AP Photo/Fernando Vergara
AP Photo/Fernando Vergara

Imigrantes venezuelanos levam os sabores da arepa para novos territórios

Em busca de oportunidades de negócio e de formas para diminuir a saudade de seu país, muitos venezuelanos encontraram um caminho cozinhando e vendendo esse prato típico do país, muitas vezes adaptados aos sabores locais

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2019 | 15h20

BOGOTÁ - Os venezuelanos gostam de brincar que suas adoradas arepas são tão populares que os bebês saem do ventre de suas mães com estes pães de farinha de milho já em suas mãos. Agora que milhões de pessoas estão fugindo da crise em seu país, eles levam consigo seu prato mais onipresente.

Na capital da Colômbia e em cidades ao redor do mundo estão surgindo de humildes barracas de rua a restaurantes no modelo mais tradicional que servem arepas.

Muitos encontraram nessas massas de farinha de milho uma maneira ideal de ganhar a vida em um país estrangeiro. Outros mudam os recheios tradicionais para sabores locais, em um aceno para seus países adotivos.

"Para nós, a arepa representa a Venezuela", disse Alejandra Castro, que abriu um negócio desta comida na capital argentina, Buenos Aires. "Nossa cultura, nosso alimento do dia a dia. O que mais sentimos falta e o que mais desejamos é um arepa."

O auge das arepas a nível internacional coincide com uma queda do consumo do produto em seu país de origem, afetado por uma grave crise financeira que já resultou em um êxodo de mais de 4 milhões de pessoas.

Em todo o mundo, os migrantes levaram suas tradições culinárias como uma espécie de antídoto para a nostalgia. Os cubanos que fugiram da revolução de Fidel Castro na década de 1960 cozinhavam clássicos como Ropa Vieja e Picadillo em seus apartamentos em Little Havana, em Miami.

Em alguns casos, as receitas tradicionais se mantém melhor no exterior do que no próprio país de origem. No entanto, o mais comum é que os migrantes misturem os sabores do país que deixaram para trás com o que agora chamam de lar. 

Imigrantes chineses e japoneses modificaram de forma crucial a culinária peruana, criando um híbrido delicado com influências incas e europeias que ganhou elogios em todo o mundo. A influência de imigrantes libaneses que prepararam shawarma no México levou à criação de tacos "al pastor", com carne de porco assada.

Muitas vezes, os migrantes são obrigados a fazer concessões entre o sabor da receita original e a necessidade de ganhar a vida e oferecer mais sabores locais, diz Jeffrey Pilcher, professor de história da Universidade de Toronto.

"Então as pessoas fazem todo tipo de adaptações para equilibrar esses dois desejos um tanto contraditórios", explicou.

Agora, os venezuelanos em Bogotá servem arepas com sabores colombianos, como o chorizo local e feijão vermelho. Em Lima, as massas são recheadas com lomo saltado, uma carne marinada e refogada típica do Peru. E na Argentina, uma empresa adiciona um toque de molho chimichurri.

Edgar Rodríguez se tornou um dos primeiros embaixadores desse alimento quando chegou à Espanha há uma década e abriu um restaurante de arepas. Agora tem vários produtos de fusão no menu, que incluem ingredientes básicos espanhóis, como jamón serrano. "Como se diz na Venezuela, a arepa aguenta de tudo (como recheio)", disse ele.

A história da arepa começa antes da chegada dos colonizadores espanhóis, quando os índios da Colômbia e da Venezuela moíam o milho branco até formar massas redondas e as assavam em pratos de barro. Hoje, as arepas colombianas são relativamente largas e planas, enquanto que as venezuelanos são menores, mais grossas e recheadas de forma semelhante ao pão pita. Nos dois países, eles são uma peça fundamental da dieta.

Quando a Venezuela era um dos países mais prósperos da América Latina, ricos e pobres comiam duas ou três arepas por dia. Na década de 1990, a produção de milho branco no país chegou a 800 mil toneladas por ano, disse Carlos Paparoni, parlamentar da oposição que documenta a crise agrária no país.

