MANDEL NGAN / AFP
MANDEL NGAN / AFP

Minnesota, último alvo antes de Trump adoecer

Estado deve manter tendência de preferir democratas, embora presidente seduza redutos de desempregados por desindustrialização

Beatriz Bulla, enviada especial / Winona, EUA , O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 23h48

O último comício de Donald Trump antes do diagnóstico da infecção por covid-19 durou apenas 45 minutos. “Incomumente curto”, descreveu a imprensa americana na quarta-feira à noite, logo após o ato e cerca de 24 horas antes do anúncio de que o presidente americano estava infectado. Minnesota, Estado onde Trump fez sua última aparição a 3 mil eleitores antes de adoecer, é das únicas apostas da campanha republicana para tentar expandir o mapa eleitoral e compensar as perdas previstas para democratas. 

 Depois de ganhar em 30 dos 50 Estados em 2016, Trump está na defensiva, sob o risco de perder lugares tipicamente republicanos, como Geórgia, e lugares no Meio-Oeste, crucial na última eleição. Com grande população branca e rural, Minnesota era um dos poucos novos terrenos para os republicanos, depois de viradas surpreendentes em Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin na última eleição. 

 Por isso, Trump investiu em comícios no Estado. Afastado da campanha em razão da covid, ele precisou cancelar as já previstas viagens à Flórida, Wisconsin e a que começaria amanhã no Arizona, todos Estados cruciais na disputa. 

 Na pequena cidade de Winona, em Minnesota, moradores ainda se surpreendem que a maioria tenha votado no presidente e o Estado, tradicionalmente democrata, ainda seja alvo da campanha republicana neste ano. Priscila Colby, de 70 anos, gera uma comoção no jantar com amigas, quando conta que votou em Donald Trump em 2016. “Você votou nele de verdade? E eu nunca soube?”, pergunta Marie Schueler, de 73 anos. 

Minnesota esteve fora de alcance nas últimas décadas. A última vez que um republicano ganhou ali foi em 1972, com Richard NixonRonald Reagan chegou perto em 1984. “Quem não votaria em Reagan? Até eu votei nele. Mas em Trump, nunca. E eu sei que ele quer muito ganhar aqui”, afirma Marie, aposentada.

Diante das críticas da amiga, Priscila Colby afasta um pouco a cadeira de ferro da mesa onde está sentada, em frente a um café, e pede para continuar a entrevista ao Estadão em voz baixa, longe das demais. “Nem consigo ouvir Trump falando na TV. Ele não é inteligente, não fala bem, não é um bom político, mas eu não estava preparada para votar em uma mulher em 2016”, afirma. 

Em 2020, ela diz que o problema da chapa democrata é a idade de Joe Biden (77 anos) e o que ela define como um “incômodo com Kamala Harris” – a vice. “Tenho medo de Biden estar mal de saúde e, como não gosto de Kamala, votarei em Trump”, afirmou, antes que o presidente adoecesse.

Parte da campanha republicana foca em ataques à idade de Joe Biden, com argumento de que ele está senil. Sobre Kamala, Priscila diz que “não sabe explicar” o motivo pelo qual não se identifica com ela, a primeira mulher negra a concorrer como vice por um grande partido. “Tenho questões sobre a experiência dela, mas não sei falar especificidades.”

Em Winona, 93,7% dos habitantes são brancos e só 6% das casas falam outro idioma além do inglês. No país todo, uma em cada cinco famílias fala outra língua. 

Tendência.

Minnesota se manteve democrata em 2016, mas menos do que em anos anteriores, o que alimentou esperanças de Donald Trump – Hillary Clinton venceu no Estado por aproximadamente 44 mil votos (vantagem de 1,5 ponto porcentual). 

Desde que chegou à Casa Branca, Trump repete que esteve perto de vencer no Estado e tem feito disso uma missão. “Com um discurso a mais...”, costuma dizer Trump, ao repetir que poderia ter conquistado os dez delegados de Minnesota no colégio eleitoral. 

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O que parecia só um desejo ganhou contorno mais possível em agosto, quando ele ficou apenas 4 pontos porcentuais atrás de Biden nas pesquisas. Mas levantamentos recentes mostram o democrata mais distante, com 53,4% das intenções de voto, em média – Trump tem 45,1%. “Não tem como eu estar nove pontos atrás”, disse o presidente, desafiando as pesquisas, na semana passada. 

