Wael Hamzeh/EFE
Explosão atingiu área portuária da capital libanesa, mas causou destruição em várias partes da cidade  Wael Hamzeh/EFE

Líbano declara estado de emergência de duas semanas após explosão

Acidente que matou 135 pessoas, deixou 5 mil feridos e ao menos 300 mil desabrigados teria sido causado por negligência; justiça determinou prisão domiciliar de autoridades portuárias

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 13h11
Atualizado 05 de agosto de 2020 | 20h36

BEIRUTE - O governo do Líbano decretou estado de emergência nacional de duas semanas a partir desta quarta-feira, 5, um dia depois de explosões no porto da capital, Beirute, deixarem ao menos 113 mortos, mais de 5 mil feridos e 300 mil desabrigados.

A medida foi tomada em reunião do gabinete presidencial. "Não há palavras para descrever o horror da catástrofe que ocorreu ontem", disse o presidente libanês, Michel Aoun, durante o encontro, conforme a Agência de Notícias do Líbano.

"Eu estendo meu coração e sentimentos para as famílias.. E peço a Deus que cure os feridos, cure os corações partidos e forneça toda a energia e determinação para permanecermos juntos para enfrentar as queimaduras dolorosas que deixaram sua marca sobre Beirute", disse, citado pela agência.

Autoridades também concordaram em colocar todos os funcionários do porto de Beirute que supervisionavam o armazenamento e a segurança desde 2014 em prisão domiciliar.

Para Entender

Explosão em Beirute: o que se sabe e o que falta saber

Governo diz que curto-circuito causou incêndio e explosão que deixaram 100 mortos e 4 mil feridos

Nesta manhã, o chefe do local disse em entrevista a uma emissora libanesa que havia determinado a retirada das cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amônio que causaram a explosão.

O governo afirmou que um curto-circuito causou incêndio e explosão em um depósito de fogos e em outro onde estavam 2.750 toneladas de nitrato de amônio.

nitrato de amônio é usado em bombas e fertilizantes e estava armazenado em um hangar no porto de Beirute. Segundo a rede televisão árabe Al Jazeera, a análise de registros e documentos públicos mostra que altos funcionários libaneses sabiam havia mais de seis anos que o nitrato de amônio estava armazenado no Hangar 12 do porto de Beirute. E que eles estariam cientes dos perigos que isso representava.

Testemunhas relataram tremor e janelas quebradas em várias partes da capital do Líbano. O violento choque foi sentido até no Chipre, ilha que fica a 240 quilômetros de distância. Embora autoridades tenham descartado a possibilidade de um ataque ou um atentado como causa, o acidente levou pânico a uma cidade traumatizada por anos de violência e guerra civil.

Até US$ 15 bilhões em perdas

O governador de Beirute, Marwan Abboud , disse à emissora de TV Al Hadath que as perdas coletivas após as explosões podem ser de US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões, incluindo prejuízos diretos e indiretos relacionadas a negócios.

Ele alertou ainda que a quantidade de trigo disponível atualmente é limitada, e uma crise pode ocorrer se não houver interferência internacional./AFP e REUTERS

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‘Tragédia agrava crise e tensão política no Líbano’

Para cientista político, consequência imediata é a inoperância do porto, que afetará a cadeia de suprimentos do país

Entrevista com

Hussein Kalout, pesquisador da Universidade Harvard

Paulo Beraldo , O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 04h00

No mesmo dia em que o governo enfrentava protestos nas ruas de Beirute, uma explosão deixou dezenas de mortos e milhares de feridos na capital, agravando ainda mais a tensão em um país que vive dura recessão econômica desde o ano passado. Com a inflação corroendo os salários, a desvalorização da libra libanesa (moeda local) e a pandemia de covid-19 agravando a pobreza, a estimativa é que o PIB caia 12% este ano. 

Na avaliação do cientista político Hussein Kalout, pesquisador da Universidade Harvard, a explosão agrava a tensão política, porque ocorre em um momento de questionamento das lideranças e às vésperas do veredicto do assassinato do ex-premiê Rafiq Hariri. A seguir, trechos da entrevista. 

Após a explosão, surgiu a desconfiança de que pudesse ser um atentado dado o histórico de violência do país. Por que essa conexão?

O Líbano tem uma história trágica. Diversas autoridades importantes foram assassinadas nas últimas décadas, com violência, bombas, explosivos. Já houve atentados contra ex-presidentes, primeiros-ministros, lideranças do Exército. Então, toda vez que ocorre uma explosão de grande magnitude, a tendência é inferir que é um atentado contra alguém importante ou que está relacionado a algum objetivo. 

A explosão ocorreu nas vésperas do veredicto do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, ele mesmo assassinado em um atentado. Há alguma relação? 

Acredito que não há nexo causal de uma coisa com a outra. A decisão do tribunal se arrasta há quase uma década e todo mundo sabe qual vai ser. Estranho seria se quem foi acusado durante dez anos for inocentado. Tudo indica que foi acidental o motivo da explosão. 

O Líbano viveu um dia de protestos em Beirute. Qual o contexto desses atos contra o governo? 