Mas no ano passado, a produção caiu para 140 mil toneladas, afirmou Paparoni.

A Empresas Polar, maior conglomerado privado de alimentos da Venezuela, informou em seu último relatório financeiro que recebeu cerca de metade do milho bruto necessário para manter os níveis de produção de sua farinha de milho de primeira qualidade.

O governo fornece caixas de comida subsidiada, que agora inclui farinha de milho mexicana como a usada para tortilhas, e que tende a produzir arepas irreconhecíveis. Os venezuelanos, conhecidos por tentar fazer piada diante da crise, compartilham criações nas mídias sociais, às vezes engraçadas, resultantes da farinha mexicana.

Uma mulher tentou fazer tacos com os ingredientes favoritos dos venezuelanos, como feijão preto e banana, e terminou com um prato de tortillas bege com bordas crocantes e uma consistência de borracha. Outra pessoa fez um bolo de aparência estranha

Recentemente, as chamadas caixas CLAP para os pobres na Venezuela chegaram com grãos de milho em vez de farinha, provocando uma onda de indignação. "O regime quer que nós nos sentemos e assistamos a toda essa destruição com pipoca", tuitou de forma irônica uma pessoa que recebeu a caixa.

Os primeiros migrantes que fugiram da escassez na Venezuela tiveram problemas para obter farinha de milho branca em terras distantes, como Espanha e Argentina. Mas atualmente todos os meses eles abrem novos restaurantes de arepas no exterior e recebem paletes de ingredientes venezuelanos, muitas vezes produzido nos Estados Unidos e outros países.

"A tragédia humanitária (venezuelana) causou uma inesperada e até 'saborosa' contrapartida gastronômica", escreveu recentemente a jornalista venezuelana Vanessa Rolfini.

No entanto, nem todos aceitam com bom humor as novas versões das arepas. Jorge Udelman tentou colocar ingredientes mexicanos como a cochinita pibil, um prato de carne de porco assada lentamente nas arepas. Os clientes disseram que gostavam da comida, mas que iam já décadas em outros restaurantes para experimentar sabores tradicionais.

"Não podemos competir com três gerações da família fazendo as mesmas receitas", disse. Agora, Udelman segue apenas receitas tradicionais venezuelanas em seu restaurante de arepas na Cidade do México.

De certa forma, essas experiências refletem os obstáculos que os venezuelanos enfrentam quando tentam se integrar em novas culturas.

"É claro que não há garantia de que a aceitação da comida causará sentimentos positivos nos próprios migrantes", disse Pilcher.

Mas Gerson Briceño tem uma história de sucesso. Na Venezuela, ele dirigiu uma empresa de publicidade, mas fugiu para a Colômbia depois que sua mulher e filha foram sequestradas por um curto período de tempo. 

Primeiro ele abriu um negócio de telefonia celular, mas em dezembro de 2017 abriu um stand de arepas na frente de um shopping center quando sentiu o desejo de prestar homenagem ao seu país. Hoje, o Arepas Café possui oito filiais em Bogotá.

"Sempre senti falta do sabor da comida da nosso país", disse Briceño. Ele disse estar orgulhoso de ver clientes colombianos se tornarem clientes regulares de suas lojas e pedirem clássicos como o recheio conhecido como reina pepiada, com frango, salada e abacate. Ele também criou duas novas arepas cheias de sabores colombianos.

Um é recheada com queijo e salsicha, enquanto a outra inclui a maioria dos ingredientes de uma bandeja de paisa, um prato típico de Medellín que inclui ovo, feijão vermelho, bife, torresmo e banana da terra.

A colombiana Martha Patricia Chaparro e sua filha experimentaram recentemente este último prato e adoraram a criação pouco ortodoxa. "Nunca imaginamos ver uma bandeja de paisa em uma arepa!", comentou Martha. / AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.