Carol Valentine/AP
Carol Valentine/AP

Plantações ilegais de maconha secam mananciais nos Estados Unidos

Mesmo com legalização do uso recreativo da cannabis, em alguns Estados há hoje mais lavouras clandestinas do que legalizadas; roubo de água põe moradores locais em risco

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2021 | 13h27

LA PINE, OREGON - Produtores ilegais de maconha estão tirando água de fontes que estão secando no noroeste dos Estados Unidos. A proliferação de fazendas irregulares de planta, que é legalizada em alguns Estados americanos, tem colocado em risco muitos moradores. 

Em 1972, Jack Dwyer se mudou para um local paradisíaco, repleto de árvores no Oregon e com um riacho que corria ao lado de sua propriedade. “Íamos cultivar nossa própria comida. Íamos cultivar orgânicos ”, disse. Ao longo das décadas,  ele e sua família fizeram exatamente isso. No entanto, o reservatório Deer Creek passou a secar depois que muitos produtores ilegais de maconha começaram a roubar água dos riachos e aquíferos da região.

Na Califórnia, que legalizou o uso recreativo da maconha em 2016, hoje existem mais fazendas ilegais de cannabis do que licenciadas, de acordo com o Cannabis Research Center, da Universidade da Califórnia“Como o pico da demanda de água por cannabis ocorre na estação seca, quando o fluxo dos rios está em seus níveis mais baixos, mesmo pequenos desvios podem secar os mananciais e prejudicar as plantas e animais aquáticos”, apontou um estudo do órgão.

Autoridade algumas regiões estão reagindo. O Conselho de Supervisores do Condado de Siskiyou, na Califórnia, proibiu em maio que caminhões transportando 100 galões ou mais de água usassem estradas que levavam a áreas áridas onde cerca de 2 mil plantações ilegais de maconha estariam usando milhões de litros de água diariamente.

Os cultivos ilegais estão “esgotando os preciosos recursos hídricos subterrâneos e superficiais” e colocando em risco o uso de água para fins agrícolas, recreativos e residenciais, apontou o decreto emitido pelas autoridades do condado.

No Oregon, o número de cultivos ilegais aumentou na medida em que o noroeste do Pacífico enfrentou sua primavera mais seca desde 1924.

Muitos produtores irregulares trabalham alegando que cultivam cânhamo, legalizados nacionalmente desde 2018, disse Mark Pettinger, porta-voz da Comissão de Licores e Cannabis do Oregon. Segundo a lei, o teor máximo de THC do cânhamo - o composto ativo da cannabis - não deve ser superior a 0,3%. As fibras da planta do cânhamo são usadas na fabricação de cordas, roupas, papel e muitos outros produtos.

Segundo Pettinger, nenhuma nova propriedade foi licenciada para cultivar maconha recreativa recentemente. Os reguladores das plantações, confrontados em 2019 por um acúmulo de pedidos de licença e um excesso de maconha regulamentada, pararam de processar novas solicitações até janeiro do ano que vem.

 O xerife do condado de Josephine, Dave Daniel, disse acreditar que existem centenas de cultivos ilegais em seu condado do sul do Oregon, muitos custeados por dinheiro estrangeiro. Ele afirmou que os financiadores sabem que perderão lavouras, mas uma grande quantidade  será colhida e vendida no mercado paralelo fora do Oregon.

De acordo com Daniel, os cultivos ilegais tiveram consequências “catastróficas” para os recursos hídricos. Vários riachos secaram muito antes do normal e o nível do lençol freático cai a cada dia. “É apenas um roubo flagrante de água”, disse.

No mês passado, Daniel e deputados locais, com o apoio da polícia, destruíram 72 mil pés de maconha cultivados em 400 estufas precárias e baratas, chamadas de "hoop houses". A água para irrigar as plantas vinha de um sistema improvisado e ilícito de bombas e mangueiras do vizinho Illinois River, protegido pelo Wild and Scenic Rivers System,  uma lei aprovada pelo Congresso em 1968, que tem o objetivo de preservar rios importantes por seus valores naturais, culturais e recreativos.

Daniel contou ainda de um outro cultivo ilegal, que tinha 200 mil plantas, que tirava água do Deer Creek usando bombas e canos. Ele a chamou de "uma das coisas mais horrorosas que já vi". “Na verdade, eles cavaram buracos tão profundos que o Deer Creek secou e eles chegaram ao lençol freático”, disse o xerife.

Moradores temem que água nunca mais volte

De seu lado, Dwyer tem direito de tirar água do Deer Creek, perto da comunidade de Selma. De acordo com ele, o riacho do lado de sua propriedade seca no final do ano, mas nunca ocorreu de ele ficar da forma que está, muito menos nesta época. O leito do riacho é agora uma avenida de pedras cercada por arbustos e árvores.

Ao longo das décadas, Dwyer criou uma infraestrutura com canos submersos, uma dúzia de torneiras e um sistema de irrigação conectado ao riacho para cultivar vegetais e proteger sua casa contra incêndios florestais. Ele usa um velho poço para água doméstica, mas já não sabe quanto tempo isso vai durar. “Só não sei o que farei se não tiver água”, disse o professor aposentado de 75 anos.

A maconha é cultivada há décadas no sul do Oregon, mas a recente explosão de enormes plantações ilegais assustou os moradores.

O Distrito de Conservação de Água e Solo de Illinois Valley, onde Dwyer mora, realizou duas palestras sobre o assunto recentemente. O roubo de água era a principal preocupação, disse Christopher Hall, o organizador comunitário do distrito de conservação.

“As pessoas de Illinois Valley estão enfrentando uma ameaça existencial pela primeira vez na história”, disse Hall.

No alto deserto do centro de Oregon, os cultivadores ilegais de maconha também estão canalizando o abastecimento de água que já está tão sobrecarregado que muitos agricultores, incluindo aqueles que produzem 60% da safra mundial de sementes de cenoura, estão enfrentando uma escassez de água nunca vista.

Em 2 de setembro, as autoridades do condado de Deschutes invadiram uma propriedade de 30 acres (12 hectares) em Alfalfa, a leste de Bend. Havia no local 49 estufas contendo quase 10 mil pés de maconha e dispunha de um complexo sistema de irrigação com várias cisternas, com capacidade para 20 mil litros. Os vizinhos disseram que o cultivo ilegal os forçou a perfurar um novo poço, contou o xerife Shane Nelson.

A área de Bend experimentou um boom populacional, pressionando o abastecimento de água. Os cultivos ilegais pioram a situação.

Em La Pine, ao sul de Bend, Rodger Jincks viu uma equipe perfurar um novo poço em sua propriedade. O primeiro sinal de que seu poço existente estava secando veio quando a pressão caiu enquanto ele regava seu gramado. O vizinho de Jincks, Jim Hooper, teme que seu poço possa ser o próximo. Ele reclama dos cultivos irregulares de maconha.

“Eles estão apenas roubando a água, o que está nos fazendo gastar milhares de dólares para perfurar novos poços mais profundamente", lamentou Hooper. / AP

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