O país está quebrado economicamente. Declarou falência e não tem como pagar as dívidas com as instituições financeiras internacionais. Isso também é parte das restrições econômico-financeiras impostas ao país, que aprofundaram a crise, elevando ainda mais a taxa de desemprego, que já era alta. Há impacto nas cadeias de suprimento, o Líbano é um país que importa praticamente tudo, tem poucos recursos. Então, são muitas as limitações. O novo governo tenta fazer um ajuste econômico, mas por mais que seja feito, implica em reforma do Estado, reforma tributária, corte de salários. Isso não é suficiente se o bloqueio econômico e o estrangulamento financeiro seguirem em curso. 

Que consequências imediatas essa explosão pode trazer? 

O local do acidente, o porto de Beirute, é um ponto importante. É de onde muitos produtos que entram e saem do país são escoados. Em uma situação em que o Líbano está imerso em uma gravíssima crise, ter um porto daquela importância inoperante tende a agravar os contornos da crise e elevar a tensão política. 

 

Há perspectiva de mudança no curto e médio prazos?

O governo tem muito pouco tempo (começou em janeiro). Não dá para tirar um país imerso endemicamente na corrupção assim. A classe política esteve envolvida nos mais variados crimes de caráter financeiro. Não tem como solucionar todo esse funcionamento da dinâmica institucional que está carcomido pela corrupção. É muito difícil em um governo de pouco tempo encontrar soluções. E é preciso lembrar que boa parte dos políticos permanece em posições de força no poder. 

Como estão as investigações contra os políticos acusados de corrupção?

O Judiciário do Líbano não é independente, não há uma efetiva separação dos poderes. O Poder Judiciário obedece à dinâmica de ser fracionado em grupos partidários vinculados a determinadas lideranças. Ele não prima pela transparência. Não há um caso de corrupção em qualquer tribunal em qualquer instância que esteja investigando e operando para condenar quem ao longo de décadas destruiu a economia por meio do desvio de recursos públicos. 

Que peso o sr. atribui às manifestações ocorridas nesta semana contra o governo. Elas podem provocar mudanças? 

Não consigo enxergar no momento mudanças efetivas como resultado dessas manifestações. Primeiro, as demandas são as mais variadas. Alguns querem mudança no formato do processo eleitoral, outros querem a exclusão da classe política inteira, o seu banimento nas próximas eleições. É difícil harmonizar esses pedidos e anular as forças políticas existentes, pois elas têm uma base popular importante, uma representatividade e um reconhecimento. Como efetuar reformas sem elas? Antes da covid-19, a cidade viveu manifestações durante quase um mês e, mesmo assim, isso não alterou o sistema político. Cortaram um privilégio aqui e outro ali, mas não é isso que vai restaurar a economia do país. 

No início também se falou que essa explosão pudesse estar ligada ao Hezbollah, que negou. Qual o peso desse grupo hoje na política libanesa? 

É uma força política como todas as outras, tem uma expressividade grande dentro do país e não tem como tangenciar. Toda vez que você tenta excluir um grupo representativo, imobiliza o sistema político. O próprio governo hoje tenta alterar, fazer mudanças efetivas em vários sentidos e não consegue. Há forças políticas, algumas que não estão no governo, que não querem transformações. A chave é achar um ponto de equilíbrio para trazer todas as frentes a um ponto comum. 

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Explosão em Beirute: de onde veio o nitrato de amônio que destruiu a capital do Líbano

Al Jazeera rastreou o material inflamável e divulgou cartas que mostram que as autoridades sabiam do perigo causado pela carga de nitrato de amônio no porto de Beirute seis anos antes da explosão

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 08h40

BEIRUTE - A explosão de 2.750 toneladas de nitrato de amônio, usado em bombas e fertilizantes, armazenadas em um hangar no porto de Beirute, levou os libaneses a se perguntar o que uma carga altamente inflamável fazia ali.

Segundo a rede televisão do Catar Al-Jazira, a análise de registros e documentos públicos mostra que altos funcionários libaneses sabiam há mais de seis anos que o nitrato de amônio estava armazenado no Hangar 12 do porto de Beirute. E que eles estariam cientes dos perigos que isso representava.

A carga de nitrato de amônio chegou ao Líbano, em setembro de 2013, a bordo de um navio de carga de propriedade russa com uma bandeira da Moldávia. O Rhosus, de acordo com informações do site de rastreamento de navios, Fleetmon, estava indo da Geórgia para Moçambique, afirma a reportagem da Al-Jazira.

O navio foi forçado a atracar em Beirute depois de enfrentar problemas técnicos no mar, segundo advogados representando a tripulação do barco. Mas as autoridades libanesas impediram a embarcação de navegar e o navio foi abandonado por seus proprietários e tripulação - informações parcialmente corroboradas pela Fleetmon.

A carga perigosa do navio foi descarregada e colocada no Hangar 12 do porto de Beirute, uma grande estrutura cinza de frente para a principal rodovia norte-sul do país, na entrada principal da capital.

Meses depois, em 27 de junho de 2014, o então diretor da Alfândega Libanesa Shafik Merhi enviou uma carta endereçada a um "juiz de assuntos urgentes", pedindo uma solução para a carga, segundo documentos compartilhados online e divulgados pela Al-Jazira. 

