EFE/EPA/ABEDIN TAHERKENAREH
EFE/EPA/ABEDIN TAHERKENAREH

'É um momento de fraqueza para Khamenei', diz analista iraniano

Para Mohamed Marandi, professor da Universidade de Teerã, os protestos podem ter repercussões mais profundas sobre regime dos aiatolás

Entrevista com

Mohammad Marandi, professor de Estudos Ocidentais e Orientalismo da Universidade de Teerã

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2020 | 17h00

Após dias negando sua responsabilidade no acidente envolvendo um Boeing 737 ucraniano com 176 pessoas a bordo, o governo do Irã admitiu, no fim de semana, que a queda da aeronave foi causada por falha humana. A admissão de culpa foi vista como positiva por potências estrangeiras, mas provocou uma onda de protestos contra o regime teocrático do Irã. Para Mohamed Marandi, professor da Universidade de Teerã, os protestos podem ter repercussões mais profundas sobre os aitolás, “porque há alguns anos a população está irritada com o regime iraniano, por causa das dificuldades econômicas do país”.

“Mas é preciso ficar claro que ao mesmo tempo em que estão com raiva de Khamenei, os iranianos também odeiam os EUA e a presença americana no Oriente Médio”, diz Marandi nesta entrevista ao Estado

Por que os protestos se intensificaram agora?

Porque há alguns anos a população está irritada com o regime iraniano, em razão das dificuldades econômicas do país. Por causa do caldeirão social formado pela economia em frangalhos e uma juventude sem emprego e sem perspectiva, o acidente pode ter repercussões muito mais profundas.

Dias antes da tragédia, o Irã demonstrou grande unidade e apoio popular, quando milhões de pessoas encheram as ruas para participar de cortejos fúnebres em homenagem a Suleimani. As manifestações pareciam indicar que, diante de ameaças militares externas, iranianos de diferentes grupos econômicos e políticos têm a capacidade de se unir e deixar as diferenças de lado.

Mas a queda do avião e os efeitos da morte de dezenas de iranianos por um erro militar podem levar ao ressurgimento dessas divisões, tornando-as ainda mais profundas. A grave situação econômica do país é um fardo para a maioria dos iranianos. Há dez anos, quando a economia ia bem, o regime não via tanta resistência em suas múltiplas frentes de apoio no Oriente Médio.

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Agora, a situação é diferente. Muitos entendem que o governo desperdiçou a chance que teve com o acordo nuclear de impulsionar a economia. Em novembro, o aumento no preço dos combustíveis provocou grandes manifestações que resultaram em confrontos com órgãos de segurança e a morte de pelo menos 300 pessoas. 

As novas sanções econômicas impostas pelos EUA podem piorar a crise?

Não há mais nada para os americanos sancionarem. Isso é propaganda. Eles sancionaram tudo o que podiam sancionar antes do ano passado. Todas as novas sanções são apenas uma repetição das antigas sanções. Não há nada de novo nelas. As sanções dos EUA prejudicaram a economia iraniana. Mas agora, depois de um ano e meio, a economia iraniana começa a crescer novamente. E essa guerra econômica desumana que os americanos impuseram às mulheres e crianças iranianas não terá êxito.

O Irã ainda tem muitos aliados, a China e a Rússia, principalmente. E o Irã ainda está cumprindo a parte mais importante do acordo nuclear, o acesso da Agência Internacional de Energia Atômica ao programa nuclear do Irã. Portanto, o que a China pode fazer é ignorar os EUA, não se curvar à pressão americana e continuar importando petróleo do Irã, para que os EUA saibam que não podem intimidar um país independente. 

Quais os riscos destes protestos para o regime do Irã?

Se tivesse de dar um palpite, diria que os protestos serão absorvidos pela teocracia iraniana e não chegarão nem perto da última onda de manifestações, em 2009, depois de uma eleição contestada, quando 72 pessoas morreram. Mas o governo terá de aprender a lidar com a insatisfação popular por um longo período, ainda mais em função da severa crise econômica.

 

É um momento de fraqueza para (aiatolá Ali) Khamenei, que não apenas perdeu seu principal estrategista, mas pela oportunidade dada aos opositores do regime de atacar sua credibilidade. A onda de vigílias e manifestações, que começou nas universidades e chegou às ruas, além do clima de luto pela morte de iranianos, serão determinantes para medir a unidade e a intensidade desses pedidos pela saída do aiatolá.

Mas é preciso ficar claro que, ao mesmo tempo em que estão com raiva de Khamenei, os iranianos também odeiam os EUA e a presença americana no Oriente Médio. E a imposição de novas sanções econômicas contra uma economia já em frangalhos só vai fazer este sentimento piorar.

 

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