Emily Michot/Miami Herald/TNS, via Getty Images
Emily Michot/Miami Herald/TNS, via Getty Images

Morte de Epstein traz de volta escândalo sexual envolvendo príncipe britânico

Palácio de Buckingham, que raramente comenta acusações de escândalo, negou repetidamente a história em 2015

Adam Taylor e Karla Adam* / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2019 | 05h00
Atualizado 14 de agosto de 2019 | 14h01

O Palácio de Buckingham nunca tentou explicar a fotografia. Ela mostra um príncipe Andrew, duque de York, de meia-idade, abraçando a cintura nua de Virginia Roberts, de 17 anos, que afirma ter sido paga pelo financista americano Jeffrey Epstein para fazer sexo com o príncipe.  

Atrás na foto está Ghislaine Maxwell, socialite britânica, namorada de Epstein e supostament cafetina a seu serviço. A foto teria sido tirada na casa de Ghislaine em Londres, em 2011.

A imagem gerou manchetes escandalosas contra a família real quando veio a público, em 2011, ao lado de sérias acusações de desregramento sexual de Andrew. Ele é irmão do príncipe Charles e oitavo na linha de sucessão ao trono britânico. Tabloides o chamam de “Randy Andy” (algo como Andy Fogoso). Ele nega ter tido relações com Virginia. 

Após a prisão de Epstein em 6 de julho, por acusações de tráfico sexual de menores na Flórida e Nova York, o escândalo antigo está de volta para perseguir Andrew. 

Com Epstein agora morto num suspeito suicídio, no sábado, e Ghislaine aparentemente fora do alcance dos investigadores e fugindo dos holofotes que antes adorava, o duque de York pode se tornar o maior figurão do que sobrou do círculo de Epstein. 

Na sexta-feira, com a liberação de novos documentos de um processo de difamação de Virginia contra Ghislaine, ressurgiram velhas acusações de comportamento inadequado da socialite. 

Nos documentos, Virginia Roberts, hoje Virginia Giuffre, diz que foi “traficada” para o príncipe Andrew, com o qual afirma ter feito sexo três vezes. Seus advogados dizem que planos de voo mostram ela, Ghislaine e Epstein voando para Londres no jatinho privado de Epstein. Segundo os advogados, a foto de Andrew, Giuffre e Ghislaine, incluída nos documentos, corrobora as acusações. 

“Não há explicação razoável para uma adolescente americana estar em companhia de adultos acima de sua classe social, na casa londrina de propriedade da namorada de um agora condenado agressor sexual”, disseram o advogados.

Nos documentos também há o testemunho de uma mulher chamada Johanna Sjobert, com acusações feitas em 2007 de que Andrew agarrou-a na casa de Epstein em Nova York quando ela tinha 21 anos.  

'Inverídico'

O Palácio de Buckingham, que raramente comenta acusações de escândalo, negou repetidamente a história em 2015. Um porta-voz do palácio disse ao Washington Post: “Trata-se de supostos acontecimentos nos EUA dos quais o duque de York não participou. Qualquer sugestão de impropriedade envolvendo menores é categoricamente inverídica”. 

Numa família em que as atenções nos últimos anos passaram para uma geração mais jovem, mais popular, a volta de acusações fortes contra um membro mais velho da realeza (Andrew tem 59 anos), cuja imagem já é manchada por uma vida romântica tumultuada e negócios não muito ortodoxos, não são nada agradáveis. No caso da amizade com Epstein, às vezes, as duas coisas se entrelaçaram. 

Uma foto de Epstein e Andrew flanando pelo Central Park, feita em 2010, mas publicada um ano depois, foi especialmente danosa para o príncipe. Epstein já era então um agressor sexual fichado. Meses depois, Andrew renunciou ao cargo de embaixador comercial do Reino Unido

Em 2001, o príncipe viajou com Epstein para a Tailândia, onde foi fotografado num iate com várias mulheres de topless.

A ex-mulher de Andrew, Sarah Ferguson, conhecida como Fergie, uma vez aceitou de Epstein o equivalente a US$ 18 mil para pagar dívidas. Mais tarde, ela diria que foi “um gigantesco erro de julgamento”. 

Na era do #MeToo, pode ser difícil para um homem poderoso acusado de impropriedade sexual livrar-se das acusações – mesmo sendo um príncipe. Alguns parlamentares britânicos já estão pedindo uma nova investigação sobre as ligações de Andrew com Epstein. 

“Estamos falando de tráfico de crianças”, disse Jess Phillips, do opositor Partido Trabalhista. “Isso é muito sério e as autoridades deveriam aprender com o passado a não ignorar acusações desse tipo.”

Já o jornalista britânico Christopher Wilson, biógrafo da realeza que passou décadas acompanhando a família real, disse que, mesmo que Andrew esteja profundamente implicado, não será preso nem processado. “A família real tem muito mais influência do que parece”, afirmou ele. “Aposto meu pescoço.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*São jornalistas

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