Frederic J. BROWN / AFP
Joe Biden, ex-vice-presidente dos Estados Unidos  Frederic J. BROWN / AFP

Democratas decidem que Biden, por mais arriscado que seja, é a melhor aposta

Em três dias Joe Biden mudou de fracasso eleitoral para possível força imbatível no Partido Democrata

Matt Flegenheimer / The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 16h44

A cena poderia não ter surpreendido há um ano: Joe Biden  elogiado pelos democratas como um homem decente e afável e companheiro da figura mais popular do partido, Barack Obama  – acumulando vitórias nas primárias e tendo prazer em falar sobre isto. “Eles não chamam de Superterça por nada”, disse ele a seus apoiadores em Los Angeles, listando os Estados onde venceu para um público entusiasmado erguendo os punhos em sinal de vitória.

Mas há uma semana o resultado seria quase impensável. Impelido por uma unidade intempestiva entre os democratas de centro-esquerda não afeitos a uma revolução política como a proposta por Bernie Sanders, em três dias Biden disparou, e de fracasso eleitoral surgiu como uma possível força imbatível. Ele demonstrou ter uma grande força entre negros e emergiu junto aos eleitores táticos que não apreciam muito Bernie Sanders e temem que sua indicação signifique mais quatro anos de governo Trump.

O desempenho de Biden incluiu vitórias decisivas em todo o Sul, uma vitória no Texas e triunfos em alguns lugares onde ele nem mesmo fez campanha à medida que a Superterça se aproximava, como Minnesota e Massachusetts, distrito eleitoral da senadora Elizabeth Warren. Essa demonstração de vigor deixou claro que a primária agora limitou a disputa a dois homens, Biden e Sanders, e que o primeiro encontro de Michael Bloomberg com os eleitores nacionais rendeu um retorno magro para um investimento financeiro colossal. 

Apesar de todos os tropeços de Biden – em Iowa, New Hampshire, nos debates, em seus próprios comícios – talvez tudo o que os eleitores precisavam era ouvi-lo proferir um discurso de vitória. E foi o que ocorreu no sábado na Carolina do Sul, onde pareceu que, temporariamente, ele conseguiu apagar uma preocupação latente que perdurou durante quase um ano quanto às probabilidades da sua candidatura.

Mas qualquer sugestão de que ele é uma opção sem riscos contradiz as evidências disponíveis. Ele não se mostra mais seguro diante de um microfone nem mais propenso a completar uma ideia sem exageros ou digressões confusas.

Como um homem de 77 anos, orgulhosamente obstinado, ele não adquiriu novos poderes de persuasão ou gestão nas 72 horas desde a primeira vitória estadual das suas três campanhas presidenciais. Na verdade, Biden desperdiçou suas chances anteriormente – como candidato do establishment e a última esperança dos moderados. Transformou suas vantagens iniciais em 2020 em doações decepcionantes, uma organização de campanha débil e um mau desempenho espantoso nas primárias iniciais.

Mas quando o mais importante prevaleceu, o julgamento veio rápido dos democratas avessos a Sanders. Ok, ficamos com ele. Os eleitores temerosos de Sanders provavelmente estão certos no sentido que Biden é a maneira mais simples de manter o democrata socialista longe da eleição. Eles podem estar certos de que Biden constitui o mais forte adversário contra Trump. O ex-vice-presidente é bastante admirado no partido pela maneira elegante com que enfrentou o luto na família e serviu o país ao lado de Barack Obama.

Certamente Trump parece ter suas preferências. No ano passado ele sofreu um processo de impeachment depois de buscar ajuda da Ucrânia para prejudicar Biden. Nas últimas semana, pelo Twitter, ele fez elogios maliciosos a Sanders, parecendo ansioso para tê-lo como possível oponente.

Mas e se Trump estiver errado? E se cada autoridade eleita que se apressar para endossar a candidatura de Biden, depois de resistirem por um longo tempo, estiver errada também? A história recente de eleições no país, especialmente a de Trump, tem sido rude com relação ao senso comum.