Em Minnesota, o nome oficial do Partido Democrata é Partido Democrático-Agricultor-Trabalhista, sempre ligado aos movimentos rurais. Mas os republicanos vêm ganhando terreno longe dos grandes centros. O sudeste e o nordeste do Estado se tornaram mais conservadores. 

No sudeste, Winona é um dos condados que votou em Trump em 2016 depois de dar vitórias expressivas aos democratas nos anos anteriores. Já no Norte, a região de mineração conhecida como “Cordilheira de Ferro”, quase na fronteira com o Canadá, é símbolo dos sindicatos que apoiavam os democratas, mas que agora são eleitores de Trump.

A região que abarca as duas cidades e os subúrbios é a área mais populosa do Estado e um reduto democrata. Neste ano, Minneapolis virou ainda epicentro do movimento antirracismo, que é crítico a Trump, depois que um policial branco asfixiou o ex-segurança negro George Floyd.

Puxado pelos centros urbanos, Minnesota tem mais moradores com diploma universitário do que a média nacional. Nas áreas rurais e em cidades afastadas, porém, a taxa de diplomados cai. O Estado vive o choque que caracteriza os EUA. Enquanto o campo se torna mais republicano, a área em torno de Minneapolis e Saint Paul se desloca mais para a esquerda. 

A região conhecida como “Cidades Gêmeas” é a área mais populosa do Estado e um reduto democrata. Neste ano, Minneapolis virou epicentro do movimento antirracismo, que é crítico a Donald Trump, depois que um policial branco asfixiou o ex-segurança negro George Floyd. 

No entanto, entre 2012 e 2016, segundo levantamento do Washington Post, as cidades foram as únicas que se moveram mais para a esquerda no campo político, enquanto o restante do Estado se tornou menos democrata. Winona é um dos condados que votou em Trump em 2016, depois de dar vitórias aos democratas nos anos anteriores. Mas os próprios moradores da cidade se espantam com a informação. “Sério? A maioria daqui votou mesmo em Trump em 2016?”, questiona o advogado Mike Bernatz. Em 2008, Barack Obama ganhou com 20 pontos de vantagem no condado de Winona. Em 2016, Trump venceu com 46% dos votos. 

Mike e a mulher, Denise Bernatz, jantavam em uma das mesas colocadas na rua principal da cidade, fechada para carros para que os restaurantes pudessem expandir o atendimento ao ar livre – medida adotada para evitar a propagação do coronavírus.

“Não tenho nada de positivo a falar sobre Trump e isso me assusta, porque vejo as pessoas que são apaixonadas por ele e não sei quando teremos novamente capacidade de dialogar uns com os outros”, afirma Denise, que trabalha em uma clínica de fisioterapia. “Um dia haverá um despertar. Essas pessoas perceberão como ele enfraqueceu nossas instituições. Eu entendo que possa haver descontentamento com os democratas ou com Obama, mas Biden é a única chance de unir o país”, afirma Mike.

Em uma das avenidas de Winona, uma loja de artigos trumpistas destoava das placas nos jardins das casas, majoritariamente em apoio a Biden. Sam Buchannan, de 23 anos, é o gerente. A loja foi montada em 29 de julho, conta Buchannan, que não usa máscara de proteção contra covid-19. Ele morava nos subúrbios das Cidades Gêmeas, mas perdeu o emprego e uma bolsa de estudos e aceitou morar e trabalhar na loja pró-Trump montada por um amigo. Segundo ele, há 29 lojas como essa. 

Usando um boné em defesa da Segunda Emenda – que assegura o direito a portar armas –, o jovem afirma que foi Obama quem “ferrou com a economia”. Ele se declara apoiador de Trump e faz uma defesa do porte de armas. “Eu tenho arma. Todos temos nas lojas. É o último recurso. Eu mostro para assustar quando é preciso. Recebo muito ódio aqui por ter uma loja a favor de Trump nessa cidade.” 

A volta às aulas na universidade estadual de Winona, em agosto, aumentou os casos de covid na cidade, que até então não havia sido atingida severamente. Biden voltou a ganhar força e abriu 9 pontos de média de vantagem de Trump, que parece ver distante o sonho de vencer no reduto democrata. 

O advogado Mike Bernatz aposta que crise deixará o Estado longe do alcance dos republicanos. “Tenho um cliente que era um trumpista fervoroso. Ele pegou covid-19, está fazendo um tratamento sério. Não sei se vai mudar de posicionamento, mas ele já tem uma avaliação mais moderada da política. Trump era visto aqui como o antissistema, mas não é mais.” 

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