Os funcionários aduaneiros enviaram pelo menos mais cinco cartas nos três anos seguintes - em 5 de dezembro de 2014, 6 de maio de 2015, 20 de maio de 2016, 13 de outubro de 2016 e 27 de outubro de 2017 - pedindo orientação. Eles propuseram três opções: exportar o nitrato de amônio, entregá-lo ao exército libanês ou vendê-lo à uma empresa libanesa de explosivos de propriedade privada.

Uma carta enviada em 2016 diz que "os juízes não responderam" a pedidos anteriores.

A carta, obtida pela Al-Jazira, alega: "Em vista do sério risco de manter esses produtos no hangar em condições climáticas inadequadas, reafirmamos nosso pedido de solicitar à agência marítima que reexporte esses produtos imediatamente para preservar a segurança do porto e daqueles que trabalham aqui, ou em concordar em vendê-lo para a Lebanese Explosives Company.”

Mais uma vez, não houve resposta. Um ano depois, Badri Daher, o novo diretor da Administração Aduaneira do Líbano, escreveu a um juiz mais uma vez.

Na carta de 27 de outubro de 2017, Daher pediu ao juiz que tomasse uma decisão sobre o assunto em vista do "perigo ... de deixar esses produtos no local em que estão e para aqueles que trabalham lá".

Quase três anos depois, o nitrato de amônio ainda estava no hangar. O primeiro-ministro do Líbano, Hassan Diab, declarou na terça-feira a explosão no porto como "um grande desastre nacional" e prometeu que "todos os responsáveis por essa catástrofe pagarão o preço".

O presidente libanês Michel Aoun chamou o fracasso em lidar com o nitrato de amônio como "inaceitável" e prometeu a "punição mais severa" aos responsáveis. Uma investigação foi iniciada e o comitê deve encaminhar suas conclusões ao judiciário dentro de cinco dias.

A causa da explosão ainda não está clara, mas muitos libaneses foram rápidos em apontar o que eles acreditam ser a causa principal: a imensa corrupção e má administração em um estado quebrado administrado por uma classe política corrupta que, segundo eles, trata os habitantes do país com desprezo.

O porto da cidade é conhecido localmente como "Caverna de Ali Baba e os 40 Ladrões",  pela grande quantidade de fundos estatais que foram roubados por décadas.

As alegações incluem desvios de bilhões de dólares em receita tributária que nunca chegaram ao tesouro do Líbano e devido a esquemas para subestimar as importações, bem como acusações de suborno sistemático e generalizado para evitar o pagamento de impostos alfandegários.

"Beirute se foi e aqueles que governaram o país nas últimas décadas não podem se safar disso", disse Rima Majed, ativista política e socióloga libanesa em um tweet. "Eles são criminosos e este é provavelmente o maior de seus (muitos) crimes até agora".

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Nitrato de amônio: o que é, para que serve e por que pode ser tão explosivo

Altamente inflamável, substância precisa de um 'gatilho' para uma explosão; no caso do Líbano, foram as chamas de um incêndio num depósito vizinho de onde o nitrato de amônio estava armazenado

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 09h12

BEIRUTE - O nitrato de amônio foi apontado pelo governo do Líbano como responsável pelo efeito devastador da explosão na região portuária de Beirute, que matou pelo menos 113 pessoas, feriu 4 mil e espalhou destruição por quilômetros. Cerca de 300 mil pessoas estão desabrigadas. 

O governo afirmou que um curto-circuito causou um incêndio e explosão em um depósito de fogos e em outro onde estavam 2.750 toneladas do produto

O nitrato de amônio é um sal e um dos fertilizantes mais utilizados na agricultura no mundo inteiro. Também é usado na fabricação de explosivos e bombas, por ser altamente inflamável. 

A fórmula química NH4NO3, por vezes erroneamente denominada "nitrato de amoníaco" pela indústria, pode também ser utilizado na fabricação de explosivos e bombas, tal como no atentado em Oklahoma City, em 1995, e no ataque em Oslo, em 2011, pelo atirador norueguês Anders Breivik.

Por si só, ele é relativamente pouco explosivo. Ele se apresenta como um pó branco ou em grânulos solúveis em água e é seguro, desde que não aquecido. A partir de 210 °C, decompõe-se e, se a temperatura aumentar para além de 290 °C, a reação pode tornar-se explosiva.

Segundo especialistas, normalmente o nitrato de amônio é estocado em grandes quantidades, pois a substância atende a uma grande demanda da agricultura por fertilizantes. A substância fornece nutrientes que são necessidade básica das plantas, que são os nutrientes NPK, sigla para nitrogênio, fósforo e potássio.

Ele tem poucos riscos se for armazenado de maneira segura, porque não explode sozinho. Ele precisa de algum “gatilho” grande para uma explosão. No caso do Líbano, foram as chamas de um incêndio num depósito vizinho de onde o nitrato de amônio estava armazenado. 

