Mandel Ngan/AFP
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Defesa de Trump da hidroxicloroquina levanta suspeitas sobre sua ligação com farmacêuticas

Uso do medicamento em pacientes com covid-19 divide comunidade médica, mas presidente americano diz que é a melhor solução

Peter Baker, Katie Rogers, David Enrich, Maggie Haberman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2020 | 16h53

WASHINGTON - O presidente americano, Donald Trump, fez uma aparição rara no domingo, quando sua força-tarefa para o combate à  pandemia se reunia na Casa Branca, determinada a falar sobre o medicamento antimalária que ele promoveu agressivamente nos últimos dias como tratamento para o coronavírus.

Mais uma vez, os especialistas alertaram contra a recomendação de um medicamento que ainda não foi comprovado como um remédio seguro, principalmente para pacientes cardíacos. “Sim, as coisas do coração”, reconheceu Trump. Então ele foi até as câmeras para promover a hidroxicloroquina de qualquer maneira. “Então o que eu sei?”, disse Trump. “Eu não sou médico. Mas eu tenho bom senso.”

Dia após dia, Trump incentiva os pacientes com coronavírus a experimentar a hidroxicloroquina com todo o entusiasmo. A referência passageira que ele faz aos possíveis perigos geralmente é minimizada pelo endosso total. "O que você tem a perder?" ele perguntou cinco vezes no domingo.

Apoiado por seu consultor, o médico Larry Ellison, da Oracle, e Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York, Trump fala da droga como uma cura milagrosa para o vírus que matou milhares e paralisou a vida americana. Ao longo do caminho, ele desencadeou um debate internacional sobre um medicamento que muitos médicos dos EUA e de outros países vêm tentando usar desesperadamente, mesmo sem estudos científicos conclusivos.

Trump pode estar certo, e os médicos relatam evidências de cura que deram esperança. Mas isso ainda está longe de ser certo, e a assertividade do presidente em pressionar conselheiros e consultores como Anthony Fauci, o principal especialista em doenças infecciosas do governo, provocou críticas dentro de sua força-tarefa de combate ao coronavírus e levantou questões sobre seus motivos.

Se a hidroxicloroquina se tornar um tratamento aceito, várias empresas farmacêuticas terão lucro, incluindo acionistas e executivos seniores com conexões com o presidente. O próprio Trump tem um pequeno interesse financeiro pessoal na Sanofi, a farmacêutica francesa que fabrica o Plaquenil, uma versão à venda da hidroxicloroquina.

“Eu certamente entendo por que o presidente está pressionando”, disse Joshua Rosenberg, médico do tratamento intensivo do Brooklyn Hospital Center. "Ele é o presidente dos Estados Unidos. Ele tem que projetar esperança. E quando você está em uma situação sem esperança, as coisas vão muito mal. Portanto, não o culpo por insistir, mesmo que não haja muita ciência por trás, porque é, neste momento, a melhor e mais disponível opção de uso".

Um médico sênior do Wyckoff Heights Medical Center, no Brooklyn, onde os médicos não estão fornecendo a droga, no entanto, disse que a demanda atual é preocupante para os pacientes que sofrem de doenças reumáticas crônicas. No Hospital St. Barnabas, no Bronx, outro médico disse que sua equipe estava dando a hidroxicloroquina a pacientes com coronavírus, mas criticou o presidente e o governador Andrew Cuomo por vender o medicamento sem provas. "A falsa esperança também pode ser ruim", disse ele.

A organização profissional que publicou um estudo francês positivo citado pelos aliados de Trump mudou de ideia nos últimos dias. A Sociedade Internacional de Quimioterapia Antimicrobiana disse: "O artigo não atende ao padrão esperado da sociedade". Alguns hospitais na Suécia pararam de fornecer hidroxicloroquina para tratar o coronavírus após relatos de efeitos colaterais adversos, segundo a mídia sueca.

Mas Cuomo disse a repórteres na segunda-feira, 6, que pedirá a Trump que aumente o suprimento federal de hidroxicloroquina para as farmácias de Nova York, permitindo que o estado aumente o limite de compras. "Houve evidências de que o medicamento é promissor", disse Cuomo, ao notar a falta de um estudo formal.

