EFE/MAURICIO TORRES
EFE/MAURICIO TORRES

Lasso toma posse no Equador e sela retorno da direita ao poder

Economista e ex-banqueiro herda país com crises financeira, social e de saúde, com promessa de vacinação em massa contra a covid-19, combate a corrupção e governo de união nacional

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 11h00
Atualizado 24 de maio de 2021 | 13h10

QUITO - O economista Guillermo Lasso assumiu a presidência do Equador nesta segunda-feira, 24, selando um retorno da direita ao poder no país depois de um hiato de duas décadas. O ex-banqueiro de 65 anos herda um país em crise econômica, social e de saúde - sendo o sétimo da América Latina em número de casos confirmados (418.851) e mortos (20.193) pela covid-19.

A cerimônia de posse ocorreu na Assembleia Nacional, com a presença de chefes de Estado, como os presidentes Jair Bolsonaro (Brasil), Luis Abinader (República Dominicana), Jovenel Moise (Haiti) e o rei da Espanha, Felipe VI. Os presidentes Iván Duque (Colômbia) e Sebastián Piñera (Chile) haviam confirmado presença, mas não compareceram. 

"O senhor se torna oficialmente o presidente da República do Equador", afirmou Guadalupe Llori, presidente da Assembleia, durante a cerimônia. 

Lasso obteve 52,36% dos votos, 4,72 pontos a mais que o economista Andrés Arauz, de 36 anos, pupilo do ex-presidente socialista Rafael Correa. Ele substituirá o contestado e impopular Lenín Moreno, ex-aliado de Correa, que teve seu mandato marcado pelo rompimento com o ex-presidente e por duros protestos de setores populares e indígenas que o forçaram mudar a capital do país de Quito para Guayaquil no momento de maior instabilidade.

"(Lasso herda) uma situação nacional muito difícil devido a uma crise tripla: econômica, social e sanitária", agravada pela pandemia, disse a cientista política Karen Garzón Sherdeck, da Universidade Internacional SEK, à France-Presse.

Em razão da crise, analistas apontam que o novo governo deverá trabalhar em três eixos: vacinar a população contra a covid-19, priorizar o gasto público e melhorar a produtividade.

"O presidente deve enfrentar paralelamente as três crises para poder reativar a economia e trazer de volta uma geração de emprego e bem-estar da população", disse o economista Alberto Acosta Burneo, da consultora Grupo Spurrier.

No ano passado, a dolarizada economia equatoriana, dependente de suas exportações de petróleo, diminuiu 7,8% e para 2021 se estima uma melhora de 3%. Essa projeção, no entanto, não é suficiente, segundo Acosta. "O objetivo do novo presidente deve ser mudar esse cenário, não pode se contentar com um crescimento de 3% porque é preciso levar em conta que é um rebote de uma queda muito forte", afirma.

Para amenizar as dificuldades econômicas, o ex-presidente Lenín Moreno recorreu a um alto endividamento com a emissão milionária de títulos e a obtenção de créditos com órgãos multilaterais, entre eles o Fundo Monetário Internacional (FMI). O passivo total chegou até 63% do PIB em dezembro, o equivalente a US$61,3 bilhões (ou R$ 326,56 bilhões).

Lasso deverá "priorizar o gasto público, gastar no que é importante para deixar de depender do endividamento porque é cada vez mais difícil se endividar", disse Acosta.

A principal proposta de campanha de Lasso foi vacinar contra a covid-19 nove milhões de pessoas em 100 dias. O presidente eleito, reconheceu, contudo, que enfrenta "realidades muito complexas, necessidades ilimitadas, com recursos muito, muito limitados". E avisou que recorrerá a "reformas tributárias muito criativas".

Entre dezembro de 2019 e março passado, o desemprego no Equador passou de 4,6% para 5,5%. E a pobreza por renda aumentou de 25% em dezembro de 2019 para 32% no mesmo mês de 2020.

Direita sem extremismo

Apesar de representar uma vitória da direita no Equador depois de décadas de domínio socialista - sendo o ex-presidente Rafael Correa a mais destacada figura da esquerda nos últimos anos - Lasso promete fazer um governo de união nacional, contando com o apoio da centro-esquerda na Assembleia Nacional.

No âmbito interno, o presidente eleito prometeu comandar um "governo do encontro", ultrapassando a polarização entre o correísmo e o anticorreísmo. No entanto, afirmou também que manterá uma luta feroz contra a corrupção, o que afeta diretamente a cúpula do correísmo no país.

Rafael Correa vive em exílio na Bélgica, de onde é sua esposa, desde que deixou o poder. Ele foi condenado, em 2020, à revelia a oito anos de prisão por corrupção. Vários ex-funcionários de seu governo também estão presos por corrupção, incluindo seu ex-vice-presidente Jorge Glas, que desde 2017 cumpre seis anos de prisão por receber propinas milionárias da construtora brasileira Odebrecht.

"Não vamos permitir a impunidade. Que os corruptos tenham medo, normal. Que aqueles que abusaram dos equatorianos tenham medo, normal", disse Lasso na quinta-feira, ao apresentar seu gabinete. E completou: “Aqueles de nós que não abusaram de ninguém, respeitaram a lei, que agiram honestamente, não precisam ter medo de um governo de mudança".

Com as forças dispersas e sem maioria absoluta no Congresso, seu movimento Creando Oportunidades (CREO) teve que se aliar a setores de centro e esquerda para conseguir uma frente que assumisse o controle da Assembleia Legislativa, excluindo o correísmo.

Na véspera da eleição presidencial de 11 de abril, o então candidato expressou sua rejeição a qualquer tipo de "totalitarismo", ao afirmar que lutaria por uma "volta ao caminho democrático" da Venezuela.

"Sempre lutaremos pela democracia na região. Promoveremos todos os esforços para que os países sejam governados por governantes democráticos, em um ambiente de liberdade. Nunca o totalitarismo", disse ele em entrevista à France-Press./ AFP

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