Há algumas semanas apenas, alguns aliados de Biden especularam discretamente sobre como ele conseguiria encerrar sua campanha com dignidade. Agarrando-se muito à Carolina do Sul, e se retirando, como estadista, no caso de a Superterça Feira dar errado.

A mudança na sorte de Biden diz mais sobre o contexto desta primária do que o conteúdo da sua campanha. Seus concorrentes, incluindo Elizabeth Warren, o ex-prefeito Pete Buttigieg e a senadora Amy Klobuchar, todos tiveram dificuldade para se conectar com eleitores negros e latinos. Bloomberg fracassou no palco de debate quando saiu de trás da cortina de propaganda. E muitos no partido continuaram intranquilos com o tipo de esquerdismo pregado por Sanders. 

Ainda assim é possível que os Estados que votaram na terça-feira continuem competitivos, à medida que sejam apurados os votos na Califórnia. Sanders continua muito popular em boa parte da legenda, mesmo que muitos não o considerem sua primeira opção.

Uma disputa Biden-Sanders é o cenário lógico para um debate ideológico mais importante do partido sobre o escopo e a ambição do governo – se Trump é um sintoma dos males antigos da nação ou uma “anomalia”, como Biden sugeriu e cuja remoção deve ser a principal prioridade do partido.

Os dois concorrentes são produtos da mesma era, moldados por forças diferentes dentro dela. Sanders se tornou um político de esquerda guiado por uma missão, fascinado por governos socialistas e comunistas no exterior e a luta pela classe trabalhadora em seu país. Biden preferiu um enfoque mais dentro do sistema, tornando-se senador aos 29 anos e admitindo sua distância dos instintos ativistas de muitos contemporâneos. “Visto casacos esportivos”, disse ele a jornalistas ao explicar seu envolvimento limitado no fervor antiguerra. “Não fiz parte disso”.

Esse comentário foi feito quando Biden tentou a indicação democrata para disputar a presidência em 1988. Sanders concorreu a uma vaga no Senado naquele ano. Ambos perderam. E ambos tentaram novamente.

Por mais de duas décadas os dois atuaram em Washington, reunindo um histórico de votações e projetos que, desde então, com frequência, os manteve separados. Sanders disse que lamenta ter votado a favor de algumas leis sobre armas. Biden enfrentou duras críticas, incluindo de Sanders, por seu voto autorizando o uso da força militar no Iraque, entre outras decisões.

O currículo de ambos convenceu alguns estrategistas de que os dois candidatos são vulneráveis. Mas suas campanhas não veem as coisas dessa maneira. “Sempre achei que essa disputa seria entre dois titãs, Bernie e Biden”, disse Ro Khanna, congressista da Califórnia e que trabalha na campanha de Sanders. “Estranho que não seja a percepção comum”.

No ano passado, resultados alternativos eram difíceis de se imaginar. Havia candidatos de perfis bem diferentes, incluindo uma meia dúzia só de Estados da Superterça e inúmeras caras novas como a senadora Kamala Harrris e o ex-deputado Beto O’Rourke.

Sanders, com frequência, era descartado como um candidato de facção e uma repetição de 2016 mesmo antes do infarto que sofreu no ano passado. Biden era retratado como um concorrente apagado fora de compasso com os dias atuais. “Você não pode retornar ao fim do governo Obama e achar que isso é bom”, afirmou O’Rourke em junho passado, dizendo que Biden era uma volta ao passado. “Acho que Biden está decaindo”, continuou Tim Ryan, congressista de Ohio, que na época se candidatou à nomeação democrata. “Não acho que ele tem energia. E você vê isto diariamente”.

Os dois homens agora endossaram a campanha de Biden. Outros rivais que desistiram no caminho, como Buttigieg e Klobuchar, fizeram o mesmo. Sanders tem uma teoria sobre tudo isto. “Há um esforço maciço para tentar parar Bernie Sanders. Isso não é segredo para ninguém neste salão”, pontuou ele a jornalistas na segunda-feira. “Então por que eu me surpreenderia com os políticos do establishment se unindo?”. 

Naturalmente, política tem a ver com opções e os democratas repentinamente têm poucas, mesmo que alguns candidatos remanescentes tenham surgido e estão sendo negligenciados.