Trump manifestou interesse pela hidroxicloroquina algumas semanas atrás, dizendo aos conselheiros que Ellison, bilionário e fundador da Oracle, havia discutido isso com ele. Na época, Mehmet Oz, apresentador de televisão The Doctor Oz Show, entrou em contato com os consultores de Trump para agilizar a aprovação do uso do medicamento para o coronavírus.

Giuliani exortou Trump a adotar o medicamento, com base em parte nos conselhos de Vladimir Zelenko, um médico do interior de New Jersey que se tornou um sucesso na mídia conservadora depois de administrar um coquetel de hidroxicloroquina, o antibiótico azitromicina e sulfato de zinco.

Em uma entrevista na segunda-feira, Giuliani negou qualquer participação financeira e disse que falou com Trump apenas depois que o presidente já havia promovido a droga publicamente. 

Giuliani disse que trouxe a experiência de um promotor para sua pesquisa. "Uma das coisas que um bom litigante se torna é um especialista instantâneo em várias coisas, que depois esquece", disse ele. "Eu não pretendo ser médico. Eu apenas repito o que eles disseram."

A Food and Drug Administration (FDA), que aprovou a hidroxicloroquina como tratamento para malária e lúpus, emitiu um pedido de emergência no fim do mês passado, permitindo que os médicos o administrassem a pacientes com coronavírus. Trump disse que o governo federal distribuirá 29 milhões de doses e que ele ligou ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, para pedir mais.

Alguns conselheiros de Trump têm interesses financeiros na questão. Os maiores acionistas da Sanofi incluem a Fisher Asset Management, empresa de fundos mútuos administrada por Ken Fisher, um dos principais doadores republicanos, incluindo Trump. Um porta-voz de Fisher se recusou a comentar.

Outro investidor da Sanofi e da Mylan, outra empresa farmacêutica, é a Invesco, o fundo anteriormente administrado por Wilbur Ross, o secretário de Comércio. Ross disse em comunicado na segunda-feira que "não estava ciente de que a Invesco tem investimentos em empresas que produzem" o medicamento”, “nem tenho qualquer envolvimento na decisão de explorar isso como um tratamento".

No ano passado, Trump confirmou que sua família tem investimentos em um fundo, a Dodge & Cox, cuja maior participação era na Sanofi.

Vários fabricantes de medicamentos genéricos estão se preparando para produzir pílulas de hidroxicloroquina, incluindo a Amneal Pharmaceuticals, cujo co-fundador Chirag Patel é membro do Trump National Golf Course Bedminster em New Jersey e já jogou golfe com Trump pelo menos duas vezes desde que ele se tornou presidente.

Patel, cuja empresa está sediada em Nova York, não respondeu a um pedido de comentário. Amneal anunciou no mês passado que aumentaria a produção do medicamento e doaria milhões de comprimidos para Nova York e outros estados. Outros fabricantes de medicamentos genéricos estão aumentando a produção, incluindo Mylan e Teva Pharmaceutical Industries.

Roberto Mignone, membro do conselho da Teva, procurou a equipe de Jared Kushner, genro do presidente e seu consultor sênior. A equipe de Kushner o colocou em contato direto com a força-tarefa da Casa Branca e Mignone pediu ajuda para que a Índia aliviasse as restrições de exportação, que foram relaxadas desde então, permitindo que a Teva traga mais pílulas de hidroxicloroquina para os Estados Unidos. Mignone, que também é vice-presidente do conselho do hospital da Universidade de Nova York, que está realizando um estudo clínico de hidroxicloroquina, confirmou na segunda-feira que conversou com o governo sobre a entrada de mais remédios no país.

Daniel H. Sterman, diretor de cuidados intensivos do hospital da Universidade de Nova York, disse que os médicos estão usando a hidroxicloroquina, mas os dados sobre sua eficácia permanecem "fracos e sem fundamento" até agora. "Não sabemos se nossos pacientes estão se beneficiando do tratamento com hidroxicloroquina no momento", disse ele. / NYT

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