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Polarização e pandemia

Entre as democracias, o Brasil é o país cujo governo menos leva a sério a ameaça do coronavírus

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2020 | 03h00

Em seu livro As Causas da Guerra, de 1973, o historiador australiano Geoffrey Blainey observa que a maioria das guerras foi precedida de um traço comum: o otimismo. Em geral, se entra numa guerra quando se tem uma visão positiva a respeito da própria capacidade de melhorar o status perante outras nações. O contrário também é verdadeiro: o pessimismo torna os países mais propensos a negociar.

Isso tem acontecido na política interna da maioria dos países nos últimos meses. A pandemia de covid-19 representa para os governos do mundo inteiro o maior desafio de gestão desde a 2.ª Guerra. Há discordâncias sobre como lidar com o surto, mas elas não são politicamente exploradas, porque aqueles que fizerem isso serão julgados egoístas, mesquinhos e alienados. Nos EUA, um dos países mais polarizados do mundo, o governo não tem tido grande dificuldade de aprovar na Câmara dos Deputados, onde é minoria, suas propostas para conter a pandemia, depois de algumas alterações que representam concessões de ambas as partes.

Na Espanha e na Itália, a instabilidade causada pelas coalizões heterogêneas ou minoritárias deixou de ser uma questão. O feroz separatismo catalão hibernou. A oposição tem críticas, mas não dificulta o trabalho do governo. Na França, as manifestações e greves contra o governo reformista de Emmanuel Macron silenciaram. A Argentina, outro exemplo de polarização, está pacificamente concentrada em conter a proliferação da doença ao mesmo tempo em que mira no futuro imediato de sua combalida economia, negociando a reestruturação da dívida. 

O Chile adiou para outubro o plebiscito que faria hoje sobre a reforma da Constituição, a resposta do presidente Sebastián Piñera às manifestações do ano passado. Mais significativo ainda, o governo interino da Bolívia, acusado de golpe no início do ano, suspendeu as eleições que realizaria no dia 3 de maio, sem causar distúrbios. Desde setembro de 2019, Israel não conseguia formar governo. Foram três eleições. A pandemia levou os dois principais grupos, liderados pelo primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, e pelo general da reserva Benny Gantz, a se juntar em um governo de união nacional impensável antes do coronavírus

A disputa de poder pode esperar, enquanto elas se unem para lutar contra um inimigo comum, poderoso, desconhecido, ameaçador. O Brasil é a única democracia do mundo em que as fraturas internas do governo ficaram mais expostas no terremoto do coronavírus: o ministro da Saúde sangrou até cair, o presidente participou de manifestação em que se pedia o fechamento do Congresso e da Corte Suprema e a interferência na Polícia Federal levou à saída do ministro da Justiça.

Entre as democracias, o Brasil é também o país cujo governo menos leva a sério a ameaça do coronavírus. Essa pode ser a explicação: a pandemia ainda não conseguiu mobilizar as atenções do governo, que segue ocupado consigo mesmo. 

Em 1985, os presidentes Ronald Reagan, dos EUA, e Mikhail Gorbachev, da União Soviética, estavam reunidos em Genebra para discutir um tratado de redução de armas nucleares. As negociações não avançavam. Os dois saíram então para caminhar à beira do Lago de Genebra, acompanhados apenas de seus intérpretes. Terminaram numa cabana com lareira. Reagan se inclinou para Gorbachev e perguntou: “Se os EUA fossem invadidos por alienígenas, a Rússia viria nos defender?” Gorbachev respondeu: “Com certeza”. Reagan arrematou: “Sinto a mesma coisa em relação a vocês”. 

A atmosfera mudou completamente e se criaram as condições para o primeiro de vários acordos. Para que essa pergunta, adaptada à situação atual, tenha o mesmo efeito sobre o governo e parte da sociedade brasileira, é preciso primeiro que eles entendam o que significa esta pandemia.

 

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