AFP PHOTO / Henry Holt and Company  & GETTY IMAGES NORTH AMERICA AND Getty Images for New York Magazine / Ben GABBE
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Dá para confiar em Michael Wolff?

A seu talento para conquistar as personalidades e para escrever, infelizmente, não corresponde o cuidado necessário com a qualidade da informação

Helio Gurovitz, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2018 | 05h00

Antes mesmo do lançamento, na sexta-feira, o livro Fire and Fury, de Michael Wolff, provocou a ruptura entre Donald Trump e seu ex-estrategista Steve Bannon, além de despertar frêmitos com revelações inéditas sobre as motivações de Trump, seu estilo de governo e sua atuação diante da investigação da interferência russa na campanha eleitoral. O problema é separar os fatos da ficção, atividade que consumirá Washington nas próximas semanas.

+ A inspiração de Ronald Reagan

Wolff tem um talento natural para conquistar a confiança de magnatas, banqueiros e celebridades. Não é coincidência que as portas do reality show da Casa Branca tenham sido abertas logo para ele. Mas seu trabalho está longe de ser unanimidade. Sofre críticas severas desde que emergiu, na época da bolha da internet, como misto de empreendedor digital fracassado e cronista dos costumes no universo que reúne tecnologia, comunicação e negócios.

Depois que lançou Burn Rate, sobre a bolha digital, previu de modo certeiro o naufrágio da fusão entre AOL e TimeWarner. Consolidou sua fama como uma espécie de mestre das fofocas da elite nova-iorquina, primeiro na New York, depois na Vanity Fair, finalmente na Hollywood Reporter. Tem mesa reservada nos melhores restaurantes, acesso aos protagonistas e sempre produziu textos mordazes, que lhe renderam o epíteto “piranha alfa na lagoa da mídia”. 

A seu talento para conquistar as personalidades e para escrever, infelizmente, não corresponde o cuidado necessário com a qualidade da informação. São corriqueiras contestações, mais ou menos graves, ao que publica ou a suas práticas jornalísticas.

Um furão faminto no meio das calças

Em 2008, pouco antes de lançar sua biografia de Rupert Murdoch, depois de mais de 50 entrevistas com o magnata, Wolff recebeu um e-mail do próprio Murdoch levantando “representações falsas e extremamente danosas de fatos”. O então colunista do New York Times David Carr (1956-2015) criticou a narrativa dos fatos sem atribuição, como se Wolff estivesse presente a tudo. “Um dos problemas com a onisciência de Wolff é que, embora ele possa saber tudo, às vezes, sabe errado”, escreveu Carr. O resultado levava Carr a perguntar por que Murdoch deixara um “furão faminto cair no meio de suas calças”? A mesma pergunta deve ser feita a Trump.

Eles dizem não ter dito o que ele diz que disseram

Pelo menos dois dos citados em Fire and Fury contestam ter dito o que Wolff disse que eles disseram: um amigo de Trump, Tom Barrack Jr., e a ex-número dois da Casa Civil Katie Walsh. Trump e a Casa Branca negam até mesmo terem lhe concedido o acesso de que ele se gaba no primeiro capítulo. Outras negativas na certa virão.

Vinte anos de negativas, contestações…

Doze pessoas reconheceram ter falado com Wolff e negaram frases e fatos descritos em Burn Rate, publicou o Brill’s Content, em 1998. Sobre uma coluna de Wolff de 2001, Andrew Sullivan negou que tivesse dito ser o “intelectual gay mais representativo no país”. A ex-editora Judith Regan contestou item por item outra coluna sobre ela.

.. e práticas jornalísticas questionáveis

Wolff se vangloriou de ter usado o próprio filho como espião numa tarde que passou brincando na casa do financista Steve Rattner, segundo conta Michelle Cottle em perfil publicado na New Republic, em 2004. “Ele tem a reputação de romper embargos, queimar suas fontes, atribuir em ‘on’ comentários feitos em ‘off’.”

Para quem não quer saber de fofoca

Se não está interessado em fofocas da Casa Branca, o livro a comprar é outro. How Democracies Die(Como morrem as democracias), dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, sai no dia 16. Eles passaram mais de 20 anos estudando países europeus e latino-americanos. Concluíram que a regressão para o autoritarismo é lenta, mas real. Ela tem sido promovida por meio de ataques ao Judiciário, à imprensa e às instituições.

 

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