Ronen Zvulun / Reuters
Judias rezam com traje que ortodoxos reservam a homens Ronen Zvulun / Reuters

Feminismo em Israel: A luta das mulheres para orar em voz alta

Israelenses aceitam separação física no Muro das Lamentações, mas rejeitam silêncio

Cristiano Dias, enviado especial a Jerusalém, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2019 | 21h00

JERUSALÉM - Na manhã de sexta-feira, 8 de março, centenas de mulheres foram ao Muro das Lamentações, em Jerusalém. A data era especial. Elas celebravam o Rosh Chodesh, primeiro dia do mês no calendário hebraico, que coincidia com o Dia Internacional da Mulher e os 30 anos da fundação do grupo Mulheres do Muro, um movimento feminista religioso que luta pelo direito das mulheres de rezarem no local mais sagrado do judaísmo usando lenços e lendo a Torá em voz alta.

A confusão começou antes de qualquer oração. Adolescentes religiosas chegaram cedo, em ônibus fretados por rabinos, e ocuparam o pequeno cercadinho do Muro das Lamentações designado para isolar as mulheres. Do lado masculino, judeus ultraortodoxos, debruçados na mureta que divide os dois mundos, xingavam, cuspiam e ameaçavam as mulheres que ousavam rezar em voz alta. A polícia teve trabalho. Houve empurra-empurra e bate-boca, principalmente no lado masculino, entre ultraortodoxos e judeus moderados, incluindo líderes de grupos reformistas que foram apoiar as Mulheres do Muro. 

“A polícia não atua. Ela sempre diz que nós provocamos e somos culpadas”, disse ao Estado Tammy Gottlieb, de 30 anos, que faz parte da direção das Mulheres do Muro. “Nós não queremos rezar no mesmo espaço que os homens. Queremos apenas que nós, as mulheres, tenhamos o direito de rezar em voz alta. A lei está do nosso lado, mas isso não impede que as agressões sejam constantes.” 

Em 2013, a Justiça deu ganho de causa às Mulheres do Muro, afirmando que orações em voz alta não perturbam a ordem pública. Para Gottlieb, o conflito tem relação com o caráter religioso do Estado de Israel e o excessivo poder dado aos religiosos. “Em geral, as sociedades estão ficando cada vez mais liberais. Isso deixa em pânico os ultraortodoxos. Eles têm medo da mudança, de perder o poder. Por isso, eles estão cada vez mais intolerantes.”

A ativista Anat Hoffman, diretora e fundadora do grupo, também criticou os ultraortodoxos e sugeriu razões políticas para o tumulto. “A maioria dos ônibus veio de assentamentos na Cisjordânia. Eles chegaram lotados 15 minutos antes de nossa celebração começar. Eu fico me perguntando quem se beneficiaria com essa demonstração de força a um mês da eleição”, disse Hoffman, em referência à votação da semana passada, vencida pelo primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, com apoio dos conservadores religiosos.

No dia seguinte ao quiproquó no lugar sagrado, o Haaretz, jornal israelense de tendência progressista, acusou o governo do premiê de usar o Muro das Lamentações como ferramenta política. “Netanyahu deu a si mesmo o poder de decidir quem é mais e quem é menos judeu, se apropriando da religião e agindo como se fosse o Vaticano do judaísmo”, escreveu o jornal, em editorial. “Netanyahu age como o papa dos judeus.”

O Muro das Lamentações é parte sensível da vida judaica – é o único vestígio do Segundo Templo de Jerusalém, destruído pelos romanos, no ano 70 d.C. Além das orações, muitos fiéis depositam desejos escritos em bilhetes enfiados entre as pedras. Antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967, o lugar era administrado pela Jordânia, que não permitia o acesso de judeus.

No terceiro dia da guerra, paraquedistas israelenses ocuparam a Cidade Velha de Jerusalém. “O Monte do Templo está em nossas mãos. Repito. O Monte do Templo está em nossas mãos”, anunciou Shlomo Goren, rabino-chefe do Exército. Yitzhak Rabin, então comandante das Forças Armadas, descreveu a chegada de seus soldados ao lugar como o episódio mais emocionante da Guerra dos Seis Dias

Por um breve período, os judeus, homens e mulheres, puderam rezar juntos, sem restrições, no Muro das Lamentações. Mas logo o local passou a ser controlado pelos ultraortodoxos, que impuseram a separação. “Com o tempo, muitos líderes conservadores de Israel se esqueceram que democracia não é apenas o governo da maioria”, disse Hanna Herzog, socióloga da Universidade de Tel-Aviv. “É preciso haver equilíbrio e também respeito aos direitos das minorias.”

