REUTERS/Kevin Lamarque
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Democratas assumem comando da Câmara e ameaçam processar Trump

Deputada Nancy Pelosi é eleita líder da oposição, que agora terá controle de importantes comissões legislativas com poder de investigação

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2019 | 21h18

Eleita nesta quinta-feira a nova presidente da Câmara dos EUA, a democrata Nancy Pelosi afirmou que não descarta a possibilidade de processar o presidente Donald Trump. A declaração, dada em entrevista antes de ser confirmada como líder, indica o tom que os democratas deverão adotar para a segunda metade do mandato do presidente. “Eu acho que é uma discussão que está aberta”, afirmou Pelosi à NBC. 

Ela também não descartou a possibilidade de  um processo de impeachment contra o presidente, que precisaria passar pela Câmara e depois pelo Senado. Segundo Pelosi, o processo dividiria os EUA e, portanto, sugeriu que os democratas esperem o relatório do procurador Robert Mueller sobre Trump antes de tomar qualquer decisão. “Não deveríamos abrir um processo de impeachment por uma razão política. E não deveríamos evitar o impeachment por uma razão política”, afirmou.

Assessores e parentes de Trump são investigados ou processados em diferentes casos na Justiça americana, com a mais proeminente delas conduzida pelo procurador especial Robert Mueller. Ele investiga o possível conluio com a Rússia durante a campanha presidencial de 2016. 

A possibilidade de Mueller indiciar  Trump, ainda durante o mandato, é controvertida. Alguns constitucionalistas acreditam que é possível indiciá-lo. Outros, não. A declaração de Pelosi, contudo, dá o tom do que o presidente deve enfrentar nos próximos anos com a oposição no controle  da Câmara dos Deputados.

A partir de agora, os democratas terão, além da maioria das cadeiras na Câmara, o comando de comissões de investigação – que podem ir à fundo no escrutínio de dados das políticas adotadas pelo governo. A oposição pode também intimar o presidente a apresentar documentos, como declarações de imposto de renda – o que Trump sempre se recusou a fazer.

O impeachment é considerado improvável, já que o Senado tem maioria republicana e barraria um processo para remover Trump, mas a avaliação no Congresso é  que os desdobramentos das investigações criminais poderiam complicar a situação política de Trump. 

Pelosi – única mulher a assumir essa posição – teve 220 votos e retornou à presidência da Câmara dos Deputados depois de perder o posto em 2011. O novo Congresso tomou posse ontem, no 13.º dia de paralisação parcial do governo em razão do impasse a respeito do financiamento para construir um muro na fronteira com o México. 

O muro, promessa de campanha de Trump, enfrenta a resistência dos democratas, agora maioria na Câmara. Pressionado, o presidente fez ontem uma aparição de surpresa na sala de imprensa da Casa Branca, logo após a posse de Pelosi.

Ele cumprimentou a líder democrata por sua eleição como líder, mas usou a maior parte do tempo para defender a construção do muro na fronteira com o México.

“Chamem de barreira, chamem do que quiserem. Os muros funcionam. Se vocês conversarem com os agentes de patrulha das fronteiras, eles dizem que os muros funcionam”, afirmou Trump, que discursou cercado de agentes de imigração, que corroboraram a versão do presidente. 

Nesta quinta-feira, pelo Twitter, Trump voltou a culpar os democratas pela paralisação do governo americano. “Os democratas sabem que não podem ganhar (a eleição de 2020) em razão de todas conquistas de Trump”, escreveu o presidente.

No plenário da Câmara dos Deputados, o perfil diferente dos eleitos em cada um dos lados era notório. De um lado, os republicanos, que passaram a ser minoria, eram basicamente homens brancos – com gravatas em tons de vermelho, a cor do partido. Do outro lado, os democratas, com mais de um quarto de representantes mulheres e maior participação de jovens. 

A diversidade era visível: dos vestidos coloridos ao hijab, o véu islâmico na cabeça, usada pela primeira deputada muçulmana da Casa, Ilhan Omar. A mais jovem deputada americana, Alexandria Ocasio-Cortez, de 29 anos, eleita pelo Estado de Nova York, atraiu as atenções da imprensa.

Democrata, mulher e latina, ela tem encampado as bandeiras mais progressistas do partido e liderado a aura de diversidade da nova legislatura. Também tomaram posse ontem, a primeira mulher negra eleita pelo Estado de Massachusetts e a primeira mulher indígena abertamente gay.

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