Henry Nicholls/Reuters
Henry Nicholls/Reuters

Johnson ameaça convocar eleições antecipadas se sofrer derrota no Parlamento sobre Brexit

Primeiro-ministro britânico havia dito mais cedo confiar na possibilidade de um acordo de separação com Bruxelas; deputados de seu partido ameaçam se unir à oposição para impedir separação de Bruxelas sem acordo

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2019 | 16h30
Atualizado 04 de setembro de 2019 | 12h25

LONDRES - O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, conservador, afirmou nesta segunda-feira, 2, que convocará eleições legislativas antecipadas para o dia 14 de outubro se seu governo sofrer uma derrota no Parlamento sobre o Brexit

Um funcionário do governo britânico anunciou que se os deputados conservadores rebeldes se uniram à oposição para derrotar Johnson em uma votação amanhã, 3, o governo apresentará ao Parlamento no dia seguinte uma moção para pedir eleições antecipadas. 

A decisão anunciada contradiz a declaração de mais cedo de Johson de que não convocaria eleições antecipadas por confiar na possibilidade de um acordo de separação com Bruxelas. "As chances de chegar a um acordo aumentaram", disse Johnson, em comunicado a todo o país depois de uma reunião de urgência de seu gabinete. 

"Mas se há algo que pode nos impedir nessas negociações é a sensação em Bruxelas de que os deputados podem encontrar uma maneira de cancelar o referendo, ou que amanhã os deputados votem com o (oponente) Jeremy Corbyn em favor de outro adiamento sem significado", explicou.

Johnson também ameaçou excluir os deputados conservadores que se aliarem à oposição para impedir uma saída brutal da UE, como vem ameaçando fazer o primeiro-ministro.

Carismático e polêmico, Johnson chegou ao poder no fim de julho, em substituição a Theresa May, e assegurou que vai retirar o país da UE em 31 de outubro, com ou sem acordo. 

Na semana passada, ele anunciou a suspensão do Parlamento entre a segunda semana de setembro e 14 de outubro, oficialmente para permitir que o novo Executivo apresente seu programa de política nacional, mas que seus detratores denunciam como uma manobra para impedir qualquer ação contra um Brexit brutal.

A decisão desencadeou uma onda de indignação e protestos em massa em todo o país durante o fim de semana sob o lema "Parem o golpe de Estado". 

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A Câmara dos Comuns retorna do recesso de verão na terça-feira e vários deputados conservadores declararam-se dispostos a votar com a oposição para aprovar uma lei urgente obrigando o Executivo a solicitar um novo adiamento se não houver acordo no fim de outubro.

"Primeiro-ministro adverte aos deputados rebeldes: apoiem-me ou estarão fora" - esta é a manchete do Daily Telegraph nesta segunda-feira, enquanto o jornal The Guardian afirma que "Johnson está disposto a sacrificar sua maioria" expulsando os rebeldes de seu grupo parlamentar.

O governo tem uma maioria parlamentar de apenas um deputado - contando com os 10 do partido unionista norte-irlandês DUP -, então a ameaça alimentou especulações sobre a iminência de eleições legislativas antecipadas.

"Francamente, não parece haver um grande esforço para convencer (os rebeldes) a apoiar o governo nesta semana. Acho que estão preparados para uma rebelião e expurgo", comentou à rádio BBC o ex-ministro da Justiça David Gauke, um dos conservadores que se opõe a um Brexit sem acordo.

Premiê ameaça expulsar rebeldes do partido

Os tories - como são conhecidos os conservadores - que votarem contra o governo, como ele mesmo e vários de seus ministros fizeram este ano contra Theresa May, não vão poder disputar novas eleições, alertou Johnson.

De acordo com uma nova pesquisa do YouGov, realizada após a decisão de suspender o Parlamento, 62% dos eleitores classificaram Johnson como "determinado", 23 pontos a mais que no mês anterior - bem acima dos 5% de May- e 40% como "competente", um aumento de 11 pontos.

Quanto às intenções de voto, os conservadores têm 33% contra 22% para os trabalhistas, 21% para os liberais-democratas e 12% para o Partido do Brexit.

Preparando-se para a sessão parlamentar de terça-feira, o líder do Partido Trabalhista - a principal formação de oposição - Jeremy Corbyn reuniu seus colaboradores mais próximos nesta segunda-feira em Salford, no noroeste da Inglaterra.

"Trabalharemos com outras partes para fazer todo o necessário para afastar nosso país do precipício", deve afirmar, segundo um trecho de seu discurso divulgado previamente. 

Entre as medidas possíveis, os trabalhistas consideram entrar com uma moção de censura contra o governo Johnson, embora a ideia pareça estagnada porque os outros partidos da oposição não confiam em Corbyn para liderar um governo interino. 

Tática prevê retirar do governo controle da agenda parlamentar

Provavelmente, a já apelidada "aliança rebelde" recorrerá a um procedimento técnico chamado "Standing Order 24" para retirar do governo o controle da agenda parlamentar e tentar votar uma lei que exija um novo adiamento do Brexit, inicialmente programado para março este ano e estendido duas vezes. 

O trabalhista Hillary Benn antecipou hoje o projeto de lei que os parlamentares tentarão apresentar amanhã. No entanto, antes é preciso que o presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, ponha em votação uma moção que abre o caminho para a oposição assumir o controle da agenda parlamentar.

A lei tenta impor ao governo um prazo de 19 de outubro para fechar um acordo com a UE. A data coincide com o fim da próxima cúpula de líderes do bloco, que começará dois dias antes. Se até lá não houver pacto ou a aprovação de um Brexit duro, o projeto exige que o primeiro-ministro envie a Bruxelas pedindo um adiamento da saída em três meses.

Não é garantido que a iniciativa receberá o apoio necessário, mas o ministro Michel Gove já sugeriu que, mesmo que aprovem tal lei, o governo pode não cumpri-la. 

Enquanto isso, Johnson acelerou os contatos com Bruxelas em uma renegociação do acordo assinado por May. "Não estou otimista sobre a possibilidade de evitar um Brexit sem acordo", escreveu no domingo o negociador-chefe europeu, Michel Barnier, em um artigo publicado no Sunday Telegraph./EFE e AFP 

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