Tanto Warren como Bloomberg de fato admitiram que o seu único caminho para a indicação do partido é uma convenção neste verão. O que não conteve nenhum dos dois de perseverar até agora. Na Califórnia, na segunda-feira, Elizabeth Warren afirmou que “não importa quantos insiders em Washington digam para você apoiar Biden, “indicar o amigo deles não vai atender a este momento”.

Bloomberg, mostrando-se cansado na terça-feira com perguntas se a sua candidatura estaria ajudando Sanders, colocou a questão ao inverso: “Por que eles não se unem em torno do meu nome?”, questionou, referindo-se aos moderados durante uma parada na Flórida. No fim do dia, ele teve a resposta. Eles se decidiram a favor de outro candidato. / Tradução de Terezinha Martino

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Michael Bloomberg abandona campanha presidencial e decide apoiar Biden

Ex-prefeito de Nova York amargou resultado pífio na Superterça após investimentos de US$ 500 milhões

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 12h21
Atualizado 04 de março de 2020 | 17h47

WASHINGTON - O bilionário Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, decidiu abandonar a disputa para a presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata. A decisão foi anunciada nesta quarta-feira, 4, um dia após o péssimo resultado na Superterça, quando votaram delegados de 14 Estados e ele não venceu em nenhum. 

Bloomberg decidiu apoiar o ex-vice-presidente Joe Biden, que obteve vitórias em nove Estados e agora lidera a corrida democrata. O resultado deixou claro que Biden é o único candidato capaz de disputar em igualdade de condições com o senador Bernie Sanders, que empolgou no início da campanha obtendo bons resultados mas é visto com ressalvas pela parte moderada dos democratas. 

A disputa pela nomeação democrata foi transformada com a Superterça. Antes, era uma competição entre muitos candidatos sem nenhuma alternativa clara a Sanders e, agora, consolidou Biden como o rival mais forte. No final de semana, o ex-prefeito de South Bend Pete Buttigieg e a senadora Amy Klobuchar, de Minnesota, abandonaram a disputa e anunciaram apoio a Biden. 

Bloomberg, que é a nona pessoa mais rica do mundo, sugeriu recentemente estar disposto disposto a gastar US$ 1 bilhão para ajudar o futuro candidato democrata a derrotar o bilionário presidente Donald Trump em seu projeto de reeleição, em novembro. Ele tem funcionários da campanha na Flórida, Carolina do Norte, Michigan, Pensilvânia, Wisconsin e Arizona, regiões que podem ser decisivas na reta final. 

Donald Trump, um desafeto histórico de Bloomberg, ironizou a decisão do democrata. "Eu poderia ter dito a ele há muito tempo que ele não tinha o que era preciso (para ser presidente), e ele teria economizado um bilhão de dólares, o custo real. Agora ele investirá dinheiro na campanha de Sleepy Joe (Joe sonolento, forma pejorativa de tratar Joe Biden), esperando salvar a cara. Não vai dar certo!", escreveu em seu Twitter. 

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Superterça deu um impulso para Biden e um desafio para Sanders

Ex-vice-presidente americano ganhou força na disputa e agora enfrenta senador Bernie Sanders de igual para igual

Dan Balz / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 11h37

WASHINGTON - A campanha democrata para a presidência dos Estados Unidos teve mais um fato inesperado na noite da Superterça. A candidatura do ex-vice-presidente Joe Biden foi alavancada, ganhou força nacional e agora é um desafio para o senador Bernie Sanders, que estava melhor até o momento e precisará mostrar capacidade de ampliar sua base de apoio. 

A disputa democrata foi transformada quase da noite para o dia de uma competição entre muitos candidatos sem nenhuma alternativa clara a Sanders em uma batalha de igual para igual. De um lado, um candidato apoiado pelo establishment político defendendo mudanças modestas, civilidade e alegando maior elegibilidade contra o presidente Donald Trump. Do outro, um populista com sua pregação sobre socialismo democrático. 

Há poucas mercadorias mais valiosas em campanhas políticas do que o "momentum" e, agora, Biden é abençoado com isso em abundância pela primeira vez. Os resultados mostraram que a sorte está contra Sanders. Em Vermont, onde ele ganhou mais de 85% dos votos em 2016 na corrida democrata, ele estava próximo de 50%. No Colorado, onde ganhou com 60%, tinha menos de 40%. 

