Sandy Huffaker/The New York Times
Imigrantes ilegais aguardam resposta a sua solicitação de asilo na fronteira entre Tijuana, México, e os EUA Sandy Huffaker/The New York Times

Mais famílias brasileiras com crianças tentam emigrar para os EUA

Pessoas com formação superior também se arriscam a entrar pelo México, sinal de uma mudança no perfil migratório nos últimos anos

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2018 | 05h00

A última turma de catequese da Igreja São Tarcísio teve 470 crianças brasileiras, quase o dobro das 280 registradas no período anterior. A explosão é um dos sintomas do aumento da imigração de famílias que fogem da crise econômica no Brasil para tentar a sorte como imigrantes ilegais nos EUA.

Muitas chegam em aeroportos com vistos de turista, mas um número crescente tenta a sorte na travessia da fronteira com o México, o que explica o fato de pelo menos 50 crianças e adolescentes brasileiros estarem entre os menores separados de seus pais pela política de “tolerância zero” do presidente Donald Trump.

A São Tarcísio fica em Framingham, que abriga uma das maiores comunidades de brasileiros nos EUA. Na mesma cidade, a escola primária Woodrow Wilson está com suas salas abarrotadas, em razão do aumento da chegada de brasileiros com filhos pequenos. De seus 509 alunos, 85% são brasileiros, disse o diretor John Haidemenos. “Nos últimos dois anos, aumentou muito o número de famílias brasileiras que matriculam filhos na escola. A cada semana, chegam de três a quatro novas famílias.”

Pároco da Igreja São Tarcísio, o padre Volmar Scaravelli disse que mudou o perfil do imigrante brasileiro que tenta uma nova vida nos EUA. “Com a crise no Brasil, passaram a chegar pessoas de classe média e classe média baixa, que têm formação superior e vêm com toda a família.”

Ao mesmo tempo, a chegada de Trump ao poder aumentou o temor dos imigrantes em situação irregular. Haidemenos afirmou que dois pais de alunos brasileiros da Woodrow Wilson foram deportados recentemente, o último deles em janeiro. “Hoje (quinta-feira), uma menina brasileira de 7 anos estava chorando com medo de sua mãe ser deportada.” 

A retórica e as políticas anti-imigrantes de Trump não impediram a chegada de mais brasileiros. Advogada, Maria trabalhava em um escritório de Curitiba especializado em Direito Bancário. Seu marido era funcionário dos Correios, onde tinha cargo de confiança comissionado.

Segundo ela, desavenças políticas o levaram a perder adicionais salariais, o que reduziu a renda da família. “A gente nadava, nadava, nadava. Nós não nos afogávamos, mas não saíamos do lugar”, disse Maria (nome fictício, como todos os de sua família).

No dia 10 de maio de 2017, ela, o marido e a filha chegaram aos EUA com vistos de turista. “Nós não voltamos mais ao Brasil e, se tudo der certo, não voltaremos mais.” A filha de 8 anos, Ana, se adaptou em pouco tempo e já domina o inglês. O marido, João, pegou no batente na construção civil e agora trabalha na cozinha de um restaurante. Maria conseguiu emprego em um escritório de advocacia. 

O medo da deportação a assombrou no começo. Mas logo ela aprendeu a não pensar no assunto. “Eu sinto como se fosse daqui. Ando tão naturalmente na rua que acho que ninguém vai me notar.” Sua mãe de 58 anos se juntou a ela em Massachusetts na quarta-feira. Seu padrasto veio dois meses antes e trabalha no restaurante com João.

“Se não tivéssemos saído do Brasil, já teríamos nos afogado.” Maria afirmou que vê com frequência a chegada de novos brasileiros, que vêm com visto de turista ou pela fronteira com o México. Como está em situação irregular, ela não poderia voltar ao Brasil mesmo que quisesse. Se sair dos EUA, não conseguirá voltar, a menos que se arrisque a entrar de maneira clandestina pela fronteira do sul do país.

Nos EUA há 29 anos, o advogado Danilo Brack disse nunca ter visto uma onda migratória de brasileiros como a dos últimos dois anos. Grande parte chega com a família e muitos arriscam a travessia da fronteira com o México com os filhos. “O perfil econômico é muito distinto do passado”, ressaltou Brack, dono de um escritório especializado em imigração em Lowell, Massachusetts. “As pessoas agora têm curso superior e algumas têm mestrado e até doutorado.”

