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Greg Baker/AFP
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Desafios energéticos para as metas de China, Japão e Coreia; leia a análise 

Discurso ma cúpula foi de fortalecimento de parcerias e cooperação, incluindo com os EUA, mas nota-se a rivalidade também pela liderança nas discussões climáticas globais

Alexandre Uehara* , O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

A Cúpula dos Líderes sobre o Clima marcou a volta dos EUA a um papel de protagonismo nas discussões mundiais sobre o tema, após um período de afastamento promovido pelo ex-presidente Donald Trump. Foi também um movimento em direção às discussões que serão realizadas na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP26) em novembro em Glasgow.

Líderes de 40 países discursaram sobre a cooperação global para enfrentar a crise climática, entre eles alguns representantes de países asiáticos, que são economicamente importantes e estão também entre os maiores poluidores da atmosfera. De acordo os dados do relatório da Agência Internacional de Energia, em 2018 a China ocupa o primeiro lugar no mundo, representando 28% do total das emissões globais de gases, a Índia (7%) é a terceira, atrás dos EUA (15%), o Japão (3%) o quinto maior e a Coreia Sul (2%) o oitavo. Esses países asiáticos juntos somam cerca de 40% das emissões mundiais, mas neste artigo o foco será sobre os três países do nordeste asiático, China, Coreia do Sul e Japão.

No caso da China, apesar da tensa reunião ocorrida no Alasca há poucas semanas entre representantes do governo de Pequim e Washington, o presidente Xi Jinping marcou presença no evento do presidente Biden. O discurso foi de fortalecimento de parcerias e cooperação, incluindo com os EUA, mas nota-se a rivalidade também pela liderança nas discussões climáticas globais. O presidente chinês afirmou que o pico das emissões ocorrerá até 2030, depois disso haverá reduções das emissões que serão zeradas em 2060. 

Porém, o calcanhar de Aquiles da China é a dependência energética do carvão que abastece, por exemplo, as usinas elétricas e as siderúrgicas nesse país. Quanto maior o crescimento econômico, maior a demanda por aço e energia, consequentemente, maior será a queima de carvão. Portanto, a manutenção da expansão da economia e o cumprimento das metas anunciadas exigirá necessariamente a adoção de fontes sustentáveis de energia.

O presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, apresentou o objetivo de se tornar neutra em emissões de carbono até 2050 e reduzir em 24,4% as emissões de gás carbônico em relação ao nível de 2017 até 2030. Mas, a Coreia é o país membro da OECD com menor participação de recursos renováveis para produção de energia elétrica, cerca de 5%. 

Apesar disso, o presidente sul-coreano apresentou como meta a eliminação do carvão como fonte de energia no país até 2030. Além disso, afirmou que interromperá o financiamento de projetos no exterior que envolvam energia à carvão. A superação da dependência energética do carvão é um desafio, dado que a economia coreana é a quarta maior importadora de carvão do mundo -- atrás apenas da China, Índia e Japão.

O primeiro-ministro Yoshihide Suga ressaltou a disposição japonesa para assumir uma liderança internacional na descarbonização mundial, mas também declarou a necessidade de abordagens multilaterais à solução do problema das mudanças climáticas. Para o Japão, especificamente, apresentou o compromisso de zerar as emissões de gases de efeito estufa até 2050 e, revelou a elevação da meta de redução nas emissões de gases de efeito estufa para 46% até o ano fiscal de 2030 em relação aos níveis de 2013. Esse valor representou uma resposta às críticas da meta anterior de redução que era de 26% para o mesmo período e que era considerado muito tímido.

Um dos problemas para o Japão cumprir a meta está relacionado ao tríplice desastre ocorrido em Fukushima em 2011, que envolveu o terremoto, o tsunami e a explosão dos reatores nucleares. Por causa desses acontecimentos, há uma lenta retomada da energia nuclear e o país manteve sua matriz energética sustentada no carvão, que é um elemento mais poluidor. Uma política anunciada para tentar contornar essa situação é a iniciativa do governo para criar um ciclo virtuoso entre a economia e o meio ambiente, induzindo o investimento de empresas para maximização do uso de fontes de energia descarbonizadas e de energias renováveis.

Como se pode observar, para cada país há obstáculos a serem superados para o cumprimento das metas, e não só para os países mencionados neste artigo. Ao longo do evento outros líderes apresentaram suas metas, alguns mais ousados outros menos. Mas, algo comum a todos é que os objetivos não serão realizáveis sem real compromisso das partes. Por isso, apesar de ser positiva a realização do evento ao mostrar novamente a importância o tema para o mundo, há a necessidade de que as sociedades em cada país continuem acompanhando e cobrando resultados concretos dos governos, incluindo a do Brasil.

*É COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS E NEGÓCIOS ASIÁTICOS DA ESPM

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