EFE/EPA/ATEF SAFADI
EFE/EPA/ATEF SAFADI

O que sabemos sobre a tragédia que deixou ao menos 45 mortos em festival religioso de Israel

Estimativas indicam que cerca de 100.000 pessoas participavam do festival religioso no túmulo de um antigo rabino no Monte Meron

Marc Santora and Isabel Kershner, The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2021 | 15h00

Na manhã seguinte à debandada mortal que deixou pelo menos 45 pessoas mortas e 150 feridos numa montanha no norte de Israel, autoridades investigam nesta sexta-feira, 30, como uma alegre cerimônia religiosa se transformou num dos desastres civis mais mortais da história da nação.

Segundo estimativas, cerca de 100.000 pessoas participavam do festival religioso no túmulo de um antigo rabino no Monte Meron. No local do tradicional evento, os judeus ultraortodoxos celebravam em torno de fogueiras gigantescas que iluminavam o céu noturno nos confins do norte do país.

Foi a maior reunião religiosa desde o início da pandemia do coronavírus e foi aprovada pelas autoridades, apesar das preocupações de que pudesse ser foco de um novo surto da doença.

Mas o que era para ser uma noite de oração e dança acabou tornou-se um caos, por volta da 1h, quando milhares de pessoas se viram encurraladas.

Testemunhas descreveram como desesperadora a cena de quando a avalanche de pessoas surgiu, com adultos e crianças presos na multidão.

Na manhã desta sexta, quando corpos das vítimas, envoltos em sacos, foram enfileirados no chão, e os grandes chapéus pretos usados por alguns judeus ortodoxos ficaram visíveis, houve muitas perguntas sobre o que causou a tragédia.

Eis o que sabemos.

O que causou a debandada?

O momento exato em que o evento superlotado se transformou numa luta desesperada pela sobrevivência está sob investigação das autoridades.

Segundo relatos de testemunhas, vídeos do evento e declarações preliminares das autoridades sanitárias, o fluxo de pessoas através das ruelas estreitas em torno do palco principal onde uma fogueira foi acesa e milhares  dançaram e rezaram durante parte da noite ficou congestionado por volta da 1h.

Rapidamente, a situação tornou-se desesperadora.

"Aconteceu numa fracção de segundo; as pessoas caíram, atropelando umas às outras. Foi um desastre", disse uma testemunha ao jornal Haaretz.

A situação agravou-se rapidamente, à medida que as pessoas se empilhavam umas sobre as outras em uma passagem estreita com uma rampa de metal. Um dos feridos, Chaim Vertheimer disse que o chão estava escorregadio devido ao derramamento de água e suco de uva.

"Por alguma razão, houve uma pressão repentina neste ponto e as pessoas pararam, mas mais pessoas continuaram a descida", disse o Sr. Vertheimer ao noticiário israelita Ynet, falando da sua cama de hospital na cidade sagrada de Safed.

 "As pessoas não estavam conseguindo respirar. Lembro-me de centenas de pessoas gritando: 'Não consigo respirar'".

Vídeos mostraram a equipe de resgate tentando desesperadamente derrubar as barreiras metálicas enquanto lutavam para chegar às vítimas. Zaki Heller, porta-voz do serviço de salvamento Magen David Adom, disse que 150 pessoas tinham sido hospitalizadas, várias em estado crítico.

Heller disse à Rádio do Exército de Israel que "nunca ninguém tinha sonhado" que algo como isto poderia acontecer. "Num momento, passámos de um acontecimento feliz para uma tragédia imensa", disse ele.

Duas testemunhas diferentes disseram ao jornal Haaretz que uma barricada policial impediu a saída de pessoas e causou a superlotação. Imagens televisivas também mostraram que uma porta lateral na passagem tinha sido fechada à chave.

Hoje pela manhã, o Ministério da Justiça disse que um departamento de investigações internas da polícia deu início à apuração da possível má conduta policial.

Como foi permitida uma reunião com tanta gente durante a pandemia?

