EFE/EPA/ALEXANDROS VLACHOS
EFE/EPA/ALEXANDROS VLACHOS

Perfil: De alvo de chacotas a premiê da Grécia

Kyriakos Mitsotakis tem desafio de transformar a direita grega num partido liberal clássico

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2019 | 22h08

Subestimar Kyriakos Mitsotakis tem sido quase um esporte nacional na Grécia. Seus detratores o chamam de Koulis – diminutivo de seu nome comumente destinado a crianças, pronunciando-o de modo a imitar a língua levemente presa do novo primeiro-ministro. Eleito no domingo, em uma vitória incontestável, agora é Mitsotakis quem tem motivos para dar risada. 

Sua ascensão ao cargo é uma evidência de sua tenacidade e das mudanças radicais que o sistema político do país viveu numa década de penúria financeira e reacomodação de alianças. É também uma ressurreição impressionante de um partido do status quo, num momento em que a centro-direita europeia tem tido dificuldades para formar coalizões e vencer eleições. 

Filho mais novo do ex-primeiro-ministro Konstantinos Mitsotakis, Kyriakos terá a missão de convencer uma grande parcela da população grega de que ele está à altura de liderar uma nação cansada de dificuldades para tempos melhores. 

Ele tomou posse nesta segunda-feira, após nomear um gabinete que reflete o equilíbrio entre a facção mais liberal do partido, que sugeriu Nikos Dendias para a chancelaria, e a mais linha dura da legenda, que indicou Nikos Panagiotopoulos para o Ministério da Defesa, em um momento em que as relações com a Turquia têm ficado mais tensas. 

Além disso, o novo premiê escolheu para duas secretarias dois representantes da área mais à direita do partido e convidou um dissidente da centro-esquerda para o Ministério do Interior. No total, a equipe tem 49 ministros, com 5 mulheres. 

Seu maior desafio, no entanto, será superar a desconfiança que parte da população tem dele. Não deve ser fácil. 

“Ele tem a inteligência de uma criança de 5 anos”, reclamou um grupo de jovens em um café da cidade de Veroia, após um comício de Mitsotakis. Questionados sobre o por quê da implicância, não souberam responder com objetividade. “Você já viu como ele mexe as sobrancelhas?”

O fato de vir de uma família de políticos, ao mesmo tempo, ajuda e atrapalha o novo primeiro-ministro. 

Mitsotakis enfrentou uma forte oposição interna até se tornar líder do Nova Democracia, há três anos e meio. Entre suas posições, está a defesa da iniciativa privada, de direitos LGBT e uma atitude em favor da imigração. Ele superou a velha guarda do partido, com posições antigay, pró-religião e mais favorável a uma política intervencionista sobre liberdades individuais. 

Nos últimos anos, o Nova Democracia dependeu também de Mitsotakis. As visões racistas, populistas e até antissemitas da velha guarda do partido tornaram-se um problema e o novo premiê tornou-se alguém capaz de reformar a legenda. 

Pode jogar contra isso o estilo pessoal de Mitsotakis. Numa terra de “machos” da política, ele atrai criticismo por usar pulseiras e tomar chá verde, o que faz alguns de seus colegas virarem os olhos com enfado. 

Apesar disso, o eleitorado grego – cansado de dez anos de desemprego, baixos salários, reformas no sistema previdenciário, cortes em serviços púbicos e de ser tratado com desprezo pelo restante da Europa – resolveu dar-lhe uma chance. “Ele é a nossa melhor esperança para o futuro”, disse Irini Zoe Mastrothymiou, militante do partido de 35 anos. “É até fácil gostar dele.” / NYT

 

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