REUTERS/Enrique Calvo
REUTERS/Enrique Calvo

Plebiscito sobre independência catalã põe em xeque estabilidade da Espanha

Após meses de ameaças e prisões, autoridades da Catalunha pretendem realizar consulta sobre secessão do território, que responde por 30% das exportações e um quinto do PIB espanhol

Andrei Netto, enviado especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2017 | 05h00

BARCELONA - A unidade territorial da Espanha enfrenta neste domingo, 1.º, um dos mais dramáticos desafios de sua história: o plebiscito sobre a independência da Catalunha. Após meses de ameaças, multas, operações de polícia e prisões, as autoridades catalãs pretendem realizar uma consulta popular sobre a secessão do território de 7,5 milhões de habitantes e responde por um quinto do PIB espanhol. 

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Indiferentes à ilegalidade da votação, decretada pelo Tribunal Constitucional de Madri, milhões de cidadãos festejam o sonho de soberania e esperam a independência. O plebiscito será realizado no momento em que pesquisas, nos últimos dez anos, mostram o ápice do sentimento independentista na Catalunha. Duas recentes sondagens indicam que, em razão do abstencionismo dos “unionistas” – os que não desejam a secessão –, a taxa de participação deve ser de 60%. A tendência verificada há dez dias pelo Instituto Opinòmetre é de vitória do “sim”, com 44,1% dos votos. 

O “não”, que não fez campanha, teria 37,1% da preferência, enquanto brancos e nulos representariam 17,8%. As grandes linhas coincidem com as constatações do instituto Celeste-tel. Mas, nesta segunda pesquisa, a diferença de votos em favor dos separatistas foi mais ampla: 59,5% a 30,7%, além de 9,9% de brancos e nulos.

Qualquer que seja o resultado em favor do “sim”, a causa soberanista na Catalunha ganhará novo impulso, no momento em que a economia da Espanha ainda convalesce da crise de 2008. Com 17,6% de desempregados, o país é o segundo pior em nível de emprego da União Europeia, atrás apenas da Grécia. Sua dívida, de 99,4% do PIB, também é a segunda pior entre as grandes potências. 

A situação econômica é o pano de fundo do sentimento nacionalista na Catalunha. Na última semana, a reportagem do Estado viajou pelo interior da região e constatou que, muito além das divergências históricas e ainda vivas entre castelhanos e catalães, é a transferência de riquezas de Barcelona para Madri, somada ao nível de corrupção dos partidos espanhóis, a principal razão da vontade de secessão. 

Motor econômico da Espanha, a Catalunha responde por 16% da população e 20% do PIB, 30% das exportações e 50% das atividades com forte valor agregado – como artes, ciência e alta gastronomia. Ainda que elevado, seu nível de desemprego é 4% inferior ao patamar médio espanhol.

O maior incômodo são os 8% do PIB que seriam transferidos todos os anos de Barcelona para Madri – um montante que corresponde à diferença entre o que os catalães pagam de impostos e o que recebem do governo central. Sem surpresa, o movimento independentista tem o apoio de empresários e das classes alta e média, que consideram o imposto pago não como um dever de solidariedade, mas como um estímulo suplementar à corrupção espanhola.

Por essa razão, a figura do primeiro-ministro Mariano Rajoy, do Partido Popular, envolvido em escândalos de desvios de verbas, resume a ira. Para Monica Crusat, de 44 anos, moradora do bairro independentista de Gracia, em Barcelona, o descontentamento generalizado com o governo de Rajoy e com o PP é uma das razões do separatismo. 

“Vem desde José María Aznar. A impunidade em relação à corrupção de Estado e do PP é um problema muito grande”, conta. “Nunca fui independentista ou nacionalista, mas vou votar pelo ‘sim’, como muita gente que mudou de ideia nos últimos cinco anos. O discurso político na Espanha é tão precário que incentivou a causa independentista.” 

Outra razão de imensa insatisfação é estrutural: a monarquia espanhola. Em tempos de crise, a coroa herdada por Felipe VI do pai Juan Carlos é vista como um anacronismo pela população catalã, profundamente partidária da república. 

“Nós, catalães, somos muito mais republicanos. Seria justo pelo menos que todos os espanhóis votássemos sobre a coroa, mas isso não vai ocorrer”, lamenta Tomás Frea, estudante de 17 anos que não tem idade para votar, mas milita pela causa, ajuda na organização do plebiscito e participa dos frequentes protestos de rua. “A verdade é que nós, catalães e espanhóis, pensamos de formas muito diferentes.”

A diferença de mentalidades se reflete no dia a dia e vai desde questões políticas maiores, como a cassação pelo Tribunal Constitucional, em 2010, do estatuto autônomo que havia sido aprovado em 2006 – o que reduziu a autonomia da região – até causas como o peso da língua catalã nas escolas, no comércio e nos veículos de informação. 

“Não se trata de um movimento contra a Espanha, pois muitos de nós temos vínculos familiares com o país. Mas é um movimento contra o Estado espanhol e sua concepção de Estado-nação, pouco sensível ao plurilinguismo”, explica Josep María Munoz, diretor da revista literária catalã L’Avenç (“Em Frente”). “Na Espanha coabitam várias nações, dentre elas duas muito afirmadas, a basca e a catalã. E elas sempre resistiram à dominação.”

Para o cientista político Lluís Orriols, e professor da Universidade Carlos III, de Madri, a explosão do independentismo na Catalunha, em 2017, é o reflexo de anos de indiferença do mundo político com relação à silenciosa crise territorial da Espanha, que hoje ameaça sua integridade. “Um dos grandes problemas políticos dos últimos anos, como a crise territorial, não era parte das preocupações dos espanhóis”, diz o especialista. 

Segundo Orriols, apenas 1% da população de fora da Catalunha considerava o problema do independentismo concreto até julho. “O que esse dado quer dizer é que houve inação por parte dos atores políticos espanhóis, já que os partidos têm uma grande capacidade de estabelecer a agenda das preocupações da cidadania.” 

 

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