Manuela Cavadas/FIDA
Papel de mulheres e jovens é decisivo no projeto Pró-Semiárido. No detalhe, a caderneta agroecológica, que quantifica e dá visibilidade ao trabalho da mulher rural  Manuela Cavadas/FIDA

Considerado melhor do mundo, projeto da ONU no semiárido valoriza mulheres

Pró-Semiárido, realizado por agência das Nações Unidas e governo da Bahia, impacta 62 mil pessoas na região rural mais pobre do Estado

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2020 | 16h10

“Aqui na comunidade tem um antes e um depois do Pró-Semiárido”. Asim a agricultora Carla Dias da Silva se refere ao Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável da Região Semiárida da Bahia, o Pró-Semiárido, que atende 62 mil pessoas no interior do Estado. O projeto, realizado pelo principal banco de investimento rural da Organização das Nações Unidas (ONU) e o governo baiano, foi considerado o melhor do mundo em 2020. E agora luta para se adaptar a uma pandemia global. 

Em janeiro, uma avaliação entre 231 projetos do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Rural (FIDA/ONU) em 98 países colocou a iniciativa baiana no topo. Os motivos para a escolha foram as inovações do projeto, o destaque para o papel de jovens, mulheres e quilombolas, a assistência técnica contínua e os impactos econômicos e sociais conquistados em 32 cidades do semiárido da Bahia.  

Agora, a pandemia tem forçado mudanças: antes, os agricultores vendiam nas feiras das cidades próximas e nos mercados do produtor rural. Tudo isso reduziu. “Estamos procurando outros meios”, explica Carla da Silva, que tem 25 anos, nasceu e cresceu na zona rural do município de Juazeiro.

Enquanto a troca de produtos entre vizinhos ganhou força, outros vendem de porta em porta, usam o WhatsApp e as redes sociais. Já os grãos têm sido armazenados e os animais que seriam abatidos ficam no pasto até as feiras voltarem.

Na avaliação de Ndaya Beltchika, líder da área de gênero e inclusão social do FIDA, a maior adoção de tecnologia é fundamental neste momento. "A pandemia abriu um novo capítulo na área de tecnologia para agricultores, especialmente mulheres e jovens", disse ao Estadão em uma entrevista com jornalistas organizada pela fundação Thomson Reuters. Beltchika afirmou que os governos precisam incluir cada vez mais mulheres e jovens nos processo de decisão e capacitá-los para acessar mercados usando tecnologias.  

"Mulheres e jovens precisam estar representados em todos os projetos de recuperação econômica, desde o planejamento, a elaboração, a implementação e também no monitoramento, para garantir que as atividades sejam inclusivas e relevantes". 

Carla trabalha com quatro comunidades rurais na sua região e conta que a maioria dos produtos da alimentação vem do próprio quintal. Desde a implantação do Pró-Semiárido, foram instalados 1.217 aviários e 766 quintais agroecológicos nas cidades beneficiadas. Também foram construídas 588 cisternas para captação de água e unidades de beneficiamento de frutas. 

“A água aqui vale ouro. Agora está mais fácil plantar, colher, dar água para os animais e para as plantas”, resume. Os produtores foram capacitados para produzir seus próprios fertilizantes, conseguiram aumentar a produtividade do que plantam e agora recebem mais. Além, claro, do ganho econômico de não ter que comprar o que nasce no quintal. 

Investimentos de R$ 217 milhões no semiárido

O FIDA trabalha nos nove Estados do Nordeste, em Minas Gerais e no Espírito Santo, em parceria com governos locais e organizações regionais. Atende cerca de 300 mil famílias rurais na região mais pobre do País para elevar o desenvolvimento no campo. Também faz isso em outros quase 100 países. 

Com a pandemia, o fundo realocou recursos e está investindo R$ 217 milhões em ações como a compra e distribuição de cestas básicas, a aquisição de máscaras confeccionadas pelas comunidades e a disponibilização de sementes e insumos para a próxima safra. 

Mas a importância de projetos como o Pró-Semiárido ultrapassa o aumento da produção, diz Layane Silva Pereira, que tem 21 anos e é filha e neta de agricultores, moradora de Várzea do Poço, cidade com cerca de 9 mil habitantes na região central da Bahia. 