Boa parte dos israelenses se vê como ocidental. “A única democracia do Oriente Médio”, dizem. Israel tem universidades de ponta, alto investimento em pesquisa e tecnologia. Diferentemente dos vizinhos árabes, a base do sistema político é um dinâmico parlamentarismo multipartidário, com eleições livres e um Judiciário independente.

Em Israel, porém, não há separação clara entre Estado e religião, não há Constituição escrita ou casamento civil. O monopólio de temas religiosos é exercido pelos judeus ultraortodoxos. Por isso, muitos sociólogos, como Sammy Smooha, da Universidade de Haifa, classificam o regime como “híbrido semiocidental”. 

Segundo Dahlia Scheindlin, analista do Instituto Israelense de Política Externa Regional, a hierarquia de gênero foi ampliada pelas duas instituições que regem o cotidiano de Israel, a religião e os militares, ambos dominados pelos homens. “Em uma sociedade obcecada pelo militarismo, o homem é rei”, disse. “Como os homens dominam o ambiente militar e religioso, eles se vangloriam do ar de autoridade, especialmente os mais velhos.” 

Para entender: A força da tradição

Segundo a tradição ultraortodoxa, mulheres não devem realizar atos religiosos. Os dois partidos mais radicais, o Shas e o Judaísmo da Torá Unida, não têm candidatas – alguns defendem inclusive que elas não deveriam votar. As mulheres também são encorajadas a não dirigir. Nos últimos anos, porém, as ultraortodoxas vêm ocupando mais espaço no mercado de trabalho para que os homens se dediquem mais aos estudos religiosos.

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O longo caminho do feminismo em Israel

Para israelenses, Guerra do Yom Kippur deixou à mostra a desigualdade de gênero no país

Cristiano Dias, enviado especial a Jerusalém, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2019 | 05h00

JERUSALÉM - A Guerra do Yom Kippur, de 1973, deixou marcas profundas em Israel. Parte da culpa pelo desempenho ruim dos militares, no início do conflito, caiu nos ombros da premiê Golda Meir, até hoje a única mulher a comandar o país. Para as israelenses, a guerra também deixou à mostra a desigualdade de gênero

Na 2.ª Guerra, o alistamento masculino abriu espaço para as mulheres ocuparem o mercado de trabalho. A Guerra do Yom Kippur, que durou algumas semanas, não teve o mesmo efeito. Quando os reservistas começaram a se apresentar nas frentes de batalha, a vida civil estancou. Fábricas, empresas, escritórios e escolas fecharam. O transporte público parou, porque as mulheres não dirigiam ônibus. Sem os homens, a economia israelense quase entrou em colapso. 

“A Guerra do Yom Kippur criou uma consciência sobre o que significava para as mulheres a divisão de papéis e qual era o seu lugar na sociedade”, disse Dahlia Scheindlin, analista do Instituto Israelense de Política Externa Regional. De acordo com ela, o Exército de Israel foi a primeira instituição a reagir à disparidade. “A aceitação de mulheres nas Forças Armadas, no entanto, sempre teve mais a ver com a necessidade de compensar a escassez de mão de obra do que a promoção da igualdade de gênero.”

Nas eleições da semana passada, 29 mulheres foram eleitas para o Parlamento de Israel – 24% do total de deputados, uma queda com relação aos 27% da legislatura anterior. O número é maior do que os 15% de representação parlamentar feminina no Brasil, igual ao índice nos EUA, mas bem menor do que o registrado em países da Europa Ocidental, que têm entre 30% e 40% de mulheres no Parlamento.

A última líder a ocupar uma posição importante no governo israelense foi a ex-chanceler Tzipi Livni. Em fevereiro, no entanto, ela anunciou a aposentadoria da vida política depois de constatar a perda total de influência de seu partido, o Hatnuah, que nem sequer participou das eleições. 

Dos 15 partidos que concorreram a vagas no Parlamento, apenas dois eram liderados exclusivamente por mulheres: Tamar Zandberg, do Meretz, teve 3,3% dos votos, elegendo quatro deputados, e Orly Levy-Abekasis, do Gesher, ficou em último lugar, com 1,75% dos votos e não conseguiu emplacar nenhum deputado.

Para Scheindlin, a última campanha eleitoral de Israel foi dominada pela imagem de machão criada pelos dois principais concorrentes, o general Benny Gantz e o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. “Neste sentido, as eleições foram um retrocesso para as mulheres”, afirmou. A socióloga Hanna Herzog, da Universidade de Tel-Aviv, acredita que o novo populismo, que vem se espalhando por várias partes do mundo, combina mais com candidatos homens. “A política se tornou uma questão de força e de poder, muito mais que de valores”, afirmou.

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