Ruth Fremson/The New York Times
Ruth Fremson/The New York Times

Cenário: O retorno agridoce de Hillary Clinton à Convenção Nacional Democrata

Se as coisas tivessem acontecido de maneira diferente, Clinton estaria preparando seu segundo discurso de aceitação

Lisa Lerer e Glenn Thrush / The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2020 | 20h29

NOVA YORK - Hillary Clinton, cuja candidatura presidencial de 2016 atropelou Joe Biden, passou boa parte das primárias de 2020 dizendo a amigos que seu antigo aliado e rival na ocasião era o único candidato que poderia derrotar o presidente Donald Trump, de acordo com pessoas próximas a ambos.

Mas ela também via Kamala Harris como um tipo de sucessora, uma líder da próxima geração, com a firmeza necessária para continuar seu legado.

Então, ao que tudo indica, Hillary se tranquilizou ao saber da chapa Biden-Harris. Mas seu retorno ao centro da convenção, na noite desta quarta-feira, 19, quatro anos depois de se tornar a primeira mulher a vencer as primárias de um grande partido, é agridoce.

Se as coisas tivessem acontecido de maneira diferente, Hillary estaria preparando seu segundo discurso de aceitação. Mas, em vez disso, ela passou os últimos dias dando os retoques finais em um discurso que tem como objetivo promover Biden e Harris.

É uma função bem conhecida para a ex-secretária de Estado. Durante décadas, ela falou em nome de seu marido, Bill. Depois, ajudou a eleger Barack Obama. Ao longo de seus muitos anos no núcleo do Partido Democrata, fez campanha para centenas de candidatos federais, estaduais e locais.

Ainda assim, o momento é especialmente sentimental para Hillary e as dezenas de milhões que a impulsionaram para vencer nos votos populares por quase 3 milhões de votos em 2016, mas perder no Colégio Eleitoral. Relembra tanto o cargo que alguns aliados ainda dizem que foi injustamente tirado dela, quanto a onda de ativismo feminista desencadeada por sua derrota.

A ex-secretária de Estado planeja se remeter a esse sentimento, relatando como, nos dias que se seguiram à sua derrota, ela foi repetidas vezes confrontada por democratas desesperados que lhe apresentavam todos os “você poderia ter feito isso, deveria ter feito aquilo”, disse uma pessoa familiarizada com suas observações.

Hillary, que falará de sua conhecida sala de estar em Chappaqua, vê seu retorno aos holofotes como uma oportunidade para embalar o poderoso movimento feminista que surgiu de sua derrota e expulsar Trump da presidência.

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A última vez em que ela discursou em uma convenção democrata foi no dia 26 de julho de 2016, na arena de hóquei da Filadélfia. Ela aceitou a indicação vestida de terninho branco, uma homenagem ao uniforme informal do movimento das sufragistas. Foi um dos pontos altos de sua campanha, dizem ex-assessores, depois de décadas de trabalho árduo, ataques brutais e polêmicas.

“Eu me lembro de que fiquei sem fôlego vendo a votação nominal, com medo de que alguma coisa arrancasse esse momento das mãos dela. Fiquei muito aliviada quando vi que não foi isso o que aconteceu”, recordou Amanda Litman, uma estrategista política que trabalhou na campanha de Hillary. “Foi o momento mais celebrado que já vivi.”

Ela acrescentou: “Também foi uma prova bastante significativa de que nem mesmo uma convenção muito boa consegue influenciar o resultado da eleição”.

Mas, mesmo naquele momento, já havia sinais de perigo.

Vaias na covenção de seu próprio partido

O discurso de Hillary fora precedido por um momento nauseante, pois apoiadores de Bernie Sanders começaram a vaiar quando ela se aproximou do pódio, uma vaia rapidamente abafada por gritos de “Hillary!”.

As cicatrizes de 2016 não foram totalmente curadas, especialmente quando se trata da investigação do FBI sobre suas contas de email, reaberta publicamente por James Comey, diretor do FBI, apenas onze dias antes da eleição.

Na terça-feira, Hillary postou um gif dela mesma fazendo cara de desdém em resposta a um tuíte de Comey que dizia: “A 19ª emenda faz um aniversário importante, mas votar não é suficiente. Precisamos de mais mulheres no poder. A VP e a governadora da Virgínia são bons próximos passos”.

O retorno de Hillary à convenção será saudado por seus muitos milhões de apoiadores. Mas haverá muitos intrusos também – provavelmente liderados por Trump, que tentou, sem muito sucesso, encontrar mais uma cunha que provocasse uma cisão entre os conservadores.

Hillary continua sendo uma figura que gera controvérsias dentro de seu partido: alguns a culpam pela derrota dos democratas, outros a consideram vítima de um sistema político misógino.

