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Díaz-Canel, o primeiro a presidir Cuba após 59 anos de Castros no poder

Novo presidente liderará a “alternância de geração” prometida por Raúl, em uma sucessão arquitetada para garantir a sobrevivência do sistema socialista cubano

O Estado de S.Paulo

18 Abril 2018 | 21h34

HAVANA - Miguel Díaz-Canel, de 57 anos, entrará nesta quinta-feira, 19, nos livros de história como o primeiro presidente a governar Cuba na era do pós-castrismo. Discreto, afável e cordial são os adjetivos que costumam acompanhá-lo. Falta dizer se ele será um líder reformista ou apenas dará continuidade ao retrógrado sistema político castrista. Será um Deng Xiaoping, que impulsionou a China ao século 21, ou um Mikhail Gorbachev, cujas reformas não decolaram?

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Único candidato a se apresentar para suceder a Raúl Castro na presidência do país nesta quarta-feira, 18, na Assembleia Nacional de Cuba, Díaz-Canel foi aprovado com louvor pelos 605 deputados, eleitos em março. A Assembleia também escolheu outros cinco vice-presidentes, um secretário e os 23 membros do Conselho de Estado. Todos devem tomar posse nesta quinta-feira, 19. Díaz-Canel poderá governar no máximo por dois mandatos, dez anos, segundo limite imposto por Raúl. 

Díaz-Canel não é “um novato nem é um nome improvisado”, como o próprio Raúl fez questão de ressaltar. O primeiro presidente de Cuba sem o sobrenome Castro em 59 anos vai liderar a “alternância de geração” prometida por Raúl, em uma sucessão meticulosamente arquitetada e com o objetivo de garantir a sobrevivência do sistema socialista cubano.

Mesmo sem pertencer à geração que lutou em Sierra Maestra, Díaz-Canel foi educado na ortodoxia comunista e conheceu o socialismo próspero patrocinado pela União Soviética. 

Descendente de imigrantes espanhóis, ele nasceu em Placetas, na Província de Villa Clara. Depois de completar o serviço militar obrigatório, se formou em engenharia na Universidade de Las Villas, onde depois virou professor. Na juventude, foi quase um hippie: cabelos compridos, amava os Beatles e os Rolling Stones. Ma,s em 1987, se converteu em dirigente da União de Jovens Comunistas e deu seu primeiro passo na burocracia castrista.

Nessa época, Díaz-Canel demonstrou um fervor ideológico pelo socialismo, com especial apreço por caminhadas nas plantações e nas zonas rurais em um trabalho de doutrinação. Ele foi enviado à Nicarágua, em uma missão que reunia militares, médicos e outros profissionais cubanos que ajudaram na revolução sandinista. 

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De volta a Cuba, em 1993, Díaz-Canel virou secretário do Partido Comunista em Villa Clara. Se destacou entre os jovens líderes cubanos no período especialmente difícil vivido por Cuba após o fim da União Soviética. “Ele exerceu uma liderança bastante rara para a época. Andava de bicicleta e usava bermudas”, disse à BBC Arturo López Levy, cientista político da Universidade do Texas e ex-colega de Díaz-Canel. “Em uma época de escassez, ele construiu uma imagem de modéstia, de proximidade com as pessoas. Foi uma jogada política muito inteligente.”

Apesar da fama de dirigente aberto e humilde, Díaz-Canel também ficou conhecido como um político linha-dura com comportamentos não permitidos pelo Partido Comunista. Ele exerceu uma perseguição implacável ao mercado paralelo e ao comércio de produtos que não são vendidos legalmente.

Visita de Fidel. Quando Fidel Castro visitou a Província de Villa Clara, em 2001, teria ficado impressionado com o jovem político, que conseguiu mobilizar uma grande quantidade de pessoas em poucas horas. Em 2003, ao mesmo tempo em que ele aceitou dirigir a Província de Holguín, Raúl Castro promoveu sua candidatura ao comitê central do Partido Comunista. Ali, criou-se uma relação de mestre e discípulo entre o presidente e seu sucessor.

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Raúl Castro só chamou Díaz-Canel a Havana em 2009, quando lhe confiou o Ministério da Educação. No cargo, ele demonstrou especial interesse pelas condições da estrutura da universidade e fez reformas para intensificar o “trabalho político-ideológico”. 

Em 2012, Raúl o nomeou vice-presidente do Conselho de Ministros. Em 2013, quando formou seu último governo, ele concedeu a Díaz-Canel o cargo de vice-presidente do Conselho de Estado e fez um discurso em que o apontou como sucessor. 

Ao contrário de outras promessas do castrismo, como Carlos Lage, Roberto Robaina e Felipe Pérez-Roque, dirigentes defenestrados inesperadamente pelos irmãos Castro por tomarem atitudes consideradas “desleais’, Díaz-Canel soube avançar silenciosamente e se mostrou leal a Raúl, evitando impor uma agenda própria e sem emitir opiniões.

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“Para chegar aonde ele chegou sem ser defenestrado, a condição número um é não sair do roteiro, e ele foi muito eficaz nisso”, disse ao jornal El País Nora Gámez Torres, especialista em Cuba. “Sabemos muito pouco sobre como ele pensa, mas é evidente em seus atos que ele nunca se desvia da linha do partido”. 

Díaz-Canel sempre usou uma retórica continuísta: louva a geração histórica que forjou a revolução. Glorifica Fidel e Raúl e é crítico contumaz dos “subversivos que trabalham contra o progresso socialista”. A faceta que cultiva é a do dirigente concentrado nas reformas do sistema: mais mercado, mas sem pluralidade de partidos. Por isso, seus constantes elogios à China e ao Vietnã, países que abriram a economia com rígido controle político. 

Em razão de seu perfil discreto e silencioso, saber como será seu governo é uma incógnita até para os mais experiente em Cuba. “Haverá uma mudança de pessoas, mas acredito que a estrutura do país e do partido vão continuar as mesmas”, afirmou o escritor Leonardo Padura. “Reformas devem acontecer, mas se fala de continuidade mais do que se fala de evolução ou de ruptura.” / NYT, W.POST, EFE, REUTERS e AFP

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