Alexei Nikolsky/Pool Photo via AP
Alexei Nikolsky/Pool Photo via AP

Putin, de tolerante e liberal a conservador e autoritário

Quando chegou ao poder, o ex-diretor da KGB estava disposto a ter boas relações com países ocidentais para recuperar o papel de seu país no cenário internacional, mas, passados 20 anos, ele parece determinado a conservar sua autoridade local

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2020 | 04h00

MOSCOU - Quando Vladimir Putin foi nomeado primeiro-ministro da Rússia, em agosto de 1999, muitos pensavam que o então desconhecido ex-diretor da KGB, a polícia secreta do período soviético, continuaria as reformas democráticas após o fim da União Soviética. Desde então, porém, ele impôs seu poder unipessoal e, passados vinte anos, parece determinado a conservar sua autoridade em Moscou

Nas últimas semanas, o veto das autoridades russas às candidaturas de oposição nas eleições municipais de várias grandes cidades, incluindo Moscou, e a dura repressão policial e judicial ao movimento de protesto deixaram pouca margem para dúvidas. 

Ao mesmo tempo em que afastava as principais vozes críticas à sua atuação e dissidentes - como o ex-espião Serguei Skripal, envenenado em março de 2018 na Inglaterra, e o político e banqueiro Alexei Navalni, vítima de uma tentativa de envenenamento neste ano na cadeia - Putin, de 66 anos, angariou apoio popular ao devolver a Rússia a um espaço preponderante no cenário internacional e por conseguir uma certa estabilidade econômica. Sua tarefa, agora, é não deixar a oposição levantar a cabeça.

Até o momento, a Constituição não permite a Putin uma nova candidatura em 2024, quando termina seu mandato. O suposto fim de seu governo deixa a classe política russa no limbo sobre suas intenções.

A questão da sucessão é importante ainda mais porque a popularidade de Putin, estratosférica após a anexação da Crimeia, caiu desde o anúncio de uma impopular reforma da Previdência, no ano passado. As regras propostas são repelidas pela população, com renda em queda há cinco anos.

“Atualmente, Putin e seu entorno buscam todos os meios para não partir”, arma o jornalista político Georgui Bovt, para quem o presidente russo acredita que deve “cumprir uma missão histórica”.

Ex-espião político 

Putin nasceu no dia 7 de outubro de 1952, em São Petersburgo. Graduou-se em direito em 1975 e construiu sua carreira na KGB, antiga agência de espionagem soviética, e nos órgãos de segurança que a sucederam. Putin ganhou reputação na KGB como agente de segurança na ex-Alemanha Oriental, na década de 80. Cresceu na política graças a Anatoli Tchubais, um dos pais do modelo russo de privatização. Ele atuou como assessor de Anatoli Sobtchak, prefeito de São Petersburgo, na década de 90. Ficou conhecido como "eminência parda" do governo municipal.

Foi para Moscou por influência de Tchubais. Em 1998, Yeltsin o nomeou chefe do Serviço de Segurança Federal, órgão que assessora o presidente. Em agosto de 99, Putin assumiu, no lugar de Serguei Stepashin, o cargo de primeiro-ministro da Rússia.

A história política de Vladimir Putin começou em 9 de agosto de 1999, quando o então presidente Boris Yeltsin anunciou a nomeação do diretor do FSB, órgão herdeiro da KGB soviética, como chefe de Governo. Analistas consideravam Putin um representante do serviço de Inteligência, com capacidade de acabar com a instabilidade política e a revolta no Cáucaso.

Ele também era visto como um homem de Estado eficaz, que iniciou sua carreira ao lado do liberal prefeito de São Petersburgo, Anatoli Sobtchak, que foi escolhido por Yeltsin para manter a Rússia no caminho da economia de mercado. 