“No campo existe uma sociedade que precisa ser ouvida: a voz do agricultor, da mulher que sofre violência, do jovem que precisa de inclusão e de acesso a oportunidades”, diz ela, que sonha em fazer faculdade um dia. “Muitas vezes essas questões ficam isoladas da sociedade, mas essas vozes precisam ser escutadas e vistas com outro olhar”. 

Layane exalta o acesso a tecnologias e conta que muitos agora produzem todo alimento que precisam, apesar das dificuldades econômicas de um momento como este. Sobre as vozes que não eram ouvidas, dá um exemplo: “Uma senhora que participa de um encontro de mulheres do projeto discute violências psicológicas que ela sofreu no passado e que hoje, por exemplo, ela não vai permitir que a filha dela sofra”, diz. “Ela aprende e então não se sujeita mais a passar por situações de violência física ou psicológica. É uma mudança grande que a gente percebe”.  

A voz das mulheres

O espaço para mulheres e jovens é visto nas atividades diárias. Uma delas é a caderneta agroecológica - nela, as mulheres anotam o que produzem, consomem, vendem e trocam. “Foi criada para ter um controle do que entra e sai, mas também para as mulheres perceberem a importância que tem a mão-de-obra feminina”, explica a jovem Carla Dias. 

“Às vezes, a gente vai nas casas e uma mulher diz: ‘eu não trabalho, eu fico em casa’, ou o homem diz: ‘eu vou trabalhar, mas ela fica em casa’. A gente quer que que elas entendam que ficar em casa, cuidar do quintal, do filho, é um trabalho. Queremos dar visibilidade à mulher agricultora”. 

Geralmente quando se realiza uma reunião no campo, os homens participam e as mulheres precisam tomar conta das crianças. Ali isso também é diferente. “Em toda reunião sobre o projeto é feito em paralelo um trabalho lúdico com as crianças. São contratadas pessoas para fazer uma ciranda, brincar com as crianças e permitir que as mulheres tratem das questões do projeto e tenham uma participação nas decisões”, conta César Maynart, coordenador do Pró-Semiárido e funcionário da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), parceira do FIDA. 

Cada uma das comunidades atendidas pelo projeto Pró-Semiárido tem um jovem que atua como agente comunitário rural. No total, são 115 os jovens que moram nas comunidades, fazem visitas frequentes a todos os beneficiários e têm uma oportunidade de emprego, considerado uma realidade difícil para muitos. “Esses jovens são a ponte entre o projeto e as comunidades”, explica César. “É um incentivo para eles e permite que a gente tenha presença permanente junto às famílias”. 

Durante a pandemia, o governo baiano fez uma chamada para que associações comunitárias e organizações locais produzam 10 milhões de máscaras. O governo vai fornecer materiais como tecidos, linhas e elásticos para a confecção e cada uma será comprada por R$ 1. Depois, elas serão distribuídas nos municípios para funcionários da saúde. Os grupos das 32 cidades atendidas pelo Pró-Semiárido foram encorajados a participar. 

“Hoje posso afirmar que sou uma mulher mais segura, autônoma e com alguns graus de empoderamento conquistados a partir de minha participação, inserção nos espaços de sociabilidade, nos espaços produtivos, organizativos, culturais e reuniões”, contas Aliete Alves, agricultora quilombola de 26 anos. 

Ela mora em uma comunidade quilombola a 100 quilômetros da cidade mais próxima, Campo Formoso. A oportunidade de trabalho garantiu sua permanência no local e aumentou seu vínculo com os agricultores e agricultoras da região. Aliete trabalha para fortalecer a organização das comunidades e dos produtores, o que é importante para facilitar a compra de insumos mais baratos e a venda de produtos com maior acesso a mercados.

Para Aliete, o projeto é ainda uma forma de romper o preconceito de que uma mulher deveria priorizar o trabalho doméstico ou que não poderia estar em espaços de decisão. “Precisamos manter nossa voz ativa e ocupar diferentes espaços. Lugar de mulher é onde ela quiser”, comenta. 