Especialistas dizem que os armazéns precisam ser feitos de tal forma que não haja acúmulo do produto. É preciso garantir que não haja 'pontos quentes' (temperatura excessivamente alta) no material estocado, evitando a decomposição térmica.

Por que o nitrato de amônio é tão explosivo?

Quando um composto explosivo detona, ele libera gás que se expande rapidamente. Essa “onda de choque” é essencialmente uma parede de ar denso que pode causar danos e se dissipa à medida que se espalha. 

Uma massa explosiva de nitrato de amônio produz uma explosão que se move muitas vezes a velocidade do som, e essa onda pode refletir e saltar à medida que se move - especialmente em uma área urbana como a orla de Beirute - destruindo alguns edifícios, deixando outros relativamente intactos.

O poder explosivo do nitrato de amônio pode ser difícil de quantificar em termos absolutos, dada a idade e as condições em que foi armazenado. No entanto, pode ser tão alto quanto cerca de 40% da potência do TNT.

Com 40% da potência do TNT, a detonação de 2.750 toneladas de nitrato de amônio poderia produzir 1 p.s.i. de sobrepressão - definida como a pressão causada por uma onda de choque acima e acima da pressão atmosférica normal - a até 600 metros de distância.

A mesma explosão produziria 27 p.s.i. a uma distância de 793 pés de distância, o que destruiria a maioria dos edifícios e mataria pessoas por trauma direto ou atingido por detritos.

Outras explosões envolvendo nitrato de amônio

A detonação acidental de nitrato de amônio causou uma série de acidentes industriais mortais, incluindo o pior da história dos Estados Unidos: em 1947, um navio que transportava cerca de 2.000 toneladas de nitrato de amônio pegou fogo e explodiu no porto de Texas City, Texas, iniciando uma reação em cadeia de explosões e chamas que mataram 581 pessoas. O caso foi considerado uma das mais potentes explosões não nucleares da história.

Em 2015, falhas na armazenagem de nitrato de amônio também causaram explosões na cidade de Tianjin, na China, matando 173 pessoas

O produto químico também foi o principal ingrediente das bombas usadas em vários ataques terroristas.

Em 1995, dois extremistas americanos usaram a mesma substância, estocada em uma van, para explodir parte de um prédio na cidade de Oklahoma, também nos Estados Unidos. Ao todo, 168 pessoas morreram e 680 ficaram feridas. O atentado, cometido por Timothy McVeigh e seu cúmplice, Terry Nichols, foi um dos mais traumáticos da história dos EUA. 

Em 2011, o extremista norueguês Anders Breivik usou o nitrato de amônio em seu ataque em Oslo, em 2011, ao usar o produto para explodir um carro em frente à sede do governo norueguês, matando oito pessoas.

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Iniciativa usa redes sociais para localizar desaparecidos em explosão no Líbano

Perfil 'Locate Victims Beirut' foi criado na terça-feira para auxiliar pessoas a encontrarem abrigo e parentes e amigos que sumiram após a tragédia

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 12h27

Uma iniciativa usando as redes sociais se tornou a mais nova aliada na busca por pessoas desaparecidas após a explosão em Beirute, no Líbano. Criado nessa terça-feira, 4, o perfil 'Locate Victims Beirut' divulga fotos de desaparecidos enviadas por amigos e parentes, a fim de auxiliar na localização de cada um deles.

Em menos de 20 horas de atividade, o perfil reuniu quase 90 mil seguidores na rede social. Quase 100 fotos de pessoas supostamente desaparecidas após a explosão foram publicadas até o fim da manhã desta quarta-feira, 5.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

please ONLY COMMENT if you have INFO on the person in the picture

Uma publicação compartilhada por LOCATING VICTIMS (@locatevictimsbeirut) em

Além de se propor a ajudar na localização dos desaparecidos, a conta atua também como um guia para pessoas desabrigadas, indicando locais onde os afetados podem buscar hospedagem gratuitamente. Segundo a TV local MTV, pelo menos 250 mil pessoas ficaram sem suas casas por causa da explosão.

Apesar de ter surgido na terça, com o propósito auxiliar nas buscas, o perfil tem enfrentado um problema comum nas redes sociais: a desinformação. Com poucas horas de atuação, o perfil compartilhou um story reclamando de pessoas que enviaram fotos de amigos como uma piada.

"Pessoas levando isso como uma piada e enviando fotos de seus amigos, eu realmente não tenho palavras para você", escreveu.

Explosão em Beirute

Uma explosão na região portuária de Beirute, no Líbano, matou pelo menos 78 pessoas, feriu 4 mil e espalhou destruição por quilômetros. O governo afirmou que um curto-circuito causou incêndio e explosão em um depósito de fogos e em outro onde estavam 2,7 mil toneladas de nitrato de amônia. O prédio da embaixada do Brasil foi afetado. A fragata brasileira Independência, usada em missão da ONU no país, deixou o local cerca de dez minutos antes da explosão. A hipótese de atentado foi afastada, mas o acidente levou pânico ao país, alvo frequente de violência sectária.

