Natalia KOLESNIKOVA / AFP
Natalia KOLESNIKOVA / AFP

ONG Memorial: documentando a repressão de Stalin a Putin; leia o perfil

Organização foi alvo da repressão do Kremlin e agora teve seu fechamento ordenado pela Suprema Corte russa

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2021 | 12h38

MOSCOU - A emblemática ONG Memorial documentou durante três décadas os expurgos da era stalinista e depois a repressão da Rússia contemporânea de Vladimir Putin, da qual acabou sendo vítima. 

A Suprema Corte russa ordenou nesta terça-feira, 28, a dissolução da Memorial por violar uma lei sobre "agentes estrangeiros", uma decisão que a ONG qualifica como política. 

A liquidação pode ser o golpe de misericórdia para a organização que se tornou um símbolo da democratização dos anos 1990 e o episódio final de um ano de 2021 marcado pela repressão do Kremlin contra seus críticos. 

Durante sua existência, a Memorial não parou de chamar a atenção das autoridades, ganhando a inimizade de muitas autoridades e sendo vítima das represálias que incluem até mesmo um assassinato. 

Fundada em 1989 por dissidentes soviéticos, incluindo o ganhador do Prêmio Nobel da Paz Andrei Sakharov, a organização é respeitada por suas investigações rigorosas, dos crimes stalinistas a abusos na Chechênia.

Em 2009, o Parlamento Europeu concedeu o Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, em homenagem ao seu renomado cofundador. 

 

Em um de seus últimos trabalhos, em março, a ONG identificou e denunciou paramilitares da organização "Wagner" por crimes de guerra na Síria. Os críticos e os países ocidentais afirmam que este grupo atua em nome do Kremlin. 

Paralelamente, a Memorial também elaborou uma lista de presos políticos aos quais ofereceu assistência, além de migrantes e pessoas de minorias sexuais.

 

Reconhecimento

Foi especialmente seu trabalho na Chechênia, república russa no Cáucaso e cenário de duas guerras, que tornou a ONG conhecida no Ocidente, onde possui grande prestígio. 

Nos conflitos das décadas de 1990 e 2000, os colaboradores da Memorial documentaram abusos cometidos por soldados russos e seus reforços locais. "O poder sempre odiou isso", disse à France Press a historiadora Irina Shcherbakova, uma das fundadoras da organização. 

Em 2009, a diretora da ONG na Chechênia, Natalia Estemirova, foi sequestrada em plena luz do dia e baleada na cabeça em Grozny. Culpado por este assassinato, o líder autoritário checheno Ramzan Kadyrov acusou os membros da Memorial de serem "inimigos do povo". 

Em 2018, a organização se retirou desta região devido à condenação de um diretor local em um caso de drogas que denunciam como armação.

Antes da fundação

Os fundadores afirmam que a Memorial iniciou suas atividades antes de sua criação oficial em 1989, com o objetivo de revelar os nomes e lembrar as milhões de vítimas esquecidas da repressão soviética. 

Nas décadas de 1960 e 1970, militantes dissidentes começaram a coletar secretamente informações sobre esses crimes. Com a abertura promovida por Mikhail Gorbachev na reta final da URSS, eles passaram a atuar sem se esconder. "A Memorial é herdeira de um movimento e, depois, de uma organização que não parava de gritar em alto e bom som que seria muito perigoso se a memória da ditadura desaparecesse da consciência coletiva", resumiu Shcherbakova. 

Com a chegada de Putin ao poder em 2000, a tarefa se complicou porque o Kremlin passou a defender uma interpretação histórica que destaca o poder russo e minimiza os crimes soviéticos. 

Em 9 de dezembro, Putin criticou seu trabalho, argumentando que os colaboradores nazistas foram classificados pela Memorial como vítimas do stalinismo. A Memorial respondeu que foi um erro pontual, corrigido posteriormente em seu banco de dados de três milhões de nomes. / AFP

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