Herika Martinez / AFP
Herika Martinez / AFP

EUA começam a enviar ao México solicitantes de refúgio do Brasil presos na fronteira

Eles aguardam em território mexicano julgamento de pedidos de asilo; advogados e ativistas em Ciudad Juárez relatam famílias desorientadas, que não falam espanhol e vulneráveis a sequestros e ação de gangues

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2020 | 16h16
Atualizado 13 de fevereiro de 2020 | 10h50

WASHINGTON - Os  Estados Unidos começaram a enviar para o México imigrantes brasileiros detidos na fronteira. A medida faz parte do esforço do governo americano para diminuir o número de pedidos de asilo. Segundo determinação do presidente Donald Trump, quem for preso tentando entrar ilegalmente nos EUA pode requerer o status de asilado, mas deverá aguardar a tramitação do pedido no México.

Deportar alguém sem visto de entrada não é novidade, mas até então os imigrantes eram enviados para seus países de origem. Desde o ano passado, no entanto, o governo americano firmou um acordo batizado de Protocolo de Proteção aos Migrantes (MPP, na sigla em inglês), que repassa para o México o ônus de cuidar dos imigrantes até que o pedido de asilo seja julgado nos EUA.

Mas a lista de países passíveis de deportação é limitada. O México não concordou em receber imigrantes africanos, indianos ou asiáticos. Os deportados são latino-americanos, a grande maioria de Guatemala, El Salvador e Honduras. E, agora, do Brasil.

Ken Cuccinelli, secretário de Segurança Interna, comemorou a inclusão de brasileiros. “No aniversário de um ano do MPP, os primeiros brasileiros já foram mandados para o México para aguardar suas audiências. Incluir brasileiros (no programa) é um grande feito”, escreveu Cuccinelli no Twitter. “Obrigado, México!”

Antes, os brasileiros detidos aguardavam o processo de deportação nos EUA e recebiam uma notificação com data para comparecer ao juizado de imigração – e eram liberados em território americano. Os imigrantes que haviam finalizado o processo eram deportados em voos fretados para o Brasil – como na semana passada, quando 70 brasileiros viajaram de El Paso para Belo Horizonte

Agora, a situação é mais grave. Taylor Levy, advogado de El Paso, especialista em imigração, tuitou na quarta-feira sobre a chegada de muitos brasileiros a Ciudad Juárez, uma das cidades mais violentas do mundo. “Meus colegas em Juárez relatam a chegada de brasileiros pela primeira vez”, escreveu. “Eles estão mais vulneráveis a sequestros porque não falam espanhol e não há advogados que falem português.”

Trabalho para pagar coiotes

“Não explicaram nada. Não sabemos o que estamos fazendo aqui”, disse Tânia Costa da Silva, de 32 anos, enviada para o México com seu marido, Jones Silva de Brito, de 35, e a filha Isabella, de 6. Todos vieram de Minas Gerais e cruzaram a fronteira em El Paso. Detidos, relatam dias de frio e fome. “A cela para 14 pessoas tinha 32. Todos dormindo no chão”, contou Brito. 

Segundo o governo americano, o MPP impede que imigrantes consigam trabalho nos EUA, com os quais eles pagam os coiotes (traficantes), e evita que os ilegais se escondam em grandes cidades. O fluxo migratório, de acordo com a Casa Branca, inunda o mercado de trabalho, achatando salários e aumentando os aluguéis. 

Mais de 55 mil requerentes de asilo foram enviados para o México no ano passado, o que diminuiu o número de entradas ilegais para 30 mil. O Departamento de Segurança Interna diz que 1.634 brasileiros foram presos na fronteira mexicana, em 2018, número que subiu para 5 mil, no ano passado. 

“Estamos falando de um grande número de pessoas sendo deportadas, mas não para seus países de origem”, disse Geoff Thale, vice-presidente do centro de estudos Washington Office on Latin America. “É difícil imaginar como esses terceiros países absorverão tantas pessoas e se eles estarão em segurança nesses lugares”.

Thale diz que os imigrantes geralmente tentam entrar nos EUA em busca de algum parente. “Se eles forem mandados para o México, podem acabar sendo vítimas de gangues, que sabem que normalmente parentes nos EUA lhes enviam dinheiro”, afirmou.

Críticos dizem que a política de deportação de Trump viola a lei americana – e o futuro do programa deve ser decidido nos tribunais. A União Americana de Liberdades Civis (ACLU) já entrou com um processo para derrubar a prática. “Praticamente todos os detidos na fronteira viajam por um terceiro país. Esta regra acaba com o asilo nos EUA”, diz Lee Gelernt, vice-diretor da ACLU. / AFP

 

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