A festa no Monte Meron foi proibida no ano passado por causa das restrições impostas pelas autoridades para evitar a propagação do coronavírus.

Na época, quando religiosos se reuniram para celebrar neste mesmo local, as autoridades israelenses prenderam mais de 300 pessoas que ignoraram os postos de controle da polícia.

Alguns atiraram pedras e outros objetos nos policiais que tentaram controlar a multidão.

A rápida campanha de vacinação em curso no país e a queda nas taxas de infecção permitiu que a festividade fosse realizada, após ter sido cancelada em 2020. No início deste mês, Israel suspendeu a obrigatoriedade do uso de máscara ao ar livre e reabriu completamente as escolas pela primeira vez desde setembro.

Cerca de 56% da população do país tinha sido totalmente vacinada contra a covid-19 até quinta-feira, de acordo com levantamento do New York Times.

Nesse contexto, a peregrinação foi realizada este ano, apesar das recomendações dos oficiais de saúde de que o evento poderia gerar um novo surdo da doença — um perigo agravado pelo fato de algumas comunidades ultraortodoxas terem hesitado em ser vacinadas.

Um porta-voz da polícia disse à imprensa israelense que a capacidade de lotação no Monte Meron era semelhante à dos anos anteriores, mas que desta vez as áreas de fogueira foram separadas como medida de precaução contra a disseminação da covid-19.

Os líderes religiosos sugeriram que essas precauções podem ser parcialmente responsáveis pela tragédia.

Na quinta-feira, antes do desastre, a polícia disse ter prendido duas pessoas por perturbarem os esforços dos oficiais em manter a ordem no local. Mas a multidão era tão vasta, disse a polícia, que não poderiam obrigar as pessoas a obedecer às restrições necessárias.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que viajou para o local nesta sexta, prometeu uma "investigação minuciosa" do caso.

"O desastre do Monte Meron é um dos piores que se abateu sobre o Estado de Israel", escreveu ele no Twitter. "O que aconteceu aqui é de partir o coração. Havia pessoas esmagadas até à morte, incluindo crianças. Muitas das pessoas que morreram ainda não foram identificadas".

Havia avisos sobre riscos de segurança?

Por mais de uma década, houve a preocupação de que o complexo do Monte Meron não estivesse suficientemente equipado para receber dezenas de milhares de peregrinos.

Em 2008 e 2011, Micha Lindenstraus, então controladora do estado, publicou relatórios que alertavam para o potencial de desastre no local.

O próprio complexo inclui vários grandes campos, que possuem arquibancadas e palcos conectados por uma série de becos e outros caminhos.

O relatório do controlador de 2008 observou que "todas as adições e alterações de construção feitas no local da tumba em homenagem ao rabino Shimon bar Yochai e ao redor dela foram feitas sem a aprovação dos comitês de planejamento e construção locais e distritais".

“Não há motivos para permitir que a situação atual continue”, dizia um relatório.

Na época, a controladoria disse que um perigo especial era representado pelas estradas e caminhos de acesso, que "são estreitos e inadequados para acomodar as centenas de milhares de pessoas que visitam o local."

Foi ao longo de um desses caminhos onde testemunhas disseram que começou a aglomeração de pessoas.

Por que milhares se reuniram no túmulo de um antigo rabino?

Todos os anos, dezenas de milhares de fiéis fazem uma peregrinação ao túmulo de um sábio do segundo século, o rabino Shimon Bar Yochai, nas encostas do Monte Meron, no norte de Israel.

O rabino foi dos primeiros a ensinar publicamente a dimensão mística da Torá conhecida como a cabala. O feriado, Lag b'Omer, apresenta a iluminação de fogueiras para representar a luz espiritual que pode ser encontrada dentro dos ensinamentos místicos da Torá.

O feriado está também ligado à tradição judaica da revolta liderada pelo Bar Kokhba contra os Romanos no século II d.C.

Enquanto a festa é marcada pelos fiéis de todo o mundo, os peregrinos viajam para o Monte Meron na esperança de receberem as bênçãos do rabino no aniversário da sua morte. / NYT

 

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