Dias atrás, muitos pensavam que Sanders poderia ganhar em Minnesota, mas o Estado ficou com Biden após a senadora Amy Klobuchar abandonar a disputa. Biden também venceu Massachusetts, onde se pensava que Sanders ou Elizabeth Warren poderiam ganhar. 

Warren e Michael Bloomberg continuam na disputa, mas com cada vez menos chances. Bloomberg gastou cerca de meio bilhão de dólares em um plano para deixar sua marca na Superterça. Além de uma vitória na Samoa Americana, ele ia mal em todos os lugares. Esse desempenho levantou questões sobre por quanto tempo ele pode sustentar sua candidatura.

Warren esperava conquistar Massachusetts e conseguir delegados em outros lugares, mas também teve dificuldades. A senadora prometeu continuar sua campanha até a convenção. 

Levará algum tempo para saber exatamente como os delegados serão distribuídos nos 14 Estados que votaram, especialmente na Califórnia, que tem 415 delegados. Mas, com base no que estava acontecendo versus o que era esperado, a Superterça foi a noite de Biden. E os números finais dos delegados certamente refletirão as mudanças nas circunstâncias. 

Próximas semanas

Em um futuro próximo, nada indica que o calendário vai facilitar a vida de Sanders. A primária na próxima semana será em Michigan, onde ele teve uma grande virada quatro anos atrás contra Clinton, embora sua margem de vitória tenha sido estreita.

Também no calendário da próxima semana está o Missouri, região em que Sanders perdeu por menos de um ponto percentual e onde os delegados se dividiram quase uniformemente. O Missouri será outro teste do apoio de Biden e Sanders entre os afro-americanos, que representam cerca de um quinto do eleitorado democrata local. 

Já a rodada de primárias de 17 de março inclui Arizona, Flórida, Illinois e Ohio. Sanders perdeu na Flórida para Clinton e enfrentará séria de novo resistência. Também perdeu o Arizona, Ohio e Illinois. Uma semana depois, em 24 de março, é a vez da Geórgia, onde Biden também é favorito. 

 

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Análise: Vitória na Carolina do Norte reforça tese de que Biden tem mais chance contra Trump

Considerado estado-pêndulo, que pode votar tanto em um democrata quanto em um republicano, Carolina do Norte é capaz de decidir a eleição nos EUA

Beatriz Bulla, Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 14h19

A lembrança da eleição de 2016 é viva demais para esquecer que o voto popular não é o que importa nos Estados Unidos na disputa presidencial. Hillary Clinton teve 3 milhões de votos a mais do que Donald Trump, mas o Partido Democrata perdeu no xadrez do colégio eleitoral.

Os Estados-pêndulo são o que realmente muda o resultado da corrida de republicanos e democratas e, nesta Superterça, um deles estava em jogo. Dos 14 Estados em questão na terça, a Carolina do Norte é o que pode votar tanto por Trump como por um democrata em novembro.

Há outros que devem entrar em disputa num eventual redesenho do mapa eleitoral, mas isso depende da força e tática de cada campanha. No caso da Carolina do Norte, o título de swing state é incontestável.

É neste Estado em que a vitória acachapante de Joe Biden na Superterça ganha o ar de nomeação. O establishment do partido democrata já vinha demonstrando preocupação com o crescimento da candidatura do senador independente.

A hipótese é de que ele não tem vez contra Trump em novembro - o que soava como uma justificativa para que os superdelegados entrassem em cena na convenção de julho para nomear Biden, ainda que Sanders viesse a ter a maior parte dos eleitores consigo.

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As pesquisas nacionais põe em xeque a presunção democrata, ao mostrar o senador com chance de ganhar do republicano que hoje ocupa a Casa Branca. Mas o teste de Biden no swing state da vez alimenta dentro do partido a tese de que ele é o nome mais competitivo para a eleição deste ano.

