(AP Photo / Rodrigo Abd)
(AP Photo / Rodrigo Abd)

Ao menos duas pessoas morrem em protesto contra deposição de Vizcarra no Peru

Líderes do Congresso iniciaram uma reunião de emergência neste domingo, para buscar uma saída para a crise política que eles próprios desencadearam quando demitiram Vizcarra e colocaram em seu lugar o chefe parlamentar Merino

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 04h53
Atualizado 16 de novembro de 2020 | 18h37

LIMA - Ao menos duas pessoas morreram e outras ficaram feridas em protesto realizado no sábado, 14, em Lima em rejeição ao governo de Merino, que assumiu a presidência na terça-feira, 10, depois que o Congresso peruano removeu Martín Vizcarra sob a acusação de "incapacidade moral" como resultado de uma investigação fiscal por dois supostos subornos de US$ 600 mil quando ele era governador da região de Moquegua em 2014. O ex-presidente nega.

Como Vizcarra não tem vice-presidente, ele foi substituído por Manuel Merino, presidente do Congresso e integrante do grupo político de centro-direita Ação Popular (AP), decisão do Congresso que gerou surpresa, confusão e indignação em seu país, com protestos de cidadãos, além da rejeição de políticos, constitucionalistas, analistas e até representantes da Igreja Católica. Desde então, milhares de pessoas saíram às ruas de Lima e outras cidades em defesa de Vizcarra, um político sem partido ou bancada no Congresso, mas muito popular, e contra o governo Merino. 

Os líderes do Congresso peruano iniciaram uma reunião de emergência neste domingo, 15, para buscar uma saída para a crise política que eles próprios desencadearam quando demitiram o presidente Martín Vizcarra há seis dias e colocaram em seu lugar o chefe parlamentar Manuel Merino. 

A reunião a portas fechadas dos chefes das nove bancadas parlamentares, que começou antes das 9 horas (horário local), segundo fontes legislativas, foi convocada pelo novo chefe do Congresso, Luis Valdez, que afirmou que a situação política no Peru é "insustentável", depois da violenta repressão às massivas manifestações contra Merino, que deixaram dois mortos e 112 feridos, segundo autoridades sanitárias.

Valdez solicitou no sábado a renúncia imediata de Manuel Merino à presidência do Peru antes que a Assembleia Legislativa se reunisse neste domingo para avaliar sua destituição.

"Temos que avaliá-la na reunião de porta-vozes, mas peço ao sr. Merino que avalie sua renúncia imediata", declarou Valdez no Canal N. O presidente do Congresso juntou-se, desta forma, aos massivos pedidos feitos por líderes políticos e candidatos à presidência peruana após a violenta repressão governamental contra as manifestações de cidadãos.

Valdez, que assumiu a presidência do Congresso na terça-feira passada depois que Merino tomou posse como presidente do Peru, confirmou que convocou a reunião  do Conselho de Porta-vozes do Congresso para tomar uma decisão sobre o futuro do presidente.

De acordo com informações divulgadas pelas autoridades sanitárias, os confrontos entre manifestantes e a Polícia Nacional durante a marcha deixaram cerca de 63 feridos e pelo menos dois jovens mortos a tiros com chumbo.

Milhares de peruanos participam dos considerados maiores protestos do país em décadas. No sábado, centenas de manifestantes, em sua maioria jovens, hastearam uma enorme bandeira peruana e cantaram o hino nacional na praça central de San Martín. Mais tarde, um bando de manifestantes encapuzados confrontou a polícia, atirando pedras e fogos de artifício contra eles, e as forças de segurança responderam com gás lacrimogêneo. A cidade ecoou com sirenes, gritos e gritos de manifestantes exigindo a remoção de Merino.

Embora os protestos vistos em Lima desde segunda-feira tenham sido em sua maioria de forma pacífica, dezenas de pessoas ficaram feridas em confrontos entre manifestantes e forças de segurança. A polícia usou gás lacrimogêneo e balas de borracha para controlar a agitação e grupos de direitos humanos disseram que o uso da força foi excessivo. 

Apesar dos conflitos, o primeiro-ministro do Peru, Ántero Flores-Aráoz, afirmou que permanecerá no cargo por "lealdade" ao presidente Manuel Merino, apesar da renúncia da maioria de seus ministros. 

“Se o presidente for embora, é claro que irei com ele, mas ele tem minha lealdade e não posso deixá-lo sozinho”, disse Flores-Aráoz em entrevista ao RPP Notícias. No entanto, o chefe de gabinete indicou que estava tentando se comunicar com Merino, mas não sabia "o que estava fazendo".

Quando questionado por jornalistas o que ele pediria ao presidente, o primeiro-ministro simplesmente disse "para atender o telefone". Além disso, negou saber que vários ministros já haviam tornado pública a sua renúncia por não a terem comunicado e, por isso, os convocou para uma reunião de emergência.

“Você tem que ter dignidade e eu tenho, se ele (Merino) ficar, estou com ele, se ele for embora, eu vou com ele”, repetiu o ex-legislador veterano em entrevista que logo gerou risadas e desprezo massivo nas redes sociais.

Flores-Aráoz informou que horas antes esteve com Merino revisando "toda a situação de violência que ocorria nas ruas" no sábado durante as manifestações. Acrescentou que decidiram "realizar uma investigação muito aprofundada" porque havia "informações não corroboradas e contraditórias" sobre os graves incidentes ocorridos no protesto contra o governo. / AFP, EFE e Reuters

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.