Ela está tentando não ser definida por seus inimigos – à direita ou à esquerda. O discurso de Hillary se concentrará em elogiar Biden e Harris e também em enterrar Trump, disseram pessoas próximas a ela. Espera-se que ela faça um testemunho contundente sobre o fato de Harris ser a primeira mulher negra na chapa presidencial de um grande partido.

Ela também vai falar sobre aquilo que vê como um fio condutor entre Biden, Harris e ela própria: suas mães fortes. Clinton nunca se esqueceu das tentativas que Biden fez de consolá-la depois da morte de sua mãe, Dorothy, em 2011, aos 92 anos.

Hillary retribuiu o favor e estendeu a mão para Biden quando seu filho Beau soube que tinha câncer cerebral em fase terminal, em 2013.

Depois de considerar uma terceira corrida presidencial no início de 2019, Hillary ofereceu apoio pessoal a Biden, sem endossá-lo publicamente, e telefonou para o ex-vice-presidente em várias ocasiões para dar conselhos e incentivo, disseram dois democratas próximos a esses acontecimentos.

“Hillary Clinton realmente gosta de Joe Biden, sempre gostou”, disse Thomas R. Nides, um apoiador de Biden que trabalhou como subsecretário de Estado para Hillary de 2011 a 2013. “É uma coisa verdadeira, não é política. Ela realmente gosta dele como ser humano, e o sentimento é mútuo."

Durante o primeiro mandato de Obama, Biden e Hillary tinham o compromisso permanente de tomar um café da manhã a cada duas semanas na residência do vice-presidente no Observatório Naval. Mas a relação se estremeceu no segundo mandato, quando ficou claro para Biden que o presidente via Hillary como sua legítima sucessora.

Biden ficou furioso, e dois de seus principais assessores, Mike Donilon e Steve Ricchetti, redigiram um memorando para destacar seus pontos fortes como candidato, argumentando que as percepções negativas a respeito de Hillary faziam dela uma candidata profundamente vulnerável.

A morte de Beau Biden em meados de 2015 encerrou efetivamente as aspirações de Biden naquele ciclo. Mas ele nunca deixou de afirmar que poderia ter derrotado Trump.

Biden fez uma campanha vigorosa a favor de Hillary, mas a amarga experiência de ser obrigado a renunciar ajudou a alimentar sua vontade de concorrer mais uma vez, disseram assessores.

Mais do que tudo, Hillary está assumindo o papel de pioneira que definiu sua carreira, uma versão atualizada da mensagem “nunca desista” que ela bradou no discurso mais admirado que já proferiu, o discurso do “teto de vidro” que marcou sua retirada das primárias democratas de 2008.

Durante sua última campanha, Hillary esperava chegar à presidência com o apoio de um levante feminista. O fato de o movimento que ela queria despertar ter crescido a partir de sua derrota marca mais uma reviravolta em uma carreira cheia de altos e baixos.

Na era Trump, as mulheres se mobilizaram em torno do Partido Democrata, doando, voluntariando-se e concorrendo a cargos em números recordes. O apoio das mulheres suburbanas ajudou os democratas a ganhar o controle da Câmara em 2018, inverter as legislaturas estaduais e impulsionar a indicação de Biden.

Hillary segue contando com um eleitorado leal de apoiadoras. Até o outono de 2019, ela ainda estava pensando em uma terceira candidatura à presidência, pois não havia aparecido nenhum candidato de verdade na disputa das primárias.

Apesar de se apresentar como uma defensora das mulheres na política, ela se recusou a endossar e até mesmo a apontar sutilmente para uma possível herdeira dentro do diversificado grupo de mulheres que concorriam à presidência.

Quando Hillary enfim se manifestou, acabou gerando polêmica. Uma crítica a Sanders durante o lançamento de um documentário sobre ela suscitou temores de que Hillary estivesse reacendendo as cisões internas do partido. E sua sugestão de que forças russas estariam favorecendo Tulsi Gabbard, deputada pelo Havaí, ajudou Gabbard a estender seu tempo sob os holofotes nacionais.

Mas muitos dos apoiadores de Hillary veem o discurso desta noite como uma oportunidade para ela transferir seu legado a outra pessoa – não a Biden, mas a Harris.

“Ela está passando a tocha para a geração de Kamala Harris. É isto que deixa tudo mais empolgante”, disse Litman, agora diretora executiva da Run for Something, que incentiva jovens democratas a concorrer a cargos políticos. “Não apenas para Kamala Harris, mas para toda uma geração de mulheres que virão na sequência, que poderão fazer isso porque Hillary Clinton foi a primeira.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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