Brack observou que também mudou o local de origem dos brasileiros. Há dez anos, a maioria vinha de Minas Gerais e Goiás. Agora, muitos vêm do Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo, Bahia e Rondônia.

Os riscos que eles enfrentam também são altos. O advogado disse que as autoridades de imigração passaram a prender em vários lugares. Nos últimos anos do governo Barack Obama, a prioridade era dada a pessoas que tivessem antecedentes criminais. Com Trump, todos que estão em situação irregular passaram a estar sujeitos à detenção.

A prática dos agentes também mudou. O advogado Antonio Massa Vieira, especializado em imigração, disse que muitos imigrantes moradores de Massachusetts foram presos no Estado vizinho de New Hampshire quando a polícia fez uma batida na rodovia I-95 durante o feriado em memória dos veteranos de guerra, no fim de maio.

Entre os detidos, estava um brasileiro que trabalhava na construção civil em Massachusetts e tinha ido fazer turismo em New Hampshire. “O número de pessoas presas aumentou muito. O governo também eliminou recursos administrativos que davam ao imigrante que tem uma vida produtiva aqui uma chance de adiar a deportação.”

 

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Trump separa famílias de brasileiros que há anos estão nos EUA

Meire foi deportada e voltou para Conselheiro Lafayete com a filha pequena, mas Marcelo ficou nos EUA com a filha mais velha que estuda enfermagem

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2018 | 05h00

Casados há 22 anos, Marcelo e Meire se viram pela última vez em 21 de outubro e não têm ideia de quando voltarão a se encontrar. Presa pela imigração americana, ela foi deportada 40 dias mais tarde e não pode retornar aos EUA de maneira legal. Sem documentos, ele não tem como sair, a menos que seja para sempre. As filhas do casal também foram separadas. A mais velha ficou com o pai, enquanto a mais nova se juntou à mãe em Minas Gerais.

O aumento da deportação de pessoas sem antecedentes criminais durante o governo Donald Trump levou à multiplicação de casos como o de Marcelo e Meire, em que famílias estabelecidas nos EUA há anos são estilhaçadas da noite para o dia. Os dois viviam em Framingham, Massachusetts, desde o início dos anos 2000. Ele está há 18 anos na cidade que reúne uma das maiores comunidades de brasileiros nos EUA. Ela chegou depois, com a filha mais velha do casal, que hoje tem 21 anos. A mais nova, de 11, nasceu em Framingham e é cidadã americana.

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Meire chorou durante quase toda a entrevista concedida por telefone de Conselheiro Lafaiete, onde vive com dois irmãos e trabalha na loja de autopeças de um deles. “No ano passado, meu advogado me chamou e disse ‘esse presidente que entrou vai mandar todo mundo embora’”, lembrou.

A brasileira entrou duas vezes nos EUA de maneira ilegal: a primeira, em 2003, pelo México. A segunda, em 2011, pelas Bahamas, de barco. Nas duas, foi pega pela imigração e solta sob o compromisso de comparecer a audiência do processo de deportação.

Meire ignorou a primeira intimação por orientação do advogado na época. Foi condenada à revelia. Quando retornou aos EUA, um novo advogado sugeriu que ela procurasse as autoridades de imigração. De 2011 a 2017, ela se apresentava todos os anos e tinha sua permanência estendida. Isso mudou no dia 21 de outubro, quando ela foi direto para uma prisão em Boston. “O advogado disse que não podia fazer mais nada”, disse.

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Marcelo já passou 18 de seus 41 anos de vida nos EUA e nunca voltou ao Brasil. “Finquei raízes aqui e é aqui que eu quero ficar.” À distância, o casal discute se Meire deveria se arriscar e entrar mais uma vez no país de maneira clandestina. “Eu tenho vontade de voltar, mas também tenho medo. Se for pega, eu não ficarei presa só por 40 dias”, afirmou ela. Segundo Marcelo, muitos brasileiros com família que foram deportados acabaram voltando pela fronteira com o México. 

