Ludovic MARIN / AFP
Ludovic MARIN / AFP

França: balé nas ruas para manter a História

Bailarinos e cantores da Ópera de Paris são alguns dos afetados por mudança na previdência

James McAuley, Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2019 | 18h00

Imortalizados nas telas de Edgar Degas e nos romances de Victor Hugo, bailarinos e cantores de ópera ocupam uma posição valorizada na imaginação francesa. Agora eles estão abandonando o palco pela rua, para protestar contra as mudanças na aposentadoria.

O presidente Emmanuel Macron quer reformar o sistema bizantino de aposentadoria da França. Em resposta, os sindicatos da França lançaram greves paralisantes. Na região de Paris, lar de cerca de 12 milhões de pessoas, a maior parte do metrô foi fechada e poucos trens de alta velocidade circulam.

Também foram canceladas apresentações de balé e óperas - tanto na Opéra Garnier, quanto na Opéra Bastille, estrutura dos anos 1980. Durante uma manifestação no dia 17, os degraus da Bastilha se tornaram um palco, local de uma sofisticada versão da La Marseillaise, hino nacional francês, executado por importantes cantores de ópera e acompanhado por metais e percussão.

As reclamações dos maquinistas e dos condutores de metrô, alguns dos quais prestes a se aposentar já aos 52 anos, dominaram o debate nacional. Mas os dançarinos e cantores da Ópera de Paris, companhia nacional de balé e ópera da França, estão entre os manifestantes mais comprometidos, prometendo defender um sistema especial de aposentadoria que, de uma forma ou de outra, existe desde o final do século 17, a era de Louis XIV.

Devido ao árduo trabalho físico envolvido em seu trabalho, os cantores e bailarinos podem se aposentar aos 42 anos, quando recebem uma pensão básica de cerca de US$ 1.190 (€ 1.067), que podem complementar com outros empregos.

O governo de Macron planeja acabar com esse regime especial e histórico na esperança de padronizar todas as políticas de aposentadoria. 

“É um trabalho muito atlético”, disse Alex Carniato, 41 anos, dançarino de balé e representante sindical na Ópera de Paris, que deve se aposentar no próximo ano. “Na França, como em qualquer outro lugar, amamos o futebol. E se você dissesse que um grande jogador ainda estaria jogando aos 40 anos, todo mundo riria.”

Um dia típico no trabalho, ele disse, pode se prolongar por até 11 horas, incluindo treinamento rigoroso com sessões separadas para exercícios abdominais e levantamento de peso. Na faixa dos 40 anos, Carniato disse, há muitos riscos. 

Ao prosseguir com a reforma, o governo pode encerrar uma parte da história, pois o sistema de aposentadoria da Ópera de Paris - que teve origem em 1698 - representa um programa de bem-estar social que antecede o estado de bem-estar social. 

O estado francês fornece US$ 111 milhões (cerca de € 100 milhões) para a Ópera de Paris a cada ano, o que equivale a cerca de metade do orçamento da ópera. Embora esse apoio não mostre sinais de declínio, cantores e bailarinos se preocupam com a maneira como suas novas pensões serão calculadas. Um benefício do sistema é garantir que artistas e músicos talentosos, especialmente os mais jovens, ainda estejam dispostos a ingressar na ópera. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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