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No Piauí, quatro em cada dez municípios têm um projeto do FIDA|ONU para reduzir a pobreza no campo Manuela Cavadas|FIDA

Durante a pandemia, ONU investe R$ 217 milhões no semiárido brasileiro

Projetos do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Rural (FIDA/ONU) têm como foco aumentar o desenvolvimento e a renda da região mais pobre do País

Paulo Beraldo , O Estado de S.Paulo

Atualizado

No Piauí, quatro em cada dez municípios têm um projeto do FIDA|ONU para reduzir a pobreza no campo Manuela Cavadas|FIDA

Com atuação na região agrícola mais pobre do Brasil e na zona rural de 98 países, o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Rural (FIDA/ONU) irá investir cerca de R$ 217 milhões (US$ 43,5 milhões) em ações para mitigar os efeitos da pandemia no País, algo feito no mundo todo. Na prática, a agência atua como um banco de investimento multilateral para reduzir a pobreza no campo. 

Dentro desse valor, um montante é realocado de projetos em andamento e R$ 18 milhões em recursos novos. “Esse fomento vai propiciar maior renda para os agricultores neste momento, além da compra e distribuição de cestas básicas para 10 mil famílias vulneráveis na região do semiárido”, explica Claus Reiner, diretor do FIDA para o Brasil. 

Outras ações são a compra e distribuição de sementes para a próxima safra, que inicia em junho e vai até agosto, e a aquisição de máscaras respiratórias confeccionadas por comunidades locais, principalmente quilombolas. Presentes no Brasil desde os anos 1980, os projetos do FIDA já beneficiaram cerca de 300 mil famílias do semiárido e são realizados sempre em parceria com governos regionais e agentes locais. Já foram investidos US$ 460 milhões em doações e empréstimos a juros baixos para projetos no País. 

Segundo o diretor-geral da instituição, Gilbert Houngbo, outros 70 países pediram para renegociar os objetivos dos projetos devido à pandemia. "Estamos fazendo isso ativamente, mas tendo em mente que o FIDA não é uma agência humanitária", disse Houngbo ao Estadão em uma entrevista com jornalistas organizada pela fundação Thomson Reuters e pelo FIDA. "Mantemos nossa atuação para garantir que os sistemas produtivos continuem funcionando". 

Projetos estimulam desenvolvimento rural 

Hoje, há seis projetos nos nove Estados do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo. No Piauí, quatro em cada dez municípios têm projeto do FIDA em áreas que aprimoram a criação de caprinos e ovinos, aves, peixes, capacitam para o uso de irrigação e treinam os moradores também em atividades não-agrícolas, como artesanato.

“Deu um grande resultado. São 89 municípios contemplados com o programa ‘Viva o sem-iárido’”, afirma o governador Wellington Dias (PT), citando o avanço do IDH no Estado - da ordem de 0,4 em 2002 para 0,7 em 2019. Cerca de 16 mil pessoas são atendidas no Piauí.  

O governador diz que muitas famílias que viviam do Bolsa Família melhoraram sua renda e chegaram até a deixar o programa. “Outras foram para a linha do empreendedorismo, montaram um pequeno negócio e passaram a ter uma condição de vida muito melhor”, explica. “Tudo isso produz uma economia que vai para o comércio, para o turismo e para outras atividades”. 

Jovens e mulheres 

No Sergipe, o Projeto Dom Távora atua em 15 cidades - 20% do total. Lá, um terço dos participantes precisa ser de jovens e mulheres para participar das ações de capacitação a pequenos produtores - são cerca de 40 mil pessoas atendidas. O secretário da Agricultura e Pesca de Sergipe, André Bonfim, cita exemplos de assentamentos onde o rebanho de ovinos se multiplicou por cinco em dois anos. 

“A criação de ovinos é uma importante fonte de renda, com sua alta adaptabilidade ao semiárido e baixa exigência de grandes áreas para exploração. E há um mercado consumidor crescente”, diz. Cerca de 40% das comunidades atendidas produzem ovinos no Dom Távora. Outro exemplo é a organização das vendas de produtos dos avicultores, já que agora, em rede e de maneira articulada, é possível obter preços melhores e chegar a mais localidades

A comunicação e organização entre os produtores e a assistência técnica tem sido facilitada pelo WhatsApp, já que a maior parte das localidades têm Wi-Fi. “O impacto é muito satisfatório e, de imediato, bastante perceptível na economia de base familiar e municipal”, diz Bonfim. “As vendas a partir de ligação telefônica ou de mensagem pelas redes sociais se intensificaram. A orientação é que, mesmo usando as redes sociais, eles procurem priorizar a articulação coletiva”. 