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Bolsonaro diz que Brasil está solidário ao Líbano e fará 'gesto concreto' para ajudar

Presidente manifestou solidariedade e afirmou que autoridades brasileiras estão em contato com o governo libanês

Julia Lindner e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 12h55

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira, 5, que o Brasil "está solidário" ao Líbano após as explosões que deixaram pelo menos 78 mortos e quase 4 mil feridos na capital do país. Segundo Bolsonaro, o governo brasileiro deve fazer "algo de concreto para atender, em parte, aquelas dezenas de milhares de pessoas que estão em situação bastante complicada". Em evento no Ministério de Minas e Energia (MME), o presidente contou que conversou pela manhã com o embaixador do Líbano no Brasil, Joseph Sayah.

"O Brasil vai fazer mais do que um gesto, algo de concreto, para atender, em parte, aquelas dezenas de milhares de pessoas que estão em uma situação bastante complicada, porque além de feridas, muitas residências foram atingidas. O Brasil está solidário. Em nome, obviamente, do governo brasileiro, manifestamos esse sentimento ao povo libanês e estaremos presentes na ajuda àquele povo que tem alguns milhões de seus dentro do nosso país", disse Bolsonaro.

Para Entender

Explosão em Beirute: o que se sabe e o que falta saber

Governo diz que curto-circuito causou incêndio e explosão que deixaram 100 mortos e 4 mil feridos

De acordo com o presidente, desde ontem os representantes do Ministério da Defesa e de Relações Exteriores estão em contato com autoridades libanesas. Bolsonaro lembrou que o Brasil tem em torno de cinco milhões de libaneses. "Agora de manhã, por intermédio do presidente do Senado, Davi, liguei para o embaixador do Líbano no Brasil", afirmou.

Na saída do evento, Bolsonaro citou que um avião KC-390 pode ser colocado à disposição dos libaneses. O presidente também falou que o governo brasileiro teve informações de que não há nenhum brasileiro com ferimentos graves após o episódio.

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Análise: Explosão em Beirute deixa o mundo em dilema sobre como ajudar o Líbano

Trata-se de uma velha questão: como ajudar um povo atingido por uma tragédia sem capacitar seus governantes obscuros e sinistros?

Bobby Ghosn, Bloomberg, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 13h58

Mais de 113 mortos, 4 mil feridos e centenas de milhares de desabrigados: o número humano da explosão no Líbano, na terça-feira, 5, exige uma resposta imediata do resto do mundo. Não é exagero dizer que muitos morrerão ou ficarão mutilados permanentemente se o socorro não vier rapidamente.

Mas a tragédia também coloca os líderes e credores do mundo em um dilema conhecido: como ajudar um povo atingido sem capacitar seus governantes obscuros - e sinistros?

O dilema foi levantado recentemente no Irã, quando o governo da República Islâmica buscou US$ 5 bilhões do Fundo Monetário Internacional para lidar com o surto de coronavírus

Na época, argumentei que não era confiável dar dinheiro ao regime de Teerã: o risco era grande de que o dinheiro fosse desviado para o bem estabelecido programa iraniano de espalhar o terrorismo e a violência sectária pelo Oriente Médio. Melhor oferecer ajuda material - comida, remédios, médicos e enfermeiros - em vez disso.

É evidente que o governo iraniano insistiu em dinheiro, que não recebeu, e optou por deixar seu povo sofrer, em vez de aceitar ofertas ocidentais de assistência não monetária. Desde então, ele tentou esconder a extensão da crise do coronavírus, mascarando os números. O número real de mortes pode ser três vezes maior do que o anunciado.

Para Entender

Explosão em Beirute: o que se sabe e o que falta saber

Governo diz que curto-circuito causou incêndio e explosão que deixaram 100 mortos e 4 mil feridos

O Líbano, apesar de toda a sua disfunção política e caos econômico, é em grande parte uma sociedade aberta. O governo do primeiro-ministro Hassan Diab aceitará com prazer ofertas de assistência de todos os participantes - com a possível exceção de Israel. Grupos de resgate e socorro de todo o mundo estão a caminho de Beirute. Alimentos e outros suprimentos de emergência também chegarão.

Mas a elite política profundamente corrupta que administra o país não perderá a oportunidade de pedir dinheiro também. E é aí que reside o dilema.

Não há dúvida de que o Líbano precisará do dinheiro. Beirute sofreu enormes danos físicos: o governador da cidade estima que custará entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões para consertar os danos.

Em circunstâncias normais, a diáspora libanesa poderia ser usada para recuperar boa parte da conta. Mas, nos últimos meses, o estado piedoso da economia libanesa - e especialmente o colapso de sua moeda - levou muitos a retirar seu dinheiro do país. 

Eles enviarão dinheiro de volta para apoiar amigos e familiares, mas investir em reconstrução requer fé na gestão da economia e confiança no sistema bancário, o que não existe atualmente.

Assim como o Irã, existe o perigo de que o dinheiro da ajuda seja desviado de seu objetivo pretendido - seja para rechear os bolsos dos políticos famosos e venais do Líbano, ou pior, fornecer verbas para os cofres do Hezbollah, que atua como aliado do Irã em toda a região.

O medo de dinheiro caindo nas mãos do Hezbollah impediu que os países árabes do Golfo salvassem o Líbano de sua atual crise econômica, como fizeram no passado.