Debilitado, o então presidente renunciou em 31 de dezembro de 1999 e explicou em cadeia nacional de televisão que Putin ficaria responsável por “consolidar a sociedade e garantir a continuidade das reformas”. “No início de seu reinado, a Rússia, ainda pobre e com índice elevado de criminalidade, continuava sendo um país livre e democrático”, disse o jornalista Nikolai Svanidzeh, que recorda um Putin “agradável e conversador, natural e com senso de humor” em seus primeiros anos no Kremlin.

“Após 20 anos de poder sem limites, cercado de aduladores, o que é inevitável em nosso regime relativamente autoritário, certamente ele mudou, e não no bom sentido”, completa.

Rússia X Ocidente 

No início, o primeiro-ministro Putin se mostrava relativamente tolerante e disposto a manter boas relações com os ocidentais. Porém, já apresentava uma imagem severa e iniciava a segunda guerra da Chechênia, o que permitiu sua reeleição como presidente na primeira década do século com 53% dos votos.

Graças à abundância de petróleo e gás, sua primeira década no poder foi marcada pela recuperação do nível de vida dos russos e do Estado, enfraquecido após a queda da URSS, bem como dos meios de comunicação controlados por ambiciosos oligarcas.

“O Putin de hoje não é o de 1999-2000: de liberal, ele passou a conservador”, afirma o cientista político Konstantin Kalachev. O analista acredita que a mudança “foi desencadeada por sua decepção com os ocidentais”. Seu período no poder começou com tentativas de cooperar com o Ocidente e terminou com a criação de antagonismos com os Estados Unidos e a União Europeia, na última década. 

Putin, determinado a recuperar a grandeza perdida de seu país na arena internacional, tentou construir pontes com o Ocidente - ele até tentou entrar na OTAN recebendo o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, no Kremlin em junho de 2000 -, mas ele ficou rapidamente decepcionado. A invasão do Iraque, em 2003, e a entrada dos países bálticos na Aliança Atlântica, em 2004, o convenceram de que a Rússia nunca seria aceita como igual na liga das nações democráticas; portanto, ele optou pelo antagonismo em cada rincão do planeta, da Europa ao Oriente Médio ou América Latina.

Em 2004, aconteceu um ponto de inflexão, com a “Revolução Laranja”, que levou à presidência da Ucrânia um político pró-Ocidente. O Kremlin considerou o episódio uma interferência ocidental em seu quintal. E, desde que proferiu seu discurso incendiário em fevereiro de 2007 em Munique, no qual acusou os EUA de tentar criar um mundo unipolar e realizar ações unilaterais fora do direito internacional, o confronto com o Ocidente se tornou realidade.

Depois, as crises não deram trégua: guerra na Geórgia, em 2008; intervenção ocidental na Líbia, em 2011; apoio ao regime de Bashar Assad, na Síria, desde 2011; e a crise ucraniana, em 2014, com a anexação da Crimeia pela Rússia depois do início de um conflito entre as força de Kiev e os separatistas pró-Moscou.

No Oriente Médio, Putin se tornou o novo árbitro da região, impedindo a derrubada de Assad, vendendo armas para a Turquia e a Arábia Saudita e estreitando os laços com o Egito, Israel e Iraque. Ele também voltou à África com força por meio de contratos de armas e na América Latina enfiou o dedo na ferida do quintal apoiando Nicolás Maduro na Venezuela e Evo Morales na Bolívia.

Mas foi a anexação da península ucraniana da Crimeia, em especial, que provocou a pior crise diplomática entre a Rússia e o Ocidente desde a Guerra Fria. “O conflito com o Ocidente transformou Putin em reacionário”, acredita Bovt, da rádio Business FM. O Ocidente tentou punir a Rússia pela Crimeia e pela intervenção em Donbas com sanções econômicas, mas o resultado não foi o esperado, embora a economia russa esteja estagnada há anos.

Na política interna, o reacionarismo foi traduzido pela defesa de valores conservadores pregados pela Igreja Ortodoxa, em oposição à “decadência ocidental”. Houve retrocesso permanente das liberdades públicas em nome da ordem e da estabilidade na Rússia. / AFP e EFE

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