Acesso à água 

Na Paraíba, o projeto Procase trabalha para reduzir a vulnerabilidade da população rural mais pobre do Estado. Há sistemas que promovem o acesso à água por meio de poços, barragens e dessalinizadores. “São milhares de famílias envolvidas que conseguiram aumentar rapidamente sua renda (em 60%) e sua produção vegetal e animal (em 50%) por meio dessas tecnologias de acesso a água”, explica Leonardo Bichara, oficial de Programas do FIDA para o Brasil. 

O Procase foi escolhido no fim de maio pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) como um caso de sucesso com resultados ambientais, sociais e econômicos. “Está clara a contribuição para promover a agropecuária com a conservação do bioma caatinga para 23 mil famílias e combater a desertificação da região mais árida do Brasil, que fica na Paraíba”. 

Além disso, esses projetos auxiliam comunidades quilombolas e lideradas por mulheres a comercializar produtos sem “atravessadores” e com maior nível de cooperativismo e associativismo. 

Cooperação

Durante a pandemia, o FIDA vai investir US$ 554 milhões (R$ 2,77 bilhões) para apoiar a agricultura familiar em toda a América Latina e no Caribe. Na avaliação de Christian Fischer, diretor do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), é fundamental trocar boas práticas, inovações e fortalecer redes de colaboração no atual momento. 

“Trabalhamos para fortalecer o diálogo entre associações, cooperativas, ONGs, governos. A partir do momento que identificamos uma boa prática, vemos quais dessas características, tanto climáticas como territoriais, existem em outros países e poderiam ser incorporadas para beneficiar a vida dessas comunidades”, explica, destacando também a necessidade de encontrar parceiros privados. O IICA foi fundado em 1942 e tem 34 países-membros.  

O engenheiro agrônomo José Graziano, ex-chefe da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), lembra que o FIDA é um dos dez maiores bancos de cooperação internacional do mundo e que sempre teve atuação forte no Nordeste apoiando projetos de desenvolvimento rural.  

Ele enaltece ações como a compra de máscaras de cooperativas locais e acredita que a agência da ONU deve buscar cada vez mais agentes privados para a cooperação. “Recentemente o FIDA se abriu ao setor privado buscando parcerias win-win (ganha-ganha), com empresas públicas e privadas. É um caminho promissor”. 

Acesso à internet é fundamental, diz presidente do FIDA 

Durante a pandemia, milhões de agricultores e agricultoras em todo o planeta deixaram de ter renda por não conseguir vender seus produtos. Com isso, não estão conseguindo plantar a próxima safra por falta de recursos para adquirir sementes e os insumos necessários. 

Possibilitar mais acesso à internet para as populações rurais e vulneráveis será decisivo para garantir a renda e o desenvolvimento econômico dessas pessoas, de acordo com o FIDA. Houngbo afirmou que a agência tem trabalhado para aumentar o acesso às tecnologias digitais no campo e que a comunicação por celular e internet tem sido muito útil. Informou ainda que o FIDA vai lançar uma iniciativa em parceria com empresas de telecomunicação para elevar a informatização do campo. 

"A agricultura digital precisa ser ampliada para garantir aos produtores rurais se comunicar com seus clientes e comercializarem seus produtos", afirmou Gilbert Houngbo. Hoje, cerca de 80% da população mais pobre do planeta moram em áreas rurais. E, mesmo antes da pandemia, 821 milhões de pessoas já tinham dificuldades de obter alimentos diariamente. 

Houngbo alertou que a pandemia ameaça os ganhos em termos de redução da pobreza observados desde os anos 1990. "Para evitar uma disrupção dessas economias rurais, é preciso garantir que a agricultura, as cadeias de alimentos, os mercados e a comercialização continuem a funcionar".  

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