AFP PHOTO / Robyn Beck
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Republicanos e NRA cedem sobre controle de armas

Maior lobby dos EUA aceita discutir restrições à venda de acessório usado pelo atirador de Las Vegas que acelera velocidade dos disparos

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Las Vegas, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2017 | 16h15
Atualizado 05 Outubro 2017 | 21h36

Em uma concessão inédita, o poderoso lobby das armas nos EUA, representado pela Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês) concordou em discutir a regulamentação do acessório usado pelo atirador de Las Vegas para acelerar a velocidade de seus disparos, que mataram 58 pessoas no domingo. Na prática, o dispositivo transforma um fuzil semiautomático em uma metralhadora, cuja venda a civis é proibida.

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O assunto começou a ser discutido pelo Congresso nesta semana e parlamentares republicanos indicaram que estão dispostos a aprovar a restrição. Lojas online que vendem o dispositivo viram seus estoques se esgotar depois do início do debate. “Nossos servidores estão fora do ar em razão do elevado volume de tráfego”, disse a fabricante Bump Fire Systems em sua página no Facebook. O chamado “bump stock” é vendido legalmente e pode ser encontrado por US$ 100 (R$ 315).

“A NRA acredita que dispositivos desenhados para permitir fuzis semiautomáticos a funcionar como fuzis totalmente automáticos devem ser submetidos a regulamentações adicionais”, disse e entidade em nota. O posicionamento abre as portas para que parlamentares republicanos votem a favor da proposta. A instituição tem grande influência entre eleitores do partido e usa um sistema de avaliação de deputados e senadores de acordo com suas posições em relação a leis sobre o comércio e o uso de armas.

“Armas totalmente automáticas foram tornadas ilegais há muitos, muitos anos. Isso parece ser uma maneira de contornar isso, então obviamente nós precisamos ver como podemos endurecer a aplicação dessa lei”, disse o presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan. O uso civil de metralhadoras foi proibido em 1986, mas as fabricadas antes dessa data continuam no mercado, sujeitas a estrito controle.

Stephen Paddock, de 64 anos, equipou 12 de seus fuzis com o acessório. No total, ele tinha 23 armas no quarto de hotel e outras 24 em sua casa, a 130 km de Las Vegas. Em pouco mais de 9 minutos, Paddock matou 58 pessoas e feriu quase 500 durante um festival de música country. 

O atirador comprou 33 das 47 armas que possuía nos últimos 11 meses, sem que isso entrasse no radar das autoridades americanas. A maioria delas eram fuzis e as lojas não são obrigadas a reportar múltiplas compras desse tipo de armas. Além disso, não há um registro nacional de armas que permita ao FBI saber o número acumulado por pessoa. Os registros são estaduais e não interconectados.

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Dos 489 feridos, 317 receberam alta e 50 continuam internados em estado crítico. Quatro dias depois do ataque, os investigadores ainda não determinaram o que levou o aposentado de 64 anos a cometer o crime, planejado em detalhes. Anteontem, o xerife de Las Vegas, Joseph Lombardo, disse considerar improvável que Paddock não tenha recebido algum tipo de ajuda na preparação do ataque.

Sua namorada, Marilou Danley, voltou aos Estados Unidos na terça-feira e declarou que não tinha nenhum conhecimento prévio das intenções de Paddock. Antes do crime, ele enviou US$ 100 mil às Filipinas, onde Danley nasceu e onde estava no domingo.

Paddock reservou um quarto de hotel em Chicago em frente ao parque onde foi realizado o festival de música Lollapalooza, em agosto, mas acabou não se hospedando no local. Na semana passada, ele ficou em um hotel próximo do local em que foi realizado o festival Life is Beautiful, no centro de Las Vegas. Lombardo disse que Paddock pode ter pensando em atacar durante o evento ou tê-lo usado na preparação do que faria no domingo. 

 

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