Diante da clara reação partidária - que culminou com a coordenação entre Pete Buttegieg e Amy Klobuchar de endosso a Biden -, Sanders precisaria de uma onda muito favorável na Super Terça para chegar com distância tal na convenção que fosse constrangedor para o partido escolher outro nome. Não foi o que aconteceu. 

Levar a Carolina do Norte seria simbólico, onde o senador ganharia o argumento de que é capaz de energizar os eleitores em um Estado que votou em Trump. O Estado vinha votando em republicanos desde Ronald Reagan até que chegou a candidatura de Obama. Em 2008, a Carolina do Norte votou azul, mas não repetiu o resultado em 2012 e, em 2016, elegeu Trump com 49% dos votos.

A perspectiva de Sanders levar o Estado parecia difícil nas pesquisas, mas não impossível: o vice-presidente tinha uma margem bastante apertada de vantagem sobre o senador. Mas na noite de ontem Biden ganhou 19 pontos a mais do que Sanders no swing state.

Em quantidade de delegados, a Califórnia é o grande prêmio das prévias, de fato. Mas os californianos já são garantidamente democratas e não está ali o termômetro da eleição presidencial.

A tese de que é preciso construir uma candidatura de centro para ter força em novembro já chegou no eleitorado. Janice Brunson é de Maryland, na Virgínia, mas mudou no início de fevereiro para Charlotte, na Carolina do Norte. Marcou o nome de Joe Biden na cédula de votação nesta terça, apesar de dizer que tem muito mais afinidade com as propostas de Sanders.

"Bernie Sanders não é tolerado no meio-oeste do país. Biden é o que tem mais chances de vencer Trump", disse. O centro-oeste americano concentra Estados rurais, como Iowa, e parte do chamado Cinturão da Ferrugem, onde está o operariado de renda familiar e escolaridade mais baixos do que a média nacional dos EUA. Foram esses eleitores que deram a Trump a vitória em 2016 ao colaborarem para a mudança no mosaico do Colégio Eleitoral.

Minnesota é um dos Estados que integra o meio-oeste. Desde que chegou à Casa Branca, Trump vem dizendo que fará ali um campo de batalha para tornar o Estado vermelho em 2020. Sanders liderava as pesquisas, mas ontem os eleitores de Minnesota deram a vitória a Biden - em um movimento favorecido pelo apoio de Klobuchar, senadora pelo Estado, ao ex-vice-presidente. Mais um empurrãozinho à tese dos caciques do partido democrata.

Nesta linha de pensamento, Bernie Sanders tem a seu favor a vitória conquistada ontem no Colorado - fora a predileção ao seu nome frente ao de Biden em Iowa, há um mês. Apesar de não ser um Estado pêndulo e ter votado por democratas desde Obama, o Colorado é acompanhado com lupa por analistas.

Segundo o  professor da Universidade George Washington e presidente do instituto de pesquisa Idea Big Data, Maurício Moura, o Colorado tem avaliação de Trump mais positiva do que negativa e a campanha do presidente tem muita presença no local. É possível, portanto, ver o Colorado votar vermelho em novembro.

Mas, como em Minnesota, a virada no Colorado é uma dúvida, enquanto a briga na Carolina do Norte é uma certeza.  A ver o que outros swing states terão a dizer até a convenção de julho, começando por Michigan, que faz suas prévias na semana que vem. Por ora, o establishment do partido democrata parece ter encontrado na Carolina do Norte um elemento que faltava para colocar a campanha de Biden no trilho para a nomeação.

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Como americanos estão vendo as eleições no país

País vai às urnas em novembro para escolher entre a reeleição de Donald Trump e um rival do Partido Democrata, ainda a ser definido

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 13h06

O Partido Democrata deu a largada nas eleições americanas para decidir quem vai disputar com Donald Trump a Casa Branca em novembro. 50 Estados americanos, cinco territórios e o Distrito de Columbia fazem prévias de fevereiro a julho.

Nelas, os eleitores decidem quem vai tentar desbancar em seu projeto de reeleição. No início, eram 28 os candidatos, uma lista que diminui semana após semana. Já saíram da disputa nomes como o bilionário Michael Bloomberg e a senadora Amy Klobuchar. 