Após deportar um número recorde de pessoas, muitas com família, o ex-presidente Barack Obama mudou de política nos últimos anos de seu governo e ordenou que os agentes dessem prioridade a imigrantes com antecedentes criminais. Mas Trump determinou que todos os que estão no país de maneira irregular devem ser alvo das autoridades.

O Projeto de Defesa do Imigrante estima que 16 milhões de pessoas vivem nos EUA em famílias de status migratório “misto”, com pelo menos um membro não cidadão. Segundo a entidade, os que estão nessa situação vivem o constante temor de serem separados de pais, de filhos ou de irmãos por causa da política de Trump. 

Marcelo e Meire estavam nos EUA de maneira irregular, mas têm uma filha que é cidadã. A mais velha é beneficiária do Daca, o programa de Obama que suspendeu a deportação de jovens levados ao país quando criança.

No segundo ano de enfermagem, ela é uma das razões de Marcelo ficar nos EUA. Se Meire não conseguir voltar, ele disse que não terá outra saída a não ser retornar. “Quando terminar de pagar a universidade da minha filha, volto. Não vou destruir meu casamento de 22 anos.”

 

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De advogada poliglota a faxineira em Washington

Profissionais liberais sem emprego no Brasil aceitam ofertas abaixo de sua capacitação profissional nos EUA

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2018 | 05h00

Clara tem 37 anos e é uma das inúmeras vítimas da crise econômica e do impacto dos escândalos de corrupção no Brasil. Advogada, ela fala quatro idiomas. Trabalhou na Suécia e na China para uma das grandes empresas nacionais de petróleo e gás. A Lava Jato expôs os vínculos da empregadora com o esquema de corrupção na Petrobrás, o que levou a seu fechamento e à perda de seu ganha-pão. 

Depois de dois anos infrutíferos em busca de uma nova colocação, Clara decidiu deixar o Brasil e tentar a sorte em Washington, onde seu irmão estava havia 15 anos. Clara desembarcou na capital dos EUA com um visto de turista, em junho de 2016, disposta a ficar. A vida de advogada deu lugar a uma rotina em que se alternam o trabalho como faxineira, babá e professora de português.

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As jornadas são longas e duras, mas Clara (nome fictício) disse ganhar muito mais do que receberia no Brasil. Quando estava em busca de emprego, a oferta mais elevada que recebeu foi de R$ 2 mil por mês. Nos EUA, ela ganha de US$ 4 mil a US$ 5 mil (R$ 15,1 mil a R$ 19 mil), afirmou. Segundo Clara, isso é suficiente para pagar o aluguel de um apartamento, ter um carro e levar uma vida confortável.

“Eu faço de tudo um pouco. Aqui o trabalho é puxado, mas vivo bem. Estou feliz da vida”, afirmou a advogada, que disse falar inglês, espanhol, francês, além do português. Até agora, ela conseguiu estender o visto de turista. Ainda assim, sua situação é irregular, já que não poderia trabalhar.

Enquanto der, ficará nos EUA. “Só volto se a situação econômica no Brasil melhorar. A qualidade de vida aqui é muito melhor do que lá.” Seu pais deverão se juntar aos dois filhos em breve. De acordo com Clara, eles venderam um imóvel e usarão o dinheiro para se estabelecer em Washington, também com visto de turista.

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Desde que chegou, aumentou de maneira acentuada o número de brasileiros com curso superior que chegam para tentar a sorte na capital americana, observou. “Eu conheço enfermeiras e engenheiros que não conseguiam emprego no Brasil e decidiram migrar para cá.”

O fenômeno não é restrito a Washington. “Quando eu cheguei, em 1998, vinham pessoas mais simples. Agora muitos têm curso superior e vêm com toda a família”, afirmou Liliane Costa, diretora do Brazilian American Center (Brace), em Framingham, cidade de Massachusetts que concentra uma das maiores comunidades de brasileiros nos EUA.

Dono de uma empresa de restauração de pisos de mármore na Flórida, Mario Teixeira desembarcou no país em 2006, quando a maioria dos que traçavam o mesmo caminho era de trabalhadores braçais que acabavam na construção civil. “Agora, tem chegado muita gente com dinheiro, que consegue visto de investidor”, ressaltou. “Mas também há muitos que vêm com curso superior e são obrigados a trabalhar na construção. Grande parte deles não aguenta o batente. No Brasil, eles nunca tinham mexido com isso.”

 

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