Aaron P. Bernstein/AFP PHOTO
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Trump completa um ano na presidência com governo paralisado após impasse no Senado

Sem acordo sobre programa migratório, democratas bloquearam medida que estendia financiamento ao governo federal até fevereiro

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2018 | 03h10
Atualizado 20 Janeiro 2018 | 13h30

WASHIGNTON - O governo Donald Trump completou um ano neste sábado, 20, com o fechamento do governo por falta de acordo no Congresso para aprovação de uma autorização temporária de gastos. Essa é a primeira paralisação da administração em quatro anos e a única da era modera de uma gestão que controla a Casa Branca e as duas Casas do Legislativo.

Senadores democratas e alguns republicanos se recusaram a votar a proposta que manteria o governo em funcionamento depois da meia-noite de sexta-feira. A oposição condicionou seu apoio à medida à aprovação de lei que regularize a situação de 690 mil jovens beneficiados pelo DACA, o programa do ex-presidente Barack Obama que suspendeu deportações de imigrantes ilegais levados aos EUA quando eram criança. Trump anunciou em setembro que a proteção a esse grupo será extinta em março, a menos que o Congresso aprove lei sobre o assunto. 

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A autorização de gastos foi aprovada na Câmara dos Deputados, mas não obteve votos suficientes no Senado, onde os republicanos têm 51 das 100 cadeiras. As duas Casas tiveram sessões na sexta-feira, na tentativa de buscar um acordo que permita a volta do funcionamento do governo na segunda-feira. A votação no Senado terminou com 50 votos a favor e 49 contrários.

Uma das possibilidades em discussão é encurtar seu prazo da autorização de gastos de 16 para 8 de fevereiro. Os dois lados usariam esse período para tentar chegar a um acordo sobre o DACA. A autorização temporária de gastos é a décima a ser analisada pelo Congresso desde o início do ano fiscal, em outubro. Ela é necessária porque os dois partidos não chegaram ainda a um acordo para votar o Orçamento definitivo.

Na noite da quinta-feira 18, a Câmara dos Deputados aprovou o orçamento temporário por 230 votos a favor e 197 contra. No entanto, o caminho no Senado já se mostrava mais complicado, tendo em vista que a maioria republicana na Casa é menor do que na Câmara. Com apenas 51 dos 100 votos no Senado, os republicanos precisavam do apoio de ao menos nove integrantes da oposição. No entanto, alguns senadores da sigla já haviam adiantado que não votariam a favor, como Rand Paul (Kentucky). Diante da inexistência de um acordo, os dois lados começaram a fazer acusações mútuas sobre a responsabilidade por uma eventual paralisação do governo federal.

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O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, disse ontem que via possibilidade de avanço nas negociações. "O presidente e os quatro líderes deveriam se reunir imediatamente e terminar esse acordo, para que todo o governo possa voltar ao trabalho na segunda-feira", afirmou. 

Mas a Casa Branca demonstrou pouca disposição em ceder. "Nós não vamos negociar o status de imigrantes ilegais enquanto democratas mantêm nossos cidadãos que obedecem à lei reféns de suas demandas irresponsáveis", disse a porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders em nota divulgada na madrugada de hoje.

"Os democratas estão muito mais preocupados com imigrantes ilegais do que estão com a nossa grande Forças Armadas e a segurança de nossa perigosa fronteira do Sul. Eles poderiam facilmente fazer um acordo, mas em vez disso decidiram jogar a política do fechamento (do governo)", escreveu Trump no Twitter.

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"Esse será conhecido como o #TrumpShutdwon. Não há ninguém que mereça mais a culpa pela posição em que nos encontramos do que o presidente Trump", escreveu Schumer na mídia social.

Pesquisa divulgada sexta-feira pela CNN mostrou que 84% dos americanos são favoráveis à permanência dos beneficiários do DACA nos EUA. O apoio é de 96% entre os democratas e de 72% entre os republicanos. Para 63%, resolver essa questão deve ser uma das prioridades do Congresso. Mas 56% disseram que evitar o fechamento do governo era mais importante do que aprovar a prorrogação do DACA.

Com a paralisação do governo, apenas serviços considerados "essenciais" serão prestados -Correios, hospitais que atendem veteranos, pagamentos do seguro social e programas de saúde para idosos e mais pobres continuarão em operação. Monumentos e grande parte dos parques nacionais permanecerão abertos -eles foram fechados em 2013, na paralisação do governo Obama imposta pelos republicanos.

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A probabilidade de que houvesse uma paralisação prolongada do governo dos Estados Unidos parecia baixa, na avaliação do economista-chefe para EUA da RBC Capital Markets, Tom Porcelli. Ele lembrou que o presidente americano tem controle sobre grande parte dos eleitores que o apoiaram e que, dos assentos do Senado que foram decididos em menos 10% em 2012, Trump ganhou em seis desses Estados atualmente detidos pelos democratas.

Em nota a clientes, Porcelli comenta que tanto democratas quanto senadores sairiam perdendo com uma paralisação da máquina pública. No entanto, o economista aponta que o "shutdown", termo para se referir à paralisação, não está diretamente relacionado com o teto da dívida, mas sim com o financiamento ao governo. "A falta de aprovação de uma resolução orçamentária de curto prazo não tem relação com o teto da dívida, que mesmo se não for elevado, seria um problema maior somente em março", disse. / Com Francine De Lorenzo, Mateus Fagundes, Matheus Maderal e Victor Rezende

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