Entenda o processo eleitoral dos Estados Unidos na reportagem abaixo, feita por Beatriz Bulla, correspondente do Estado emWashington. 

 

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Em duelo com Biden, Sanders conquista jovens com promessa de anistiar dívidas

Empréstimo para bancar faculdade faz americanos falarem em ‘pior decisão da vida’ e ver solução em promessa do senador; débitos estudantis são estimados em R$ 7,2 trilhões

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 05h00

Barry Dixon tem 30 anos, graduação e especialização em marketing. Como um a cada três jovens americanos nessa faixa etária, ele possui uma dívida estudantil que não sabe quando pagará. “Eles nos ensinam que, se tirarmos boas notas, teremos trabalho. Mas não dizem que você se forma com US$ 120 mil de dívida e precisa começar a ganhar dinheiro imediatamente”, disse. 

Dixon vive em Charlotte, na Carolina do Norte, e carrega a dívida desde 2013. Começar a carreira como iniciante não era suficiente para pagar as contas – e o empréstimo estudantil, o que o levou a adotar uma alternativa: é motorista de Uber nas horas vagas com dois pequenos caminhões de entregas. Não era isso o que imaginava como profissional quando entrou na faculdade. Agora, ele é um dos jovens que vê no senador Bernie Sanders a solução. 

No duelo com Joe Biden para ser o candidato presidencial do Partido Democrata, o senador é adorado pelo eleitorado jovem, enquanto o ex-vice-presidente carrega os votos de eleitores acima de 55 anos. A diferença notada nas pesquisas é visualmente perceptível nos comícios de cada um.

Sanders não foi o primeiro a sugerir o cancelamento da dívida estudantil. A senadora Elizabeth Warren, que fez carreira como professora de direito antes de chegar ao Senado, propôs no ano passado uma fórmula para anistiar até US$ 50 mil da dívida de estudantes, dependendo da renda. A ideia beneficiaria 95% dos endividados na faculdade. Sanders apresentou uma proposta sobre o tema depois, mas foi além: quer cancelar toda a dívida de todos os estudantes. 

Na manhã da Superterça, J. Nicole Potts foi ao porão da igreja batista da Hoskins Avenue, em Charlotte, para votar em Sanders. Nicole vestia um moletom da Belmont Abbey College, mas o orgulho da faculdade que cursou acaba aí. “Foi o pior erro da minha vida”, diz. Ela tem 48 anos e uma filha de 31, a qual criou sozinha. As duas foram contemporâneas na universidade e hoje ela tem uma dívida de US$ 80 mil para quitar. 

“Eu não consigo um trabalho que pague o que preciso para quitar esse empréstimo estudantil”, afirma. Nem ela nem a filha seguiram carreira no setor escolhido na faculdade. “Pagam US$ 90 a hora para uma função que exige mestrado. Como fazer? Ter diploma não basta.” Nicole dá a Warren o crédito pela ideia de acabar com a dívida dos estudantes, mas acha que é Sanders que será o candidato mais competitivo contra Donald Trump. 

O crescente problema da dívida estudantil tem obrigado os democratas, e mesmo Trump, a pensar em formas de resolver o problema. Cerca de 45 milhões de americanos têm dívida estudantil, que chega a US$ 1,6 trilhão (R$ 7,2 trilhões). A maioria (70%) dos estudantes recorre a empréstimos para bancar os estudos universitários, mas não consegue pagar depois com o acúmulo dos juros.

“Estou cansado de votar apenas porque tenho direito de votar. Eu quero saber o que vou conseguir com o meu voto e, por isso, votaria no Bernie, porque ele é o candidato que promete resolver as dívidas estudantis”, afirma Dixon. 

Se o candidato democrata for qualquer outro, que não o senador, Dixon não pretende votar em novembro. No entanto, o apoio dos estudantes não poupa Sanders de ser alvo de críticas pelo plano, o mais custoso de todos os candidatos. 

A taxa para estudar em universidades americanas varia de acordo com a instituição de ensino e com o curso. Na Belmont Abbey College, faculdade católica da Carolina do Norte, a graduação custa US$ 32 mil por ano. Um mestrado em instituições de ensino de elite, como Harvard, passa de US$ 50 mil por ano.

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