WAWAYU / AFP
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Romance e propaganda disputam espaço em anime chinês sobre Karl Marx

'O Líder', série criada sob chancela do departamento central de propaganda Partido Comunista Chinês, tenta tornar as teorias do filósofo alemão mais palatáveis para os jovens; produção foi avaliada de forma negativa pelos internautas

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2019 | 10h24

PEQUIM - Em busca de uma nova forma de conquistar os jovens, o Partido Comunista Chinês encomendou a produção de uma série de anime protagonizada por Karl Marx, mas em uma versão jovem, sem barba, magro e com um ar romântico.

Chamada de "O Líder", a série de desenho animado tem como objetivo tornar Marx palatável para a geração mais jovem da China, que geralmente conhece o já velho e barbado filósofo alemão através de aulas e livros densos.

"Há muito trabalho literário sobre Karl Marx, mas não em um formato que os jovens possam aceitar", disse Zhuo Sina, uma das roteiristas da série. "Queríamos preencher este vazio e esperamos que mais pessoas possam ter um entendimento positivo e mais interesse em Marx e sua biografia."

Criada pelo estúdio de animação Wawayu com a chancela do departamento central de propaganda do partido e do Escritório do Programa de Pesquisa e Construção do Marxismo, o lançamento de "O Líder" coincide com o aumento dos esforços do Partido Comunista Chinês em relação ao rigor ideológico - especialmente em salas de aula e em campi universitários.

Com suas elites apaixonadas por carros de luxo lucrando cada vez mais com o boom econômico que revolucionou a China desde que a economia foi aberta ao  mercado em 1978, a lealdade de Pequim a Marx pode parecer uma anomalia.

Mas o Partido Comunista ainda é leal ao seu ancestral ideológico, descartando a aparente contradição e enquadrando sua evolução através de um prisma do "Socialismo com Características Chinesas".

Os alunos começam a aprender as teorias de Marx e Lenin no ensino médio, e funcionários públicos - incluindo jornalistas na mídia estatal - têm que fazer cursos obrigatórios de teoria marxista para garantir promoções.

No ano passado, o presidente chinês, Xi Jinping, também instou os membros do partido a cultivarem o hábito de lerem os clássicos marxistas considerando-os como um "modo de vida" e "busca espiritual".

Isso significa que os roteiristas de "O Líder" tiveram que ajustar alguns aspectos da narrativa para manter a precisão história e criar um desenho atraente, disse Zhuo. "Não podemos escrever qualquer coisa", ressaltou, enfatizando que estudiosos do marxismo estiveram envolvidos em todo o processo de roteirização.

Ela disse que a história de Marx não deve atender às demandas da indústria do entretenimento, onde "não há como fazer descrições muito cuidadosas, precisas e exatas".

Comentários subversivos

Depois de estrear no fim de janeiro no Bilibili, uma popular plataforma de streaming de vídeo entre os jovens fãs de anime, quadrinhos e jogos na China, a série já foi assistida mais de cinco milhões de vezes - um número considerado baixo para um país com 1,4 bilhão de habitantes.

"O Líder" começa com os anos em que Marx passou na universidade onde o jovem filósofo - vestido um elegante blazer bege - divide seu tempo entre estudos fervorosos do trabalho de Hegel e momentos de ternura com Jenny von Westphalen, sua mulher.

A série, no entanto, tem recebido duras críticas do público. No popular site de cinema e literatura chinês Douban, os usuários deram uma classificação de duas estrelas - em uma escala que vai até cinco - para a produção.

Alguns qualificaram a narrativa como "estranha" enquanto outros usaram palavras mais duras para relatar a experiência - um usuário, por exemplo, afirmou que assistir ao anime era uma experiência comparável a "empurrar" excrementos goela abaixo.

Veja abaixo o primeiro episódio de 'O Líder' com legendas em português:

Jeroen de Kloet, professor na Universidade de Amsterdã, que estuda a cultura jovem e a mídia chinesa, afirmou que há muitos diálogos na série e poucas cenas para "humanizar" Marx. "É o governo dando palestras para jovens sobre o que é o marxismo", disse De Kloet.

Ainda assim, apesar de sua clara função de propaganda, a série abriu um espaço surpreendente para discussões sobre o marxismo e até direitos trabalhistas na China.

Entre os muitos comentários que aparecem na tela à medida que cada episódio é reproduzido - um recurso popular na China conhecido como "bullet" - alguns usuários comentaram sobre a liberdade religiosa e os direitos trabalhistas.

Em um desses comentários, um usuário escreveu sobre a remoção forçada de uma conta em uma rede social em razão da ativismo por direitos trabalhistas. Outros mencionaram a sociedade marxista da Universidade de Pequim, que foi alvo de várias tentativas da polícia local e das autoridades escolares para silenciar e reprimir as atividades do grupo dirigido por estudantes.

No ano passado, recém-formados da Universidade de Pequim, especificamente os afiliados ao Jasic Solidarity Group, um movimento de direitos trabalhistas no sul da China, desapareceram.

"É por isso que a propaganda é interessante, porque você também pode lê-la na contramão", disse De Kloet.

Com seus ricos homens de negócios e cultura capitalista, a China moderna está em forte contraste com o desenho animado, que defende os trabalhadores e o proletariado, disse o estudioso. "Você sai da sua porta em Pequim e vê uma realidade completamente diferente... Então há uma tensão lá."

'Soft power'

"O Líder" não é a primeira tentativa do Partido Comunista Chinês de levar o marxismo ao grande público. Em 2018 o escritório central de propaganda do partido lançou um talk show televisivo chamado "Marx entendeu direito", no qual especialistas na teoria marxista, professores e estudantes universitários discutiam o marxismo.

Em janeiro, a agência oficial de notícias Xinhua elogiou o sucesso de uma versão infantil da obra-prima de Marx, "Das Kapital" - um livro ilustrado de 150 páginas destinado a crianças entre 8 e 14 anos de idade.

E apesar de a avaliação online de "O Líder" ser negativa, é um "primeiro passo para que o governo encontre uma forma de divulgar mensagens de uma forma que realmente consegue tem apelo junto aos jovens", disse Christina Xu, que pesquisa e escreve sobre a cultura chinesa na era de internet.

O anime de Marx também é "parte de um esforço de soft power", completou Christina, ressaltando a proeminência de "guo chuang" - ou animações produzidas domesticamente - no Bilibili, que também transmite shows da emissora estatal CCTV.

Os criadores de "O Líder" não pretendem parar na série de desenhos animados. Zhuo disse que a equipe planeja criar um filme de animação sobre Marx, embora a data de lançamento ainda não tenha sido decidida. / AFP

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