REUTERS/Tony Gentile/File Photo
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Médicos Sem Fronteiras alerta sobre situação de imigrantes

Coordenador fala sobre as condições no navio Aquarius e diz que mais barcos superlotados estão deixando a costa da Líbia e outras pessoas correm risco se não houver ajuda

O Estado de S.Paulo

12 Junho 2018 | 23h35

No dia 10, o navio de busca e salvamento Aquarius, mantido por MSF e pela ONG SOS Mediterranée contava com 629 migrantes e refugiados a bordo, que seriam desembarcados em um porto seguro na Itália. Entretanto, o ministro do interior italiano negou a permissão de desembarque em qualquer porto do país. Autoridades de Malta também negaram o desembarque na ilha. No dia 11, a Espanha propôs que aportássemos em Valência, a 1.300 km da nossa localização naquele momento – ou seja, mais três dias de viagem com o Aquarius, já bem acima da capacidade máxima.

Nesta terça-feira (12), o Aquarius foi instruído pelo Centro de Coordenação de Resgate Marítimo em Roma a transferir 400 dos 629 refugiados e migrantes a bordo para navios da Marinha italiana, que também seguiram para Valência. 

Aloys Vimard, coordenador de MSF a bordo do Aquarius, falou sobre a situação dentro da embarcação antes da decisão sobre a transferência de parte dos refugiados.

 “Estamos no momento em águas internacionais entre as costas de Malta e da Sicília. Há 629 pessoas a bordo: entre elas 11 crianças pequenas, 123 menores desacompanhados, mais de 80 mulheres e 7 grávidas. O barco está superlotado e estamos acima da capacidade. Temos pessoas muito vulneráveis ​​a bordo e a maioria delas está exausta; eles estão no mar há mais de 48 horas.

A situação médica é estável no momento, mas a saúde de alguns pacientes pode se deteriorar sem cuidados médicos mais complexos. Tratamos vários casos críticos, incluindo pacientes que quase se afogaram e outros com queimaduras. Todos foram atendidos com sucesso. Nós ainda estamos monitorando-os, mas aqueles que engoliram água podem rapidamente desenvolver complicações pulmonares. Essas pessoas devem ser levadas para um porto seguro imediatamente.

Temos cinco profissionais da área médica a bordo, incluindo três enfermeiras, um médico e uma parteira. Estamos equipados para tratar todos a bordo e no momento não há pacientes críticos que precisem de retirada médica urgente. No entanto, em breve precisaremos de mais suprimentos médicos se a situação continuar. Com pessoas amontoadas em um deck aberto e expostas às intempéries, estamos preocupados com insolação e desidratação.

Nós tínhamos comida suficiente para durar até esta noite, quando nossas rações acabariam. Um barco maltês entregou alguns suprimentos, suficiente apenas para uma refeição. Os espanhóis nos ofereceram um porto, mas é uma jornada de até cinco dias até lá. Nós não somos um navio de passageiros e pedimos aos portos seguros mais próximos que nos deixem desembarcar.

Estamos sendo muito transparentes com todos a bordo. É importante que eles entendam o que está acontecendo. Dissemos a eles que somos uma organização humanitária, que não os devolveremos à Líbia sob nenhuma circunstância e eles serão levados para um porto seguro.

Na melhor das hipóteses, as autoridades italianas farão o seu trabalho e respeitarão o direito marítimo internacional. Isso significa que receberemos a indicação de um porto o mais rápido possível e todas as pessoas resgatadas serão levadas para um lugar seguro. No pior cenário, permaneceremos aqui no mar, sem qualquer instrução, em um barco superlotado com pessoas ansiosas a bordo, cuja segurança é colocada em risco a cada dia que passa.

Estamos extremamente preocupados com o quão difícil estão se tornando as buscas e os resgates que salvam vidas no mar. Somos trabalhadores humanitários, estamos aqui simplesmente para salvar vidas e levar as pessoas a um lugar seguro. Isso está de acordo com o direito marítimo internacional e o dever do Centro de Coordenação de Resgate Marítimo.

As políticas europeias de dissuasão fizeram com que o número de pessoas que chegam à Europa caísse significativamente. Mas nos meses de verão, assim que o tempo melhora, vemos mais barcos saindo das costas da Líbia. Isso já está acontecendo – nós resgatamos e transferimos para bordo mais de 600 pessoas em apenas uma noite e ouvimos no domingo que havia vários barcos em perigo em águas internacionais. Sabemos que um navio da Marinha italiana tem atualmente mais de 800 pessoas a bordo que eles resgataram recentemente.

As pessoas estão nos perguntando por que não estamos nos movendo e o que está acontecendo. Um homem ameaçou pular no mar; ele disse que estava com medo de ser mandado de volta para a Líbia e havia perdido a confiança em nós. As pessoas estão ficando desesperadas.”

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