Nos últimos dias, o Brasil procedeu a radical ruptura na sua política externa. Deixou de apoiar iniciativas multilaterais sobre a pandemia. Recusou-se a copatrocinar projeto de resolução na ONU, apresentado por 178 países. Essa recusa foi estimulada pela rejeição ao projeto pelos EUA, que se opunham a um papel de liderança da OMS no enfrentamento da doença.

A isso, somam-se declarações do chanceler Ernesto Araújo, que denunciou um imaginário plano pelo qual o “globalismo”, aproveitando a crise, procuraria difundir sua “ideologia comunista”. Ele se deixa inebriar por delírios e devaneios de sentido conspiratório, desprovidos de conexão com a realidade. O chanceler deu agora mais um passo no processo de submissão do Brasil aos EUA. Abandonou a postura de liderança que nossa diplomacia seguia havia décadas na abordagem da saúde. Essa política mostra-se infensa à própria ONU e ao multilateralismo. O ministro adota postura equivocada e irrealista. 

Preocupa-se com o “globalismo”, mas não percebe que o atual contexto internacional se caracteriza justamente pela existência de desafios globais. E a comunidade internacional se defronta com três deles gritantemente “globais”: as mudanças climáticas, a pandemia e a recessão econômica. Em suma, é mais necessária do que nunca a cooperação de caráter multilateral. Nossa política externa precisa livrar-se da influência deletéria das ideologias de extrema- direita que o governo de Donald Trump e movimentos que o apoiam, inclusive no plano religioso, tratam de fazer chegar a outros países. Urge dar as costas a tais influências. Precisamos de um retorno a vetores básicos de nossa atuação internacional, como o pragmatismo, a objetividade, o realismo e o compromisso inarredável com o multilateralismo.

*É EX-EMBAIXADOR DO BRASIL NA CHINA

 

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