REUTERS/Martin Acosta/File Photo - 10/12/2011
REUTERS/Martin Acosta/File Photo - 10/12/2011

Senado autoriza revista de residências de Cristina Kirchner na Argentina

Aval foi dado pela maioria dos senadores, incluindo a própria ex-presidente; revista foi solicitada pelo juiz Claudio Bonadio

O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2018 | 21h35

BUENOS AIRES - O Senado da Argentina autorizou nesta quarta-feira, 22, a revista das três residências da ex-presidente Cristina Kirchner na Argentina, dando mais um passo no caso que investiga propinas milionárias em troca de contratos de obras públicas.

A autorização teve o aval da maioria dos 66 senadores, incluindo da própria Cristina Kirchner, informou a presidente do Senado, Gabriela Michetti.

A revista foi solicitada pelo juiz Claudio Bonadio, já que a ex-presidente (2007-2015), eleita senadora em 2017, tem foro privilegiado como senadora. Devido ao seu foro, Kirchner não pode ser detida, mas pode ser acusada e condenada.

Em carta aos diferentes blocos do Senado, divulgada na terça-feira, Kirchner se declarou disposta a permitir a revista às suas residências em Buenos Aires, Santa Cruz e El Calafate, as duas últimas no sul do país, embora tenha pedido que proíbam a presença de câmeras durante o procedimento.

Também solicitou que estejam presentes seus advogados e um senador durante os procedimentos.

Esses pedidos, especialmente o de impedir a divulgação de imagens, foi apoiado por vários congressistas com o argumento de resguardo da intimidade.

Kirchner "merece respeito. Revistem, busquem as provas, mas com respeito. Respeitem a dignidade humana", enfatizou o senador Adolfo Rodríguez Saa, da Unidade Justicialista (peronista).

De acordo com os cálculos iniciais, a trama de subornos poderia implicar cerca de  US$ 160 milhões.

Da bancada da Frente para Vitória, de Kirchner, a senadora Ana Almirón colocou em dúvida "o objeto e a necessidade da revista".

"Querem esconder a verdade do que acontece na Argentina, mas o povo não compra isso", declarou a senadora, em alusão ao mal-estar pelas dificuldades econômicas que levaram o presidente Mauricio Macri a acordar com o FMI um auxílio de 50 bilhões de dólares em três anos.

Do lado de fora do Congresso, alguns partidários da ex-presidente aguardaram a decisão com cartazes em apoio a ela, enquanto outro pequeno grupo se manifestou pela retirada de seu foro.

Na noite de terça-feira, milhares de pessoas se manifestaram em frente ao Congresso, horas antes do debate parlamentar, para exigir a retirada da imunidade parlamentar da senadora.

"Prisão para Cristina!", "Devolvam o dinheiro!", foram algumas das frases dos manifestantes.

Dinheiro 

A ex-presidente, da corrente de centro-esquerda peronista e que sucedeu seu marido Néstor Kirchner no cargo em 2007, é a pessoa de mais alto escalão envolvida no chamado "Escândalo dos cadernos", que investiga supostos subornos de importantes empresários entre 2005 e 2015 para obter contratos de obras públicas.

A causa judicial começou há um mês baseada em anotações feitas por um ex-motorista do Ministério de Planejamento, Oscar Centeno, que supostamente fez percursos por Buenos Aires durante 10 anos levando e trazendo sacolas carregadas de milhões de dólares.

O apartamento de Kirchner em Buenos Aires, assim como a casa presidencial de Olivos e a Casa Rosada, sede do governo, aparecem nesses cadernos como pontos de entrega das sacolas.

O juiz busca pistas sobre onde poderia ter ficado o dinheiro, aparentemente sempre recebido em espécie.

As anotações do motorista logo se somaram às confissões de vários empresários detidos que decidiram ir à Justiça na condição de arrependido, assim como, recentemente, ex-funcionários do governo de Néstor (2003-2007) e Cristina Kirchner.

Além deste caso, Cristina Kirchner enfrenta outros cinco processos por suposto enriquecimento ilícito e por encobrimento de iranianos acusados pelo atentado à mutual judaica AMIA em 1994, que deixou 85 mortos e 300 feridos.

A ex-presidente se considera uma "perseguida política" e assegura que o pedido para revistarem suas casas é "um show" mediático. / AFP

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