Shealah Craighead/White House via AP
Shealah Craighead/White House via AP

Donald Trump confirma morte de líder do Estado Islâmico

Presidente americano diz que Baghdadi se matou ao detonar um colete de explosivos durante uma operação de forças especiais americanas; mais cedo, pelo Twitter, Trump já havia dito que 'algo muito grande acaba de acontecer'

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 03h58
Atualizado 27 de outubro de 2019 | 20h54

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em um raro pronunciamento na TV na manhã deste domingo, 27, que o líder do grupo jihadista Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi , morreu durante uma operação militar americana na região nordeste da Síria neste fim de semana.  Trump descreveu a operação "como um filme".

O presidente reivindicou a morte do líder terrorista ao mesmo tempo em que os EUA retiram suas tropas dessa mesma região na Síria, onde davam apoio às forças curdas que vinham combatendo o Estado Islâmico. "Na noite passada, os EUA levaram o terrorista número um do mundo à Justiça", disse Trump no pronunciamento feito da Casa Branca. "Abu Bakr al-Baghdadi está morto."

Em seu pronunciamento, Trump afirmou que Baghdadi  detonou um colete com explosivos, matando ele e três filhos, após agentes especiais americanos encurralarem-no em um túnel sem saída na Província de Idlib, na Síria, um território fortemente militarizado e controlado por múltiplas nações e forças. 

"Ele era um homem doente e depravado e agora ele se foi", disse Trump. "Ele morreu como um cachorro, como um covarde."

"Seu corpo ficou mutilado pela explosão. O túnel ainda desabou sobre ele. Mas os resultados de testes deram certeza imediata e identificação totalmente positiva. Era ele". 

"O bandido que tentou tanto intimidar outros passou seus últimos momentos com medo absoluto, totalmente em pânico e desesperado, aterrorizado pelas forças americanas que lhe atacavam", ressaltou Trump, acrescentando que nenhum oficial americano morreu durante a ação e 11 crianças foram retiradas do local. 

A informação já havia sido divulgada pelos canais CNN e ABC, citando altos funcionários do governo como fontes. No Twitter, na madrugada, Trump anunciou, sem dar mais detalhes, que "alguma coisa muito grande" havia acabado de acontecer. Pela manhã, ele agradeceu à Rússia, Turquia, Síria e Iraque por seu apoio na operação. 

 

A morte de Al-Baghdadi é um marco na luta contra o Estado Islâmico, que brutalizou regiões da Síria e do Iraque e tentou conduzir uma campanha global terrorista de seu autoproclamado "califado". Nos últimos anos, uma campanha envolvendo americanos, russos e forças aliadas levou à recuperação de territórios que estavam sob o poder do grupo, mas sua ideologia violenta continuou a inspirar ataques pelo mundo.

A operação marca também um sucesso significativo em política externa para o presidente, que enfrenta os menores índices de aprovação ao seu governo e um procedimento de impeachment no Congresso. Trump também foi muito criticado, incluindo por republicanos, por tirar as tropas americanas no nordeste da Síria, onde combatiam o EI ao lado das forças curdas. A medida permitiu uma incursão da Turquia contra as forças curdas. Trump disse ontem que sua decisão de retirar tropas não teve nada a ver com a operação. 

Mais tarde, ao falar com jornalistas por 45 minutos, Trump explicou que a operação foi planejada por duas semanas após os EUA conseguirem obter dados de inteligência sobre a localização de Al-Baghadi. Helicópteros militares voaram sobre territórios controlados por forças russas - com autorização prévia de Moscou - e sírias e pousaram no local, onde foram recebidos com muitos tiros.

A Casa Branca divulgou uma foto de Trump cercado por altos funcionários de segurança e defesa, além do vice, Mike Pence, na Sala de Crise, monitorando a operação contra Al-Baghadi, muito semelhante à imagem do ex-presidente Barack Obama assistindo à operação que resultou na morte do líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, em 2011. De acordo com o New York Times, Trump chegou a sugerir que matar Al-Baghdade foi maior do que matar Bin Laden. 

Na avaliação do Times, Al-Baghdadi nunca ocupou o mesmo espaço que Bin Laden na psiquê americana, mas provou ser um perigoso inimigo dos EUA e seus aliados no Oriente Médio. O conselheiro de Segurança Nacional de Trump, Robert O'Brien informou que os restos mortais de Al-Baghdadi serão tratados de acordo com a lei islâmica e sepultdos no mar, assim como foi feito com o corpo ex-líder da Al-Qaeda. 

A descoberta da localização de Al-Baghdadi foi possível após a prisão e interrogatório de uma das mulheres de Al-Baghadi e de um mensageiro nos últimos meses, segundo duas fontes do governo americano. A localização surpreendeu aos americanos porque o terrorista irquiano estava escondido em uma parte do nordeste da Síria controlada por grupos ligados à Al-Qaeda, arqui-inimiga do Estado Islâmico.

Congresso não foi informado

A presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, pediu que a Casa Branca notifique oficialmente aos congressistas sobre a morte de Al-Baghdadi, ressaltando que Trump preferiu informar primeiro aos russos sobre ela do que à liderança política no Congresso. 

Trump disse que não avisou o Congresso sobre a operação porque queria ter certeza de que a operação "seria mantida em segredo". Presidentes americanos normalmente seguem um protocolo de comunicar aos líderes do Congresso, independentemente de seus partidos, quando uma operação militar de alto nível será conduzida. 

Quem é Baghdadi

Não existem registros públicos de Baghdadi desde uma transmissão em áudio em novembro de 2016, após o início da ofensiva iraquiana para retomar Mosul. Na gravação, ele pediu que seus homens lutassem até que se tornassem mártires. Mosul foi onde o líder do EI fez a única aparição pública conhecida, em julho de 2014, na mesquita de Al Nuri.

Baghdadi, cujo nome verdadeiro é Ibrahim Awad al Badri, supostamente nasceu em 1971 em uma família pobre na região de Bagdá. Apaixonado pelo futebol, ele falhou na tentativa de ser advogado e depois militar, e começou a estudar teologia. Durante a invasão americana do Iraque, em 2003, ele criou um grupo jihadista sem muito impacto, antes de ser preso e encarcerado na gigantesca prisão de Bucca.

Liberado por falta de provas, ele se juntou a um grupo de guerrilheiros sunitas ligados à Al-Qaeda. Aproveitando o caos da guerra civil, seus combatentes se estabeleceram na Síria em 2013 e de lá lançaram uma ofensiva no Iraque.

O grupo, que ficou conhecido pelo nome Estado Islâmico, ocupou o lugar da Al Qaeda. Os sucessos militares iniciais e a propaganda eficaz levaram milhares de pessoas a se alistarem em suas fileiras. / Com informações da AFP

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