Isso deixa em alerta o FMI, que ainda antes da tragédia de terça-feira estava conversando com o governo Diab sobre um empréstimo de US$ 10 bilhões. Mas essas negociações haviam parado com a incapacidade do governo de concordar com um plano de reforma econômica. O ministro da Economia, Raoul Nehme, estava otimista quando disse que poderia receber metade desse valor na semana passada.

O FMI pode agora estar disposto a falar de uma quantia maior, para incorporar as necessidades de reconstrução de Beirute. Mas o risco de uso indevido pode ser maior no caos após as explosões, por isso o FMI deve ser ainda mais insistente na transparência.

A escala da tragédia deve abalar o governo - e toda a classe política - sobre a necessidade de reformas. Mesmo o Hezbollah, certamente, agora deve reconhecer que um resgate, com restrições, é inevitável - e urgente.

No mínimo, o governo deve permitir um sistema de supervisão internacional de como é gasto o dinheiro da reconstrução. Não conseguir assistência em um momento em que haja tanta simpatia pelo Líbano seria desastroso. O mundo quer ajudar os libaneses. Os políticos em Beirute devem nos ajudar a ajudá-los.

* Bobby Ghosn é colunista da seção de opinião da Bloomberg. Ele escreve sobre Relações Internacionais, com foco em Oriente Médio

 

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Itamaraty diz que embaixada brasileira foi duramente atingida por explosões em Beirute

Uma brasileira, a mulher de um adido de Defesa da embaixada, segundo o ministério, sofreu ferimentos, foi internada, mas passa bem

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 14h53

O Ministério das Relações Exteriores confirmou nesta quarta-feira, 5, que a Embaixada do Brasil em Beirute foi duramente atingida pelo impacto das duas explosões ontem na região portuária, mesmo estando a representação localizada no centro da capital. Uma brasileira, a mulher de um adido de Defesa da embaixada, segundo o ministério, sofreu ferimentos, foi internada, mas passa bem.  

Na terça-feira, duas explões na região portuária de Beirute deixaram ao menos 100 portos, milhares de feridos e um clima de consternação no Líbano, que já há meses passa por uma crise econômica sem precedentes em sua história recente. As autoridades do país disseram que um curto-circuito causou incêndio e explosão em um depósito de fogos e em outro onde estavam 2,7 mil toneladas de nitrato de amônia. Testemunhas no Chipre relataram ter sentido o impacto das explosões. 

Segundo o governo brasileiro, o impacto não causou danos estruturais ao prédio da representação, apesar da destruição. "De modo geral, as salas voltadas para o local da explosão foram mais afetadas, com janelas estilhaçadas, desabamento do forro do teto, mobília e computadores seriamente danificados. Por outro lado, salas e escritórios voltados para a cidade foram poupados. Os sistemas de comunicações, incluindo internet, eletricidade e água, funcionam normalmente. Garagem e veículos oficiais não foram afetados", esclareceu o Itamaraty ao Estadão

A nota de esclarecimento do ministério explica que o Centro Cultural, localizado no Bairro de Achrafieh, próximo do porto, teve fachada, portas e janelas seriamente afetadas. Já o setor consular, situado em bairro mais distante, não sofreu danos substantivos. 

A maioria dos membros do corpo diplomático, bem como da adidância, reside no Bairro de Achrafieh e arredores, seriamente afetados, em razão da proximidade com o porto, como explica o ministério. "Há relatos de janelas, mobília e paredes gravemente danificados." 

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Explosão em Beirute: o que se sabe e o que falta saber

Governo diz que curto-circuito causou incêndio e explosão que deixaram 100 mortos e 4 mil feridos

Segundo o governo, vivem no Líbano cerca de 20 mil brasileiros, principalmente na região conhecida como Vale do Bekka. A equipe de trabalho da embaixada é formada por 53 pessoas, entre diplomatas, funcionários locais e militares. Na força especial da Marinha, que opera na missão da ONU no Líbano, a Unifil, servem aproximadamente 200 militares brasileiros. 

Na terça-feira, a Marinha do Brasil esclareceu que todos os militares brasileiros da missão estavam bem. "A Fragata Independência encontra-se operando no mar, normalmente. O navio estava distante do local onde ocorreu a explosão", esclareceu a Marinha. 

 

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'Explosão em Beirute coloca mais pressão sobre o governo e a economia'

Para professora de História Árabe da USP, incidente no porto da capital vai agravar a fome no país

Entrevista com

Arlene Clemesha, professora de História Árabe na USP

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 15h00

As explosões no porto de Beirute colocam ainda mais pressão sobre o governo do Líbano e sobre a já fragilizada economia do país. "É o cenário de um país que vem se esfacelando, vem perdendo seus alicerces básicos", afirma Arlene Clemesha, professora de História Árabe na Universidade de São Paulo (USP).  

Os números oficiais indicam que pelo menos 113 pessoas morreram e 4 mil ficaram feridas após as explosões de 2.750 toneladas de nitrato de amônio. Em função do acidente, o governo decretou estado de emergência nacional de duas semanas a partir desta quarta. 

Na avaliação de Clemesha, a população libanesa está cansada de governos em que as filiações políticas e religiosas falam mais alto do que a capacidade de administração. Antes das explosões, Beirute registrou protestos antigoverno. Abaixo, a entrevista completa. 

Como essa explosão afeta a vida política no Líbano, que já estava conturbada e com protestos contra o governo?

Na última década, o Líbano vem sofrendo uma degringolada econômica. Chegou ao ponto de não produzir nem conseguir fazer circular os bens necessários para a alimentação de sua população. Cerca de 80% dos insumos para suprir a população - de alimentos a medicamentos - dependem de importação. A explosão no porto atinge o principal meio de ingresso de suprimentos e coloca um cenário de instabilidade alimentar gravíssimo. 

Já existe fome no país, os organismos internacionais falam na existência de 500 mil crianças que não têm alimentos adequados. Esse porto, além de ser uma importante via de ingresso e escoamento de insumos, é também uma fonte de dividendos para o país. O Líbano não é um produtor de petróleo, mas esse porto é um dos principais da costa do Mediterrâneo, é por onde entram suprimentos também para Síria, Iraque e outros países do Golfo. Agora, por muito tempo vai ficar inoperante e outros canais de ingresso terão de ser encontrados. A situação é de enorme gravidade do ponto de vista econômico e social para o país. 

Isso tem potencial de causar mais tensões? Deve agravar ainda mais os conflitos sociais no país? 

Com certeza. Desde o momento da explosão estamos recebendo notícias de uma possível renúncia do governo que talvez não resista a essa crise. É um novo problema para um país e uma população já muito castigados. Esse governo foi formado em janeiro de 2020 após uma importante onda de protestos que começou no ano passado. O estopim foi causado pela notícia de que o governo cobraria impostos sobre as chamadas de WhatsApp. Era uma população já fragilizada economicamente que podia recorrer a chamadas gratuitas e ia ter mais esse imposto. Isso levou à renúncia do governo e por várias vezes houve tentativas sem sucesso de se formar um novo governo. Em janeiro se formou um com forte articulação do Hezbollah. 

Para Entender

Explosão em Beirute: o que se sabe e o que falta saber

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Quais eram as demandas da população à época desses protestos? 

As manifestações exigiam que o governo fosse formado por técnicos, um governo sem influência política. A população estava cansada de governos sectários onde as filiações políticas e religiosas falavam mais alto do que a capacidade de administração de uma determinada pasta. Queriam um governo capaz de resolver os problemas do país e pediam o fim desse sistema político. 

Mas não foi exatamente isso que aconteceu em janeiro, certo? 

O governo que se formou em janeiro ainda foi marcado por alianças políticas, não foi esse governo técnico que a população exigia. Portanto, desde janeiro podemos dizer que a população já não está satisfeita e vem manifestando esse descontentamento. Essa explosão é mais um impacto na economia e no governo. 

A senhora mencionou a situação econômica, que já não era boa, com a pobreza e a fome aumentando antes disso. Pode detalhar mais? 

É uma situação complicada porque o Líbano tem a tradição de uma classe média bem formada que tem sido muito afetada pela política interna e regional. Recebeu cerca de um milhão de refugiados sírios desde a Guerra da Síria. É uma população que hoje está um pouco inchada. Um país que não consegue lidar com os problemas de toda sua população e nem dos refugiados.

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Há fome, pouca circulação de insumos alimentares e médicos em primeiro lugar. E o governo tenta lidar com isso com medidas impopulares, como limitar saques em bancos. É o cenário de um país que vem se esfacelando, vem perdendo seus alicerces básicos.
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Houve uma greve do lixo há alguns anos em que o país ficou sem coleta por meses. Houve momentos recentes em que não havia governo. Então, é um país que mostra uma incapacidade de se manter dentro do sistema político criado. 

Essa explosão é um sintoma da corrupção endêmica e da incapacidade das autoridades no Líbano?

Essa é a primeira hipótese. A própria população libanesa acusa o governo. O que se sabe desse material, com documentos e cartas reveladas, é que ele veio de um navio russo, com bandeira da Moldávia, rumo a Moçambique. Teve problemas e atracou no porto do Líbano. Essa carga foi trazida dentro do porto e a tripulação acabou desistindo dela. Foi embora e a carga ficou. A suspeita é de que tenha havido uma enorme burocracia em torno do manejo dessa carga. A tripulação ficou presa nas entranhas da burocracia do estado libanês. 

Desde 2014 houve pelo menos três ofícios para diferentes instâncias do governo, um juiz da Suprema Corte pediu autorização para se desfazerem dessa carga, embarcá-la para o país de origem, vendê-la para uma fábrica que pudesse lidar adequadamente. Todos os ofícios chamavam atenção para o perigo que isso representava para os trabalhadores e para o porto. Nada foi feito. Isso mostra uma incapacidade, uma incompetência e uma burocracia sem fim. É isso que a população não aguenta mais em relação ao Líbano. Isso não elimina o fato de que um atentado tenha feito com que aquilo explodisse, mas é fato que houve uma tremenda má gestão. 

Que consequências no curto e médio prazos podemos antever? 

O principal ponto é: essa explosão vai levar a uma mudança no país? A população vem apontando para isso há tempos, a população está na rua há anos. Pedem transformação e uma reorganização da estrutura de comando do país. Querem começar do zero. Precisamos observar o que isso vai representar nos próximos meses e anos.

A explosão chega num momento em que o governo tem uma forte articulação do Hezbollah e alguns dias antes de um julgamento de quatro integrantes desse grupo acusados do atentado que assassinou o ex-premiê Rafic Hariri em 2005. São dois casos que fragilizam o governo e o próprio Hezbollah. É uma semana como poucas para essa organização que é um dos principais partidos políticos e articuladora dos grupos políticos. Espero que isso não leve a instabilidade regional, já há um flanco aberto com o Irã, que é aliado do Hezbollah. 

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Explosão deixou 300 mil desabrigados e levou destruição a metade de Beirute

Enquanto bombeiros e equipes de resgate reviram escombros em busca de corpos, governador da capital libanesa calcula que prejuízos podem chegar a US$ 5 bilhões; número de mortos sobe para 137, mas ainda há dezenas de desaparecidos 

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 20h13
Atualizado 06 de agosto de 2020 | 03h59

BEIRUTE - A capital do Líbano acordou esta quarta-feira, 5, em estado de choque, um dia após a explosão que devastou a cidade. “Quase metade de Beirute está destruída ou danificada”, disse o governador de Beirute, Marwan Abbud. Enquanto equipes de resgate reviravam escombros em busca de corpos, os números da tragédia cresciam. Oficialmente, foram 137 mortos, mas ainda há dezenas de desaparecidos. Autoridades disseram que 5 mil pessoas ficaram feridas e 300 mil, desabrigadas

“Dei uma volta por Beirute. Os prejuízos podem chegar a US$ 5 bilhões (R$ 26,6 bilhoes)”, disse Abbud. Na região portuária, epicentro da tragédia, o panorama é apocalíptico: lixeiras retorcidas e carros incinerados. Com a ajuda de policiais, socorristas da Cruz Vermelha e bombeiros passaram a noite resgatando sobreviventes e cadáveres.

Hoje, as forças de segurança isolaram a região portuária. O acesso foi autorizado apenas para a Defesa Civil, ambulâncias e bombeiros. Várias horas após a explosão, helicópteros ainda seguiam despejando água para tentar conter as chamas. 

“É uma catástrofe. Há corpos espalhados pelo chão”, disse um soldado perto do porto. “Foi como uma bomba atômica”, contou Makruhie Yerganian, professor aposentado que vive há mais de 60 anos na região portuária. 

O governo do Líbano decretou estado de emergência de duas semanas e abriu uma investigação para apontar os responsáveis. “Não há palavras para descrever a catástrofe de ontem (terça-feira)”, disse o presidente libanês, Michel Aoun.

Autoridades colocaram todos os funcionários do porto de Beirute responsáveis pelo armazenamento e pela segurança em prisão domiciliar. A principal hipótese para a explosão é a negligência. Autoridades sabiam havia muito tempo dos riscos de estocar 2,7 mil toneladas de nitrato de amônio, material usado em bombas e fertilizantes, de maneira improvisada em um galpão no porto.

“É inadmissível que um carregamento de nitrato de amônio de 2,7 mil toneladas esteja há seis anos em um armazém sem medidas preventivas. Isso é inaceitável e não podemos permanecer em silêncio sobre o tema”, declarou o primeiro-ministro, Hassan Diab. 

A explosão de terça-feira foi tão poderosa que foi sentida no Chipre, a 240 quilômetros de distância. Os sensores do Instituto Geológico dos EUA (USGS) registraram o abalo como um terremoto de magnitude 3,3. Em alguns edifícios próximos à região portuária de Beirute, todas as janelas foram estilhaçadas. Bares, boates e restaurantes da orla ficaram arrasados.  

Com a falta de eletricidade na maior parte da cidade, o trabalho de resgate dos bombeiros ficou limitado ao que podiam fazer durante o dia. Hoje, começaram a chegar as primeiras equipes de especialistas franceses, checos, russos e alemães para ajudar nas buscas. O Irã também enviou toneladas de ajuda humanitária. 

Antes mesmo da tragédia, o Líbano era um país em convulsão social. Lutando contra o colapso econômico, a crise política e a pandemia de coronavírus, a raiva nas ruas apenas aumentou de intensidade. A população agora exige respostas e culpados. Para analistas, a explosão coloca ainda mais pressão sobre o governo e pode agravar um quadro de fome

“É o cenário de um país que vem se esfacelando, perdendo seus alicerces básicos”, afirma Arlene Clemesha, professora de história árabe da Universidade de São Paulo (USP). “Na última década, o Líbano chegou ao ponto de não produzir nem conseguir fazer circular os bens necessários para a alimentação de sua população. Cerca de 80% dos insumos são importados. A explosão atinge o principal meio de entrada de suprimentos e agrava a instabilidade alimentar.” / AFP, NYT e REUTERS, Colaborou